A Gruta do Lou

Longe de mim

Enquanto o mundo gira em torno de suas próprias mazelas, sigo administrando as minhas próprias incoerências e, claro, com o bolso vazio de respostas a tantas perguntas. Por aqui, o assunto principal é a eleição para presidente, cujo primeiro turno acontece em 03 de outubro. Segundo as pesquisas, estamos às vésperas de fazer nossa primeira presidente do sexo feminino, embora as más línguas duvidem da feminilidade da postulante melhor colocada nas pesquisas. Como já declarei, não irei às urnas fiel às minhas convicções e ficarei sujeito às penalidades da lei, pois aqui, além do voto não ser livre (democracia?) ainda há uma série de sanções para quem não o pratica. Nosso país é, em verdade, uma ditadura política, pois tudo gira segundo os interesses da classe política e segundo os ditames dela.

Entretanto, sigo minha sina calhorda, apesar dos pesares, com pouco me iludo e acabo acreditando em algum semelhante, sempre, apesar dos sinais evidentes gritando para na confiar no maldito homem (ou mulher).

Ontem participei da reunião do grupo de ajuda a parentes e amigos de dependentes químicos, com a paradoxal presença de vários dependentes no meio da turma . Não resisti e acabei palpitando na hora em que a dirigente, uma mulher (ave!), declarou solenemente que a recuperação só acontece quando a vítima decide, por si só e/ou com sua força de vontade, a mesma que ele tinha quando não resistiu às drogas, sair de de seu calvário fumante, cheirante, bebente, etc.

Depois de alguns mais de trinta anos às voltas com esses caras, descobri que isso funciona mais ou menos como a salvação orquestrada pelo pai celestial de Jesus, ou seja, ela está aí à disposição de todos, incondicionalmente e de graça. O que nos impede de alcança-la é o nosso ego, lugar reservado em cada um de nós, para o orgulho e os irmãos dele. Com ele no comando dos ímpios e adictos, o criador do universo mantém distância de segurança, pois sabe que se tentar construir sobre essa areia, fatalmente, o castelo ruirá em algum momento, compulsoriamente. Nem os bêbados e viciados escapam dessa equação, sem que haja a completa e irrestrita liberdade dos laços do velho “EU” (batizado de EGO pelo imprudente Sigmund Freud) alardeada e propagada por Jesus de Nazaré e ratificada pelo cardeal arcebispo Paulo, em carta enviada aos cristãos de Corinto, neca de bitibiriba.

Aí a mulher caiu em cima cheia de raiva e foi acompanhada por um oriental que não vai com minha cara, coisa comum entre os amarelos e o bando de idiotas necessários presentes, como diria o finado Nelson Rodrigues, enquanto eu fazia tipo encarnando postura a la Gandhi, cheio de paz e longanimidade.

Não contente, após o término da reunião, a figura, pra variar uma psicóloga, procurou os pastores da igreja (local do grupo) para fazer a famosa fofoca instigante contra o papai aqui. Macaco velho, suspeitei desde o princípio, entrei na sala na hora H e evitei que a coisa crescesse expondo meu lado da pendenga. Não ficou muito bom, o concerto conserto, mas os pastores, embora tenham tentado alguns argumentos fundamentalistas a princípio, sucumbiram aos meus argumentos anarquicos protestantes e não ousaram insistir em qualquer tipo de debate, principalmente em terreno onde, seguramente, a vantagem seria toda minha, devido ao meu proverbial saber bíblico filosófico.

Isso posto, resta-me continuar andando, afinal o show must go on, e essa é a minha vida, Projeto Coração Valente, os malucos e eu, projetos que tenho tentado encerrar, de todas as formas, mas quanto mais procuro me afastar deles, mais eles me arrastam de volta e sempre mais contundentemente.

4 thoughts on “Longe de mim

  1. Tua proverbial insanidade te permite dizer as mais deslavadas verdades com a maior cara-de-pau. Depois reclama que não faz sucesso… Desde quando os que incomodam tem sucesso! Só os que se acomodam o fazem.

  2. Rubinho
    Esse deve ser um dos privilégios dos anos da experiência. Tempo de fazer sucesso já foi, agora é falar o que pensa e se fazer de surdo. Como? Repete, não estou ouvindo nada
    .

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