A Gruta do Lou

Livros Vivos


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Livros costumam ter vida própria, incluindo sentimentos e tudo. Aprendi isso com o Borges. Ele me ensinou a tomar muito cuidado com o lugar em que coloco cada livro. Por exemplo, livros antagônicos devem estar em extremos opostos, etc.

Estamos começando a preparar nossa mudança e a Dedé resolveu começar a encaixotar pelos livros. Ela não sabe, mas posso sentir essa operação em meu corpo. Cada livro que ela toca, limpa e guarda em uma caixa me causa dores horríveis. Sem falar no meu medo de que eles possam estar sendo assentados em lugar inadequado. Já pensou um Gondim deitado em cima de um Caio, ou um Hagin ao lado de um Piper?

Logo depois de começar, ela me fez uma pergunta terrível: “Por que você não vende esses livros?” Eles não servem para nada, mesmo, arrematou. Ela estava se referindo aos teológicos. Não tenho a maior biblioteca teológica da paroquia, mas ela conta com bons livros e alguns raros na maioria das bibliotecas pastorais. Em uma de minhas viagens missionárias, a Slavic Gospel Association me presenteou com a biblioteca pastoral que eles forneciam aos pastores que viviam atrás da cortina de ferro. Eram cento e poucos volumes capazes de possibilitar aos irmãos perseguidos um mínimo de erudição em seus ministérios malditos.

Pertenci, no inicio da minha caminha cristã, a uma Igreja dirigida por um pastor ditador e sem qualquer treinamento teológico. Seu modelo autocrático era do tipo paternalista, ou seja, o pior tipo de autoritarismo existente. As pessoas vivem a dúvida se amam ou assassinam o cara. Então calculei que poderia puxar-lhe o tapete, em longo prazo, com um bom plano e alguma inteligência. Meu primeiro passo foi entrar para o seminário. Das duas uma, poderia herdar o cargo dele, já que os dois filhos homens dele não eram lá muito estudiosos e, menos ainda, espirituais e sem compromisso cristão. Ele teria mais quinze ou vinte anos de vida, no máximo e até lá eu estaria pronto. A outra possibilidade seria me tornar pastor de alguma filial da igreja matriz. Se tivesse permanecido por lá, teria mesmo grandes chances de ver uma dessas opções concretizadas.

Segui estudando e colecionando livros. Uma vez tive um papo com o Dr. Shedd e pedi para ele me dar uma receita para melhor me preparar com vistas ao ministério pastoral. Sem hesitar ele disse: Trate de ter inglês fluente, sobretudo para leituras, porque os melhores livros teológicos estão em inglês e permanecerão assim por muito tempo ainda. Se sua opção é especializar-se em Novo Testamento (eu disse isso a ele) estude grego koiné para poder ler no original. Importe uma cópia do método de aprendizagem de grego da Editorial Caribe. Além disso, estude teologia sistemática à exaustão, leia todos os comentários do NT que puder e coloque seu foco em aprender, deixando o diploma para segundo plano (eu já tinha uma graduação, à época).

Fiz tudo isso. Entretanto, surgiu a oportunidade para missões, depois um cargo importante em uma organização missionária internacional, acabei deixando aquela igreja e virei batista, membro da Igreja Batista do Morumbi e depois seminarista da Batista do Sumarezinho, que não existe mais. Depois fui chutado da organização missionária por um vagabundo qualquer e acabei sem igreja, sem ministério pastoral, mas cheio de bons livros, até hoje comigo.

Descobri então mais uma qualidade nesses volumes destruidores de nossas reservas florestais tão almejadas por todos os outros povos do planeta, eles são fiéis. Tudo que tenho, em termos materiais, são meus livros. Não conheço ninguém capaz de desfazer de suas riquezas e eu só o faria se um anjo viesse, pessoalmente, me trazer alguma ordem do divino nesse sentido. Minha esposa e filhos estão orientados sobre o que fazer com meus livros quando eu partir para a eternidade. Se eles não servirem mais, devido aos E-books ou qualquer outra invenção maquiavélica de um Jobs ridículo, então a ordem é destruir. Vieram do pó e ao pó tornarão, como eu.

lousign


 

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