A Gruta do Lou

Liberte-se comendo o filho do vizinho

 

Don Richardson teve seus dias de glória, às tantas inventou o tal fator Melquisedeque, tema de um dos livros dele, por sinal, muito mal escrito, segundo ele, isso seria a chave para abrir a porta nas culturas hostis e por onde entraria o evangelho. Como se o papel do evangelho fosse a aculturação. “Eita ignorânça que astravanca o pogresso”, até quando vos sofrerei?

O Don acredita nessa bobagem até hoje. Velhinho, aceita participar de qualquer coisa, desde que lhe renda alguns trocados, como ir a eventos do tipo Missão na Integra, que não tem nada a ver com a velha cátedra de Missões, hoje em desuso, onde ele fala sobre suas ultrapassadas ideias, enquanto os outros cantam suas ladainhas comunistas.

Mas em meio a essas excrescências, o Don acabou encontrando ouro, se bem que não tenha encarado sua descoberta assim. O relato desse acontecimento encontra-se nas narrativas que ele fez em seu livro O Totem da Paz, esse ainda um livrinho palatável. Estou me referindo à prática da traição como forma de libertação. Claro que não foi essa a ótica do Don. Essa sacada, mais sacana, é minha, claro, como não poderia deixar de ser.

Esse foi o primeiro livro de missões que, entre outras coisas, me divertiu. Geralmente os livros dessa espécie são pesados e duros de engolir. Principalmente porque a quase totalidade pensava como o Don e confundia Missões com imperialismo. Coisa de gringos. Conta o Don, ali, sobre a prática de algumas tribos indígenas da Nova Guiné, cujo teor principal se dava através da traição. Em suma, era um jogo, onde o vencedor era aquele capaz de praticar a traição mais eficaz. Como esses seres primitivos costumavam praticar a antropofagia, não aquela do Ruben Alves, óbvio, o jogo da traição acabou redundando em um ato antropofágico, para aqueles indígenas cheios de primitivismos.

A essência do jogo consistia em encontrar uma forma de atrair o primogênito (filho mais velho) do membro mais importante da tribo vizinha para algum lugar inseguro e, nesse ponto, subjugá-lo destinando-o ao caldeirão, devidamente pré preparado pelo resto da tribo. Para conseguir tal intento, o método usado era a traição ou, como costumam denominar os cariocas, o golpe, ou seja, alguém oferecia algo irresistível ao moleque a fim de tirar o imprudente da zona de segurança da tribo dele, e quando o carinha saísse, bau, bau.

Mas o interessante, nesse caso, não era a antropofagia, obviamente, como bem intuiu o amigo do Ruben Alves, mas a abstração libertadora desse ato. A grosso modo, nós fazemos o mesmo com o nosso jogo predileto, o futebol, ou seja, o gol não passa de uma abstração libertadora, pois o prazer de uma traição bem sucedida é inigualável, e a conquista do campeonato uma abstração ainda maior. Para fazer gols e ganhar campeonatos é preciso ser um exímio traidor, a meu ver.

Por isso os governantes modernos gastam milhões do dinheiro público em busca desses campeonatos. Saúde, educação e segurança não aliviam nossas necessidades de prazer, mas ganhar o campeonato do mundo, para alguns, é milhares de vezes mais gostoso e satisfatório do que uma boa transa. Talvez, por isso, tantos prefiram deixar suas patroas na mão para gastar seu precioso tempo nos templos futebolísticos.

Se fosse técnico de alguma equipe de futebol, armaria meu time para praticar a traição o tempo todo, algo como deixar um buraco na defesa, propositalmente, para atrair o time adversário para o nosso campo e quando eles caíssem na armadilha, contra golpeá-los com ataques mortais e completamente antropofágicos, no sentido de engoli-los mortalmente.

Se você não experimentou trair para libertar-se, não sabe o que é um êxtase supremo. Mas, por favor, não vá comer o filho do seu vizinho ou qualquer outra pessoa da casa dele, isso dá cana da grossa, sem falar que fazê-lo, lhe privará da vida eterna, eternamente. Salvo engano. Contente-se em enganar, praticar golpes e traições inteligentes, como fazer os caras acreditarem que Deus está em sua casa, que você é um profeta, apóstolo, ou talvez, um bom escritor de blog. Nossa, isso pode leva-lo a orgasmos múltiplos, se eles caírem na sua traição, claro.

Dizem por aí, que o maior vencedor dos evangelhos foi Judas, o traidor e não Jesus o traído. Tirando a maldade dessa crença, Judas deve ter experimentado o maior prazer já sentido na história da humanidade. Dane-se a salvação.


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