A Gruta do Lou

Liberdade, a grande escravidão

Slavoj Sizek

No fim é, a liberdade, a grande escravidão. Alguém já disse que escravizar-se é libertar-se, mas nunca tinha pensado que ao libertar-me, estaria me escravizando.

Assinei, de livre e espontânea vontade, um abaixo assinado, ninguém nunca me explicou porque tem que ser abaixo e não acima, para apoio ao povo egípcio, em sua reivindicação contra a falta de liberdades naquele país. Sempre que me convidam a esse programa de índio, aceito logo, principalmente porque é politicamente correto ficar ao lado de causas contra tiranias e a favor da liberdade irrestrita.

Alias, o que não falta, por aí, é uma boa tirania, fora as constantes ameaças de novas situações tirânicas. Há um monte de países e porções humanas vivendo sob regimes absolutamente não democráticos e muito menos livres como Cuba, Egito, Irã, Afeganistão, Iraque, vários na África, FIFA, CBF, Corinthians, etc. Claro que nós pressupomos ser a liberdade o grande objetivo a ser alcançado por e para todas as criaturas na face da terra. Até aí, nada demais e tudo certinho.

Então surge um filosofo contemporâneo Zizek, de origem Eslovaca, figura excêntrica e simpaticíssima, e faz algumas afirmações interessantes, para dizer o mínimo. Segundo seu próprio pensamento teológico, Deus teria entregue o planeta para nele vivermos livremente, o barato é que isso parece bater com o que está escrito em nossas bíblias domésticas, em outras palavras, apesar dessas aberrações ditatoriais, a vontade de Deus para nós seria a boa, total e irrestrita liberdade.

Somado à liberdade, Deus teria nos legado algo mais, tão insuportável quanto a primeira dádiva, ou seja, a confiança. Isso mesmo, exatamente o contrário do que a maioria imagina e apregoa por aí que deveríamos confiar em Deus, Ele confia em nós, de tal maneira que deixou o mundo por nossa conta. Nossa obrigação seria bem outra, lembrar sempre que Deus confia em nós. Ao invés de consolar um infeliz com o trágico: “Confie em Deus”, deveríamos fazê-lo com um: “Deus confia em você”.

Aliás, estamos todos atolados em milhares de obrigações relacionadas à manutenção da liberdade e da confiança depositada por Deus em nós. Não vá pensando que estou falando em nosso proverbial instinto de defesa do ser humano, do planeta e do universo. Refiro-me à monumental culpa que carregamos em nossos lombos por não conseguirmos ser livres. Além da luta titânica para mantermo-nos minimamente livres, quando isso seria a nossa vocação natural, ainda há todas essas situações de falta de liberdade, mundo a fora, pelas quais nos sentimos responsáveis e culpados, de um jeito ou de outro. Não há um dia que não receba um ou mais E-mail do Avaaz, Green Peace, SOS Mata Atlântica, Projeto Coração Valente, Portas Abertas, Visão Mundial e todos os congêneres para me lembrar o quanto estou falhando em relação à liberdade. Nossa, como isso me faz mal.

Acho que posso afirmar, sem medo de errar, que não há nada nesse mundo, nem ditaduras, nem tiranias, nem partidos de trabalhadores ou de vagabundos, que me escravize mais do que a liberdade. Ela não me esmaga apenas por suas exigências constantes, eternas, históricas e presentes, ela também reduz meu psique a uma eterna subserviência aos ditames da culpa gerada pela angustia de viver sem liberdade, dentro e fora de mim. Sem falar na minha total incapacidade de me libertar e muito menos de libertar o próximo. Em outras palavras, somos escravos da liberdade e da confiança que Deus tem em nós. Elas são insuportáveis.

Capricornio PB

4 thoughts on “Liberdade, a grande escravidão

  1. Gostei muito do Zizek, o cristão ateu. Realmente simpático e provocativo. E com um jeitão de que, se tivesse nascido recentemente, teria sido tratado com ritalina e hj estaria calmo e pacato trabalhando como comerciante num beco da Eslovaquia.

    É, em se tratando de pessoas, talvez seja melhor deixar o rio correr, mesmo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *