A Gruta do Lou

Jogo de Cintura

 

Vivemos em um mundo onde as pessoas apreciam homens e mulheres que conseguem destacar-se por atitudes benemerentes em favor dos sofredores do caminho, desde que eles não morem em suas casas ou façam parte de suas famílias. Sempre me lembro da frase dita por Ginah a seus companheiros sobre Gandhi: “Ele não sabe quanto nos custa mantê-lo pobre”.

Uma das passagens bíblicas mais famosas e mais pregadas, depois da parábola do Filho Pródigo, é a história do Bom Samaritano, uma espécie de presente de Jesus aos hipócritas que a utilizam para mostrar o argueiro no olho dos outros sem se dar conta da trave em seu próprio.

Em algum tempo de minha vida, dei-me conta da falácia da expressão “Jogo de cintura”, que não significa nada além de desonestidade. Para mim, a conversa acaba quando alguém me diz que preciso ter mais “jogo de cintura”. Tenho um amigo que diz a mesma coisa com a advertência de que “sou muito exigente”, quando oriento meus filhos a não trabalhar sem registro ou exigirem seus direitos em todas as oportunidades.

Não foram poucos os que me aconselharam a fazer o jogo do pessoal do INCOR. Até o principal cirurgião, um irmão em Cristo, me ligou aconselhando a aceitar as exigências imorais e burocráticas do pessoal daquele hospital, infelizmente, a única opção para nosso filho, no Brasil. E nem é lá essas coisas. Para meu azar, visitei um hospital especializado no problema nos Estados Unidos e não há como ser enganado por aqui. Sou obrigado a dar razão ao sábio quando diz que melhor é não saber.

Perdi a conta de quantas situações de trabalho se desfizeram por causa dessas minhas crenças tolas. Imagine, deixei de fazer um trabalho super rentável só porque envolvia subornar fiscais da honestíssima alfândega do aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Fora ter me auto sacaneado quando dirigi creches diretas da Prefeitura de São Paulo, peitando a corja petista e sua hipocrisia, infinitamente maior do que a nossa, até que eles cavassem minha sepultura e lograssem êxito em me desalojar de lá.

Gostaria apenas de pagar minhas contas, afinal todo mundo as tem. Madre Tereza também experimentou sentimentos estranhos ao perceber o desconforto que causava ao Papa e seus cardeais com seus atos tresloucados de boasamaritanisse. Luther King, Santa Tereza de Ávila e São Francisco conheceram as mesmas dores, sem contar, que os maiores prejudicados, antes de qualquer um, foram eles mesmos. Então imagine um cara todo equivocado feito eu, quem me dará um mínimo benefício de dúvida?

Mais fácil crucificar-me. Crucifica-o, crucifica-o. Afinal, sou apenas mais um vagabundo, caloteiro e picareta, sob a cruz de Cristo, às vezes, bem atrás dela. Pior é que, nessas horas, preferiria mil vezes ser um solitário nesse mundo do diabo. Acho que facilmente chegaria em qualquer estado norte americano e me violentaria na direção de um taxi qualquer, sem ter que dar satisfação a ninguém, ou uma das vias mais covardes e mais fáceis, como encher a cara ou enfiar uma bala na cabeça. Mas coloquei filhos no mundo, depois de fazer de uma bela e promissora jovem, minha esposa.

Só me resta morrer tentando acertar, apesar dos meus princípios pouco inteligentes em um mundo igual. Essas bobagens, nas quais, miseravelmente, acredito com nauseas e vômitos, são a minha maior desgraça.

3 thoughts on “Jogo de Cintura

  1. Tem o tal do “Jeitinho” também nesse grupo de quebra-galho, não tem Lou?

    É verdade Nelson, quando o “jeitinho” é utilizado para lograr êxito em detrimento dos outros, sem dúvida. Mas há um tipo de jeitinho, muito utilizado por nós em terras estrangeiras, que funciona como capacidade de adaptação e isso pode ser positivo. Entretanto, a linha entre esses dois tipos é tênue e facil de ser transposta, caindo na vala da desonestidade, se não me engano.

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