Jesus de Nazaré no Brasil (Parte 2)

Palácio dos BandeirantesEvidentemente, a imprensa não teve acesso à videoconferência do Lulalá. Após o término, o porta-voz do Palácio dos Banderrantes veio à sala de imprensa e fez um resumo da coisa, assim:

Bom, não teve videoconferência, porra nenhuma. O aleijado de língua presa falou uma hora e quinze minutos e, no fim, não abriu nem para perguntas. Tirando todas as idiotices, erros de português, de geografia, de matemática, etc… o que ele disse foi o seguinte:

– Enquanto esse Jesus estiver em solo brasileiro, ninguém mata ninguém. Não quero saber de, principalmente, polícia matando bandido, suspeito, criança, juiz, procurador da república, seja lá quem for, oficialmente ou extra-oficialmente, como vocês adoram fazer. Vou avisando logo, eu não mandarei cortar a garganta de soldado raso nenhum. Se algum polícia deste país matar durante a estada do companheiro filho do carpinteiro por aqui, as cabeças que rolarão serão as dos chefes, comandantes, governadores, prefeitos, etc… Aí do governador que não me obedecer. Passará o resto do meu governo a pão e água. Ou vocês não ouviram o que o homem disse: “Não matarás”. Tá na cara que ele veio aqui a mando daqueles excomungados da ONU que ficam falando, todo dia lá, que aqui morre mais gente que no Iraque, principalmente no Rio de Janeiro. Então, companheiro Cabra, pode parar. Enquanto ele estiver aqui, você vai ter que arrumar um jeito de manter os seus polícias com a arma dentro das calças e sem tiro nenhum. E mais, os traficantes e os assaltantes também não poderão matar, dar tiros e, muito menos, traficar. Tudo que ele quer é uma chacinazinha ou alguma morte daquelas de bala perdida para fazer o maior estardalhaço e acabar com o meu governo. Eu estou avisando: Não cairei sozinho, levo todo mundo comigo. E o que eu estou falando para o Cabra, serve para todos os estados. Não tem essa de pensar que é só no Rio, não. Viu seu Ferra. Se fosse só no Rio ele não iria ficar, logo, em São Paulo, não. Aposto que vocês não sabem nem onde ele se escondeu. Aí de quem deixar acontecer uma mortezinha se quer. Esse sim estará morto. Eu quero ver esse Galileu safado sair daqui com o rabo no meio das pernas. Ele vai ter que dizer, no último dia, que nesse país mora o paraíso, ou eu não me chamo Lulalá.

Assim terminou o pronunciamento do presidente via videoconferência. Ferra voltou com todos os seus secretários para a sala de reuniões. Mandou servir o café com biscoitos franceses e balas de aniz do Líbano. Em seguida, falou aos seus colaboradores:

– Acho que dessa vez o sapo barbudo tem razão. Não podemos deixar ninguém morrer, que não seja de causas naturais. Aliás se, por acaso, algum assassinato escapar do nosso controle, o anúncio não será outro: morreu de causas naturais. Combinado? Eu e vocês também ouvimos claramente o que o homem de Deus disse. Ele veio mesmo pegar no nosso pé por causa do número de mortes neste país. Não fosse isso, ele não chegaria dizendo em seu primeiro sermão o que ele disse: “Não matarás”. Filho da Mãe! Queria vê-lo combater o crime sem matar ninguém. Quem sabe quanto tempo ele ficará no Brasil, ou pelo menos, quanto tempo ele ficará em São Paulo? Só falta, agora, vocês me dizerem que ninguém sabe nem onde ele está hospedado? Caramba! O sapo tinha razão. É sempre a mesma incompetência. Na hora de pegar cartão de crédito ilimitado vocês são super competentes. Para gastá-los então, nem se fala. Pelo menos, com esse sujeito exótico por aqui, a imprensa deverá parar um pouco de falar nesses malditos cartões. Olhem bem para mim. Ninguém dirá para a imprensa que não sabemos onde ele está. Ajam como se soubéssemos e desejássemos preservar a paz de uma pessoa tão espiritual como ele. Ok? Vocês aí da segurança: Chamem seus comandados e ordenem a eles que procurem os marginais e façam o que for necessário para eles não matarem ninguém nesses dias. Soltem quem eles quiserem, deixem-nos venderem a droga, sei lá, só não pode matar. Melhor todo mundo drogado do que matando por aí, enquanto ele estiver aqui. Ah! Roubar também não. Assalto sempre acaba virando em morte. Então está cancelado até segunda ordem. Outra coisa, sem seqüestro, também. Ouçam bem: esse homem não está brincando. Uma palavra dele e estaremos liquidados. Não podemos nem pensar em acabar com ele, o mundo viria sobre nós. Cancelem todas as folgas e coloquem a polícia nas ruas e vinte e quatro horas. Nada daquela baba de só policiar de dia e abandonar as ruas ao deus dará, à noite. Enquanto Jesus estiver em São Paulo, ninguém matará.

O Secretário de Segurança pediu a palavra:

Excelência, como nós poderemos executar nosso trabalho sem matar? Ninguém sabe quanto tempo esse cara ficará por aqui. Todo mundo está pensando que ele ficará uns dois ou três dias, mas ele não disse nada e ninguém que está com ele disse. E se ele veio para ficar um mês, ou pior, um ano, ou até o fim do nosso mandato? Nós ficaremos sem matar bandidos, todo esse tempo? Os bandidos não matarão ninguém? O senhor sabe quanto ganha um policial. Enquanto eles podem atirar e matar um aqui e outro ali, eles não se importam tanto com os riscos, com o quanto ganham, mas se não puderem matar, nós teremos que aumentar seus salários, pelo menos. Eles e as famílias deles não ficarão andando pelas ruas proibidos de matar. Os bandidos se encarregam de matar os bandidos, também, por causa dos acertos deles e nos poupam de muito trabalho sujo ou de aumentar o trabalho na justiça.

-Qual sua sugestão, então, além dessa besteira de aumentar salário de policial?

-Sei lá. Segurança sem matar, acho que ninguém sabe fazer.

– Achem alguém, nessas universidades por aí, que tenha escrito alguma daquelas teses idiotas sobre segurança e tenha algum plano de segurança  que não inclua matar e traga-o aqui. Melhor prevenir do que remediar. Vai que o homem fique mesmo mais tempo por aqui. Liguem para Israel, agora eles voltaram a matar também, mas quando o nazareno morava lá, eles ficaram um tempão sem matar bandidos e os bandidos viraram todos uns afeminados e abandonaram o crime. Vejam se conseguem o plano deles.

Continua amanhã, salvo algum imprevisto.