Irrelevâncias, previsibilidade e esperança

Dentro de mim há um mar de temas e assuntos a serem escamoteados. Sei que preciso abrir as comportas e deixar a água correr à vontade, como fazem os homens quando a represa está cheia demais, com risco de inundar a cidade, logo abaixo. Entretanto, temo que as primeiras águas corram geladas ou extremamente quentes, que se não matarem os leitores de frio, os matarão queimados.

Fui até o Fernando Pessoa em busca de conselho, mas o encontrei deprimido e angustiado. Pensei em Bertrand Russell, Camus, em Borges e depois em Kierkegaard. Percebo o quão existencialista tenho sido, se bem que não tenha escolhido só existir. Quase tudo em minha vida me leva a isso, como se outra opção não tivesse. Meu corpo, minhas alternativas, minhas companhias e meu destino me arrastam a existir tão somente, quase sem tréguas de alentos e alegrias.

As pessoas me acham deprimido e me irrito diante disso. Sou tão previsível e comum que nem a depressão se orgulharia em me habitar. Não, fico sempre a meio caminho de tudo, de ser feliz ou triste, de ser bem sucedido ou não. Não frequento os extremos, jamais. Isso é coisa de quem tem caráter e dignidade. Tenho tanto medo da euforia quanto da tristeza mórbida. Busco sempre as zonas seguras, sem correr riscos. Minhas desventuras são todas materiais e superficiais ou sofro com o sofrimento daqueles que amo, apenas.

Claro que o evangelho é bom e deve ser incorporado a todo coração de boa vontade. Pena Jesus Cristo ter vindo tão antes de Fernando Pessoa, Machado de Assis, Cecília Meireles, Clarisse Lispector, Borges e Jacques Ellul. Ele teria se alegrado sobremaneira com essas figuras. Até o Brabo poderia sentar-se à essa roda de escarnecedores. Eu, claro, me manteria à distância, mas por perto, cumprindo o mandamento de nunca sentar-me à roda com gente dessa laia.

Deve ser essa a causa de não me chamarem a editar meus escritos ou falar nos púlpitos das igrejas. Sou irrelevante demais, eu sei.

Às vezes, quando nos sentimos enredados e procuramos a saída, nossa única opção pode ser a humildade. Afinal, fazer meia volta e seguir pelo mesmo caminho que viemos pode ser o único caminho disponível, mas para escolhê-lo precisaremos submeter nosso orgulho e arrogância.

Alguns acreditam na tal luz no fim do túnel. Não sou tão otimista, você sabe. Prefiro sentar e re-planejar, o futuro será aquilo que eu decidir fazer com ele e nisso reside toda a minha esperança. Dificilmente acontecem surpresas para quem sabe o caminho e anda por onde quer andar. As emoções, na maioria das vezes, são apenas palpitações descontroladas de nossos frágeis corações, até eles precisam ser controlados. Um dia eles estarão velhos, flácidos e cansados, então precisaremos dar-lhes a permissão de parar. O futuro é um tempo sempre curto, pois os nossos corpos vieram com prazo de validade. Tentar evitar que assim seja nos tornará ainda mais ridículos do que já somos. Só nos cabe aceitar, nesse caso.

O mundo não gosta dos perdedores, embora sejam esses os que ensinam o caminho da vitória aos vencedores. Concordo, é muito chato ficar ao lado de um desses coadjuvantes miseráveis. Pior é ser olhado como um deles, mas é isso que sou, então tento ser bondoso com as pessoas e busco poupar-lhes da minha presença indesejada. Assim será melhor para todos. Tenho pena daqueles que ainda são obrigados a me suportar, coisa que até eu tenho dificuldade em fazer.