A Gruta do Lou

Interpretando para a morte

"Muitos erros lamentáveis poderiam ser evitados se a disciplina da hermenêutica, a teoria da interpretação, pudesse ser revitalizada". Willian James

Antes de mais nada, uma palavra sobre ler a bíblia. Creio ter lido o primeiro livro do Yancey, em 1992, cujo título era: "Deus, por que sofremos" (Where is God When It Hurts) , e agora foi re-editado com o título correto: "Onde está Deus quando chega a dor?", pela Editora Vida. Depois li outros, com destaque para "O Jesus que eu nunca conheci". Todos muito bons. Realmente o Yancey é um escritor cristão excelente. Outros escritores andam na crista da onda (desculpe usar essa velha expressão, acontece que sou um velho surfista frustrado), no Brasil, como o Nouwen, Queiruga, Manning, Mclarem, etc…, todos muito bons e que têm descortinado, a todos nós, outros magos da pena como Dostoievski, Lewis, Tolkien, Tolstoy, Chesterton e muitos mais. Sem dúvida uma época de ouro para nós, leitores.

Pode até ser implicância minha, mas sinto uma certa ausência da leitura bíblica. Muito mais do que uma mea culpa, me refiro à sensação continua de que a boa e velha bíblia anda sendo deixada de lado. Com raras exceções, as prédicas e textos cristãos contemporâneos andam tomando por base uma série de outras fontes, para horror da Palavra de Deus, sem falar no problema das interpretações exóticas que pululam por aí.

Uma vez, o Dr. Shedd disse aos seus alunos, e eu estava entre eles, algo assim: "Vale a pena pensar que em meio a tantas manipulações do texto bíblico, Deus tenha feito prevalecer sua santa e divina vontade".

Com tanta gente especulando sobre os textos bíblicos, não é para admirarmo-nos se, de fato, houver um distanciamento. Reconheço minha culpa, entre tantos culpados, do pecado de desestimular a leitura bíblica com minhas piadas sem graça e ironias sobre velhas e atuais interpretações bíblicas. Infelizmente não posso prometer deixar esse pecado, pelo menos enquanto os lobos em pele de cordeiro andarem por aí, fazendo ousadas asseverações sobre o que não entendem e, muito menos, vivem. Como todo bom pecador, voltarei ao vômito.

Essas interpretações equivocadas fizeram muito mais do que afastar as pessoas das leituras das sagradas escrituras, levaram o povo que pensa a proclamar "a morte da religião". Joachim Wach* disse: "Nós não podemos estar de acordo com esta (e similares) proclamações da morte da religião, pois elas se fundamentam, primordialmente, em falsa identificação entre experiência religiosa e uma ou outra das suas expressões históricas". Creio que estamos todos de acordo com a possibilidade de comungarmos em torno do texto bíblico e das pessoas de fé e amor sinceros pelas coisas de Deus e nosso Senhor Jesus Cristo

Segundo o conselho do Willian James, precisamos revitalizar a hermenêutica. Antes de mais nada, redescobri-la e entendê-la. Tempos atrás, fui escalado para dar uma aula, sobre o tema, para um grupo formado de pessoas ligadas às casas cristãs de recuperação de adictos (alcoólatras e drogaditos). Como dispunha de pouco tempo, abordei alguns pontos essenciais, apenas, como as formas de interpretação mais usadas. Quando abordei o método "literal" de interpretar, a polêmica tomou conta do auditório, sobretudo devido a auto-identificação dos presentes com ela. Claro que o pessoal não gostou nada das minhas afirmações pouco delicadas com esse método perverso.

Não creio que esse seja o espaço ideal para lecionar o assunto, mesmo porque, essa não é a proposta do nosso blog. Entretanto, recomendo veementemente a leitura e estudo do livro "Entendes o que lês" da Edições Vida Nova, para inicio de conversa. Pena que o Greenhal, meu co-pastor nos tempos da congregação batista em Morro Grande, São Paulo, capital, não esteja mais disponível para fazer uma grande convenção cristã sobre hermenêutica. Eu seria um dos primeiros a me inscrever.

* Sociologia da Religião, Joachim Wach – Edições Paulinas

לּהּמּ

18 thoughts on “Interpretando para a morte

  1. Oi Lou, entao eu também concordo com o Dr.Shedd quando disse aos seus alunos e a você tb, que: “Vale a pena pensar que em meio a tantas manipulações do texto bíblico, Deus tenha feito prevalecer sua santa e divina vontade”. E é assim até hoje. Ele usa caminhos para os seus objetivos. Se a interpretamos de boa ou má essas maneiras que Ele usa, é com a gente.

    Boa semana

  2. Georgia

    O Dr. Shedd sempre foi assim, polêmico mesmo. Não o leve tão a sério. 🙂 .

  3. Lou, sabe o que eu acho?
    é preciso ler mais a Bíblia!!!
    temos tantas “facilidades!” hoje…
    versões diferentes, tantas opções e comentários e tanta coisa, mas
    ler que é bom…

    enfim…
    falta ler a Palavra!
    beijos,
    alê

  4. Olá amigo, quanto tempo!
    “…fazendo ousadas asseveracoes sobre o que nao entendem e, muito menos, vivem…”
    Bom, muito bom. Cheio de verdades que estao aí para comprovarmos, infelizmente.
    Um grande abraco.

  5. é preciso ler mais a bíblia, mas longe do entendimento fincado no pensamento estático. observar as palavras de cristo, ‘conversar’ com as afirmações de paulo sobre a graça e desvender os chifres do apocalipse requer mais que mera hermenêutica, requer poesia aos olhos do leitor.

    isso nos falta, creio: interpretá-la pela poética de suas palavras, participar dos cânticos de davi e ter o chão firme sob os nossos pés nos relatos quase aborígenes das sangrentas guerras bíblicas.

    quando desviarmos da bíblia como manual de uma vida regrada pela perfeição, para tê-la como o manancial dos limites e reconhecimento do homem, encontraremos, de fato, o espírito tão logo prometido.

    abçs

  6. Filipe

    “quando desviarmos da bíblia como manual de uma vida regrada pela perfeição, para tê-la como o manancial dos limites e reconhecimento do homem, encontraremos, de fato, o espírito tão logo prometido.”

    Em outras palavras, dizer não à interpretação literal, a predileta dos fundamentalistas.

  7. Para quem gosta do assunto , deixo mais duas dicas. A Introdução à Hermenêutica Bíblica (Walter Kaiser Jr e Moisés Silva) e, apesar do Lou não gostar dele, “A Bíblia e as suas interpretações” do Augustus Nicodemus, ambos da Cultura Cristã

  8. Fábio

    Boas indicações, apesar da atitude pouco delicada do autor e a turma dele para comigo, tempos atrás, só porque incentivei a N. Brega a olhar com bons olhos a paquera de um fã dela. 🙂

    De fato, o Dr. Shedd tem um “q” do Gamaliel, mas é muito mais inteligente. 🙂

  9. Oi Lou,

    esse domingo tivemos uma pregação sobre estabelecer alvos (mensuráveis). Foi a continuação sobre o tema sucesso. Aquele tema onde o pregador evitou entrar pelas bem aventuranças.

    Fiquei pensando como que cada um lê a Bíblia com os óculos que tem…
    O pregador começou sitando Noé, como exemplo de estabelecer alvos. Pensei, sacanagem, Noé e sua arca! Ai de nós, pobres mortais.

    Depois veio Paulo e suas viagens direcionadas no alvo. Aí fiquei indignado: e os anos mofando na cadeia?! E todos os contratempos que o levaram para lá e para cá, sem direção alguma.
    Pensei também que poderia pregar um sermão tão bom ou melhor sobre como levar uma vida sem se preocupar com alvos mas em viver um dia de cada vez e aproveitar aquilo que Deus coloca a nossas mãos! Pois é, deve ser por isso que eu sofro com meu desempregao e esse irmão pregador chega de Mercedão…

    Nada contra alvos, todo mundo tem os seus (o que torna o sermão ainda mais questionável).

    Talvez a “Hermenáutica” seja essa ciência que nos ajude a tirar os óculos culturais e navegar pela bíblia enxergando um pouco menos daquilo que queremos ver.

    Abração,

    Roger

  10. Roger

    Talvez as duas coisas. A Bíblia deve nos dizer exatamente o que está lá para ela nos dizer. Nosso pregador em questão deve ter lido sobre planejar em algum livro da moda (nem sei o que está mais em voga, talvez o velho Covey de Sete Hábitos dos homens muito eficazes) e depois usou trechos, frases e palavras bíblicas para compor sua musiquinha mundana.

    Isso nos remete ao mesmo lugar: se administrarmos as coisas desse mundo segundo os critérios (ética) dessa mundo, tudo dará certo nessa vida, a menos que aconteça algum Tsunami ou ataque às Torres Gêmeas.
    Ele podia ter feito a mesma coisa citando a fonte verdadeira, ao invés de torcer a bíblia. Coisa que nem chega perto de uma interpretação. Enfim, ele estava em uma igreja, num culto dominical e usar a bíblia era o que todos estavam esperando.
    Mas creia, a bíblia não é uma livro de sucesso conseguido através do estabelecimento de metas, mesmo que o Warren diga isso. Ela continuará sendo aquele livro que narra o insucesso do Filho de Deus em prol do sucesso de toda a humanidade, que vai ganhar a recompensa sem ter feito nada por isso.
    Abraço para você, igualmente
    Deus te abençoe

  11. Tens toda a razão Lou.
    Tantos livros, comentários e explicações que às vezes esquecemos do texto sagrado.
    Comecemos por exemplo pela próspera Bíblia do Malafaia.
    Eheh

  12. Jorge

    Essa bíblia deve ser um horror, referendada por esse senhor não posso esperar nada pior. Não a conheço, confesso. Dizem, lá no Shopping Conde de Sarzedas (o maior shopping evangélico do mundo) ser a grande campeã de vendas, entre as bíblias. Ando pensando em lançá-la em Portugal e colônias com o referendo do Jorge Tadeu. Creio que ele topará de imediato. Quem sabe assim, consigo sair dessa situação pouco confortável em que estou. 🙂

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