Alvo do amor
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Insatisfação

“Deus das virtudes, converta-nos e mostra-nos a Vossa face e seremos salvos. Para qualquer parte que se volte a alma humana é à dor que se agarra, e não se fixa em Vós, ainda mesmo que se agarre às belezas existentes fora de Vós e de si mesma. Estas nada teriam de belo se não procedessem de Vós. Nascem e morrem. Nascendo, começam a existir; crescem para aperfeiçoarem; e, quando perfeitas, envelhecem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Por isso, os seres quando nascem e se esforçam para existir, quanto mais depressa crescem para existir, tanto mais se apressam a não existir. Tal é a sua condição. Só isto lhes destes, porque são partes de coisas que não existem simultaneamente e que, desaparecendo e sucedendo-se perfazem junto um todo que são partes. É assim que as conversas se completam por meio de sinais sonoros. Não existiriam na sua totalidade se cada palavra, depois de emitidas as silabas, não se extinguisse, para outra lhe suceder.

    Que minha alma Vos louve por tudo isto, ó meu Deus, Criador de todas as coisas. Que não se agarre a elas pelo visco do amor que entra pelos sentidos do corpo.. Também as coisas caminham para não existirem, e dilaceram a alma com desejos pestilenciais, porque ela quer existir e gosta de descansar no que ama. Mas não tem onde, porque as coisas não são estáveis: fogem. Quem as pode seguir com a sensibilidade? Quem as pode alcançar mesmo quando presentes? A sensibilidade é vagarosa porque é sensibilidade. Tal é a sua condição. É suficiente para aquilo que foi criada; mas não o é para reter as coisas que transitam de um princípio devido para um fim que lhes é devido porque, no Vosso Verbo que as criou, ouvem estas palavras: ‘Daqui até ali’ “.

Agostinho em “Confissões 10:4” tradução livre

Sobre essa passagem, C. S. Lewis comenta:

Em palavras que ainda podem provocar lágrimas, Agostinho descreve a desolação em que a morte de seu amigo Nebridius o mergulhou. E extrai então uma moral: “Isto é o que acontece quando entregamos nosso coração a qualquer coisa além de Deus”. Todos os seres humanos morrem. Não permita que sua felicidade dependa de algo que pode perder. Caso o amor deva ser uma bênção e não uma maldição, deve dirigir-se ao único Amado que jamais partirá.

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