Indigno de viver como ele viveu

Quase todos os dias lembro do modo de vida pelo qual Jesus viveu seus dias conhecidos e, fundamentalmente, dele ter mencionado seu desejo de que todos, no presente e no futuro vivessem de igual modo.

Desde e o começo, surpreendeu-me o fato dele ter chegado aos trinta anos sem ter feito qualquer bobagem com sua vida. O episódio da tentação no deserto, tão bem descrito e narrado por Mateus, camufla uma resposta nunca dada à minha curiosidade impertinente. Será que o Mestre nunca havia sido tentado antes disso? No meu pobre modo de entender, a única chance de você não fazer burradas na vida é nunca ter sido tentado.

Claro, se você teve ou tem pais sábios que conseguem discernir a diferença monstruosa entre educar e instruir, capazes de protegê-lo sem esmagar sua liberdade, não só de ir e vir, mas de pensar e aprender a pensar, sobretudo e, acima de tudo, com amor suficiente para não lhe internar em uma dessas instituições de ensino laico e/ou público, talvez você tenha uma chance muito maior de não ver suas orelhas enormes e pontudas ao olhar no espelho.

Comigo não houve clemência. Com todo respeito, meus pais foram incapazes de me preservar do pecado e eu não fui um mau menino, em comparação com os que conheci em meus tempos de criança, adolescente e juventude. Aos trinta anos, entretanto, minha folha corrida de pecados não tinha metros, mas quilômetros.

Por alguma razão que desconheço, embora tenha minhas suspeitas, me sinto incapacitado para viver como nosso Senhor viveu, depois de ter maculado minha existência com permissividades às investidas do cara de cobra. Não pense que desconheço toda aquela ladainha de que o Nazareno veio justamente para nos dar essa condição, apesar de tudo que fizemos antes. Estou falando, digo, escrevendo sobre sentimento. Não me sinto digno de andar como ele andou. Tudo que faço soa hipócrita. Um abraço em um desesperado, um alento a um entristecido, uma promessa de oração a um desenganado, sinto sempre uma boa ponta de falsidade em tudo isso, como se não tivesse o direito de vivê-lo ou fazê-lo.

Às vezes, até as palavras do imprudente e prepotente apóstolo Paulo, seja ele quem for, me fazem sentido. Sou um homem miserável. Não consigo viver a vida proposta pelo Deus que escolhi e, tão pouco, consigo viver a vida de um homem normal. Mesmo porque, virei um não alinhado com o curso desse mundo e agora parece ser tarde para mudar as coisas. Em outras palavras, consegui o feito quase inédito de me colocar fora do alcance de Deus e dos homens.

Enfim, se você quiser ouvir o que um senhor de meia idade tem para se prevenir contra dias muito difíceis e maus, eu lhe digo, não caia em tentação e trate de pecar o mínimo possível. Desconfie de todas as propostas, principalmente as mais enfeitadas e cativantes. Fale só o essencial, abra bem seus olhos e aguce seus ouvidos. Quem consegue observar o movimento à sua volta obtêm grande vantagem. Orações, não sei como, ajudam muito.

Enquanto isso, seguirei lutando contra meus demônios, os mesmos que um dia pintaram em minha vida como anjos de luz e desejando, pecaminosamente, viver como ele viveu.