A Gruta do Lou

Improvise, uma vida sem propósito.

Por mais incrível que possa parecer, comecei a lidar com os propósitos muito antes da dupla Warren/Ed. Meu mentor na arte da administração das organizações não lucrativas cristãs protestantes já usava os propósitos como estratégia de planejamento. Quando falamos em planejamento estratégico, por aqui, o primeiro passo é estabelecer a nossa missão, seja a pessoal ou a da organização. Não sei de qual escola o pessoal da GV copiou, certamente eles não a criaram, aqui nada se cria, tudo se copia. Missão ou Propósito, embora não tenham o mesmo significado, funcionam do mesmo jeito. Pessoalmente, andei sugerindo o uso dos dois caminhos juntos e ficou bom no papel. O Warren veio com seus propósitos no início da década de noventa, enquanto nós trabalhávamos com o conceito há, pelo menos, uma década antes.

A grande diferença entre eles e eu é o que cada um fez com os propósitos,  em proveito próprio ou em favor dos outros. O Warren construiu sua Igreja com propósitos e depois de consolidá-la, criou a vida com propósitos. O Ed, não perdeu a oportunidade e elaborou seus propósitos, igualmente. Enquanto isso, embora a minha taxa de propósitos no sangue estivesse altíssima, não fiz nada com eles em meu favor e muito menos dos outros. Talvez meu propósito fosse não utilizar os propósitos, mas não tinha consciência disso, ainda.

Ontem, enquanto assistia, pela enésima vez, o filme Erin Bronckovich, chamou-me atenção quando Julia Roberts, vivendo seu maior personagem, diz ao vizinho cheio de intenções para cima dela: “Eu tenho dezesseis dólares em minha conta bancária”; tentando desestimular a testosterona do rapaz. Pô, se ela está achando isso pouco, o que ela pensaria de mim se soubesse quanto tenho, somando o saldo das minhas duas contas. Bom, deixa isso para lá. Talvez o duo Warren/Ed me dissesse hoje: “Lou, você precisa viver com propósitos”.

Muitos anos atrás, quase enlouqueci algumas organizações obrigando-os a estabelecer seus propósitos, caso de Asas de Socorro, coitados. Hoje eu não faria isso. Parei com esse negócio de propósitos. Juro que nunca mais direi essa bobagem a ninguém, tanto quanto nunca mais usarei essa porcaria, em minha própria vida. Sabe, existe pouca coisa capaz de frustrar mais do que um propósito não alcançado. Antes de casar, tinha muitos propósitos, alias, casar era um deles, também. Não entrarei em detalhes, mas não alcancei meus propósitos, além de casar. Frustrei a mim e um monte de gente que acreditou em meus propósitos.

Com grande militância esportiva e futebolista marginal intenso, descobri um grande segredo através do esporte. O futebol brasileiro nunca conquistou nada com propósitos. Talvez possa afirmar que nossos jogadores e dirigentes sempre foram às competições sem planejamento algum. Eles dizem: “vamos jogar o jogo e, se der, venceremos”; o que não chega a ser um propósito. Na verdade, nosso método bem brasileiro de viver, administrar, ou como se diz hoje, nosso modelo de gestão é o improviso. O norte americano sempre diz: Tenha um bom plano, mas quando nada mais funcionar, improvise. Então nós resolvemos pular a primeira parte e fomos direto ao improviso. Quando alguém diz, por aqui, ter um plano ou um projeto, não acredite. Planejamento Estratégico, entre nós, serve para encher gavetas e HDs.

Se você é brasileiro e deseja ser feliz, nunca tenha propósitos. Diante dos incêndios da vida, improvise, toque a bola até achar uma brecha na defesa adversária e então chute e faça o seu gol. Foi assim que ganhamos cinco campeonatos mundiais e mais um monte de outros de menor importância. Nossos inimigos nunca sabem o que faremos ou como jogaremos e nem nós. Não há graça planejada, vitória de goleada ou cantada prévias. O que funciona mesmo é improvisar e nisso somos bons, os melhores.

Viva sem propósitos. Improvise.

15 thoughts on “Improvise, uma vida sem propósito.

  1. hahaha
    Fantástico! Planejamento está se tornando em fardos que criamos para que outros carreguem.

    Isso é coisa de gringo sem jogo de cintura. Nós nos damos melhor driblando, tocando a bola e esperando a oportunidade certa de dar o bote. É uma espécie de plano incluso, que está no sangue afro-latino. Como diria um monge amigo meu: deixe o rio correr que ele acha o caminho certo. 🙂

  2. Boa!

    A vida sem propósito fica mais tranquila.

    Jesus mesmo, como diria o Brabo, só tinha um propósito na vida, morrer, de resto, ele ia vivendo.

    Abraço Lou

    É, daqui a pouco dirão que Jesus deveria ter vivido com propósitos, não o de morrer pela humanidade, mas os ensinados pelo pastor do discurso de posse do Obama.

  3. Não sei bem o que dizer… vou improvisar.
    “Viver sem propósito” não é, em si, um?
    Em sendo, torna impossível viver sem; e desnecessário estabelecer um, visto que já o temos.
    Ou não?

    Sem dúvida. O alerta é para não se estressar com “Os Propósitos”, como doutrina. Depois vem o Planejamento Estratégico, que alguns até fazem, mas nunca se pautam por ele. Então para que fazer? Estabelecer planos, propósitos e não implementá-los pode causar câncer e outras doenças menores. 🙂

  4. Pingback: Lou Mello
  5. Hei Lou, que despropósito!
    Proponho uma proposta (ai):
    Prove que você está errado e não te leremos mais.

    Maravilhoso texto.

    Ih! Não tenho provas de que estou errado. 🙂

  6. Pingback: Lou Mello
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  8. Pingback: Ariovaldo Jr
  9. É isso! O negócio é despropositar a vida! Mas da metáfora com o futubolês é bom lembrar que o “gol” era chamado de “meta”, e “meta”, meus deuses, já lembra a infâmia do planejamento estratégico…
    As metas são fins, e eu não estou muito a fim de chegar ao fim agora, não.

    Em meu grande seminário sobre o Círculo da Vida há um capítulo sobre as Metas Inevitáveis, como o gol no futebol e a morte na vida. Meio tétrico, mas verdadeiro. Aliás, se pensarmos bem, Deus já nos fez com as metas impressas no nosso chipset. Os livros do Warren são pura lorota, salvo engano.

  10. Eu,de tanto improvisar,acabei perdendo o rumo…
    mas com certeza,minha vida virou um livrinho de suspense…

    Improvisar é visceral para todos nós, mesmo para quem é segunda geração. Isso pega rápido.

  11. É isso aí Lou. Vamos exercer nossa brasilidade e deixar de frescuras. Você foi preciso.

    Né não? Os caras importam tudo, inclusive o que não interessa, principalmente quando temos soluções melhores, o que é raro, claro.

  12. Lou, sinto te decepcionar mas Deus te ama e tem 5 propósitos maravilhosos para sua vida!! 😛

    Na verdade, estes cinco são a minha missão, que é diferente de propósito. Deus me desculpe, mas continuarei tocando a bola a espera de uma brecha. Ele teve a minha vida toda para estabelecer propósitos para a minha vida. Agora é tarde, perdi a esperança. Se ele tivesse se preocupado menos com certos apologistas dos propósitos e mais com gente como eu, talvez estivesse menos preocupado agora. Bom, pelo menos em relação a despropósitos.

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