O Divino Comediante

A

A vida é repleta de surpresas. Por mais que sejamos bons planejadores, algo inesperado acontece, de tempo em tempo. Às vezes, as “surpresas” podem ser legais, em outras ocasiões nem tanto. Mais estranho quando a surpresa é boa, mas contém algo triste.

Há 28 anos atrás, nascia nosso filho mais novo, o Thomas. Quem nos conhece sabe da história.

Dante Alighieri, através de A Divina Comédia, ensinou o Diogo Mainardi e ele, via A Queda, deu a pista a mim.

1.

O Thomas tinha uma cardiopatia congênita complexa: Dupla via de saída no ventrículo direito, estenose na pulmonar, válvula pulmonar atrésica, Comunicações Intra Ventriculares múltiplas e PCA aberta.

2.

Imputo essa cardiopatia congênita do Thomas aos norte-americanos. Há grande probabilidade dele ter sido concebido próximo ao Cabo Kennedy (Antigo Canaveral) onde há níveis elevados de radiação e onde nascem milhares de bebes com todo tipo de má formação congênita.

3.

Foi em 11 de maio de 1988. Minha esposa e eu nos dirigimos à Maternidade São Paulo, o primeiro hospital construído na Rua Frei Caneca, bem próximos à Av. Paulista, com a missão de trazer bebes à vida. Um belíssimo prédio demolido em 2014 para dar lugar a um Shopping Center. Alí nasceram milhares de pessoas, a maioria desconhecida e alguns famosos, além do Thomas, também nasceram lá: Ayrton Senna, Amyr Klink, Paulo Maluf, William Bonner, Susana Vieira, Nelson Motta, Flavio Henrique, Kátia Regina, Angela Leonilia, Ednácio Gomes da Silva, Fernando Brasil, Wendey Barbosa Chaves, Roberta Perez e Igor Anchelli, Leticia Mota, entre outros.

4.

A meio caminhar de nossa vida

Fui me encontrar em uma selva escura:

Estava a reta de minha via perdida.

Ah! Que a tarefa de narrar é dura

Essa selva selvagem, rude e forte,

Que volve o medo à mente que a figura.

5.

Quando chegamos à porta daquele prédio suntuoso Dedé me disse:

– Estou com medo do parto.

Ela dissera a mesma coisa semanas antes, mas o Dr. Paulo P. Andrade a tranquilizou. Ela nunca tinha sentido medo de parto, antes. Os três nasceram de parto natural por opção dela.

Em um prédio daquele, onde gente dessa estirpe acima veio ao mundo, nada poderia dar errado. O Hospital paulistano não errou em todos esses casos e outros milhares, mas os norte-americanos tão sábios e ricos, cuidaram disso para nós.

6.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Thomas Maravilhoso, Generoso, Fraco mas Forte, filho amado… enfim, …

7.

Encontrei nesse filho tão frágil o ser mais forte que conheci. Ele venceu seus obstáculos, não como você e eu, venceu com generosidade, simplicidade e amor.

8.

Queria curá-lo.

9.

Apesar do pessimismo médico, queria curá-lo.

10.

Por que Jesus Cristo não voltou naqueles dias. Se Ele fosse o cirurgião, sem invasão, o Thomas estaria aqui agora e eu não estaria escrevendo essas palavras. Ao invés disso, estaria comemorando o vigésimo oitavo ano de vida dele.

11.

No dia onze de maio de 1988 ele nasceu e graças aos norte-americanos, nasceu cardiopata congênito.

12.

Viveu vinte e cinco anos, mas viveu como poucos, amou seus pais, irmãos, parentes, amigos e animais de estimação.

Paradoxalmente, amou a vida e deve estar amando muito mais a vida eterna.

Carta ao Thomas

lousign

Cartilha do Coração Valente

Cartilha

Olá tudo bem?

Criei uma campanha a fim de arrecadar fundos para a edição e impressão de seis mil “Cartilhas” contendo Informações Básicas para cardiopatas congênitos e familiares”, a serem doadas, gratuitamente, nos principais centros de atendimento dos cardiopatas congênitos e sua colaboração é essencial.

Acesse (link:http://www.kickante.com.br/campanhas/cartilha-de-informacoes-basicas-para-cardiopatas-congenitos) e confira mais informações sobre essa nossa missão, como você poderá participar e a recompensa que preparei para você!

 

Conto com seu apoio!

Abraços,

 

Lou Mello

Capricornio PB

 

Os anjos continuam presentes

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Hoje, se estivesse vivo, nosso filho Thomas completaria vinte e sete anos. A saudade e a dor da perda continuam imensas e já estou resignado a viver com elas até o fim.

Thomas - Carta ao meu filho
Thomas – Carta ao meu filho

Como no ano passado e até quando Deus me permitir, escrevi mais uma carta de aniversário e deixei no lugar combinado para o primeiro anjo que passar levar para ele. Só para lembrar, anjos são, entre muitas coisas, mensageiros de Deus, também.

Carta de aniversário – 2015 para o Thomas.

Se desejar ler, clique no link acima.

Capricornio PB

 

Mais um ano sem o Thomas

 

Há dois anos, no dia 20 de abril, nessa hora (a primeira do dia) estávamos enfrentando o pior momento de nossas vidas: a informação oficial do falecimento de nosso filho caçula, o Thomas. Nos últimos dias, tenho estado inquieto, oscilando sentimentos de profunda tristeza, saudades, raiva, frustração, etc. enquanto busco alguma opção positiva desesperadamente. Não adianta, ela não existe e o fato é que hoje estamos diante de “Mais um ano sem o Thomas”.

Meus pensamentos insistem em passar e repassar aqueles momentos, os dias que antecederam aquela tragédia, enquanto insisto em refazer tudo como se isso pudesse refazer a história toda. Incrível nossa mais completa impotência diante daquele momento. É frustrante porque sempre acabo percebendo a impossibilidade dessa insanidade.

Sei das propostas religiosas, a maioria buscando nos convencer que a morte não é tão ruim assim. Diante disso não consigo deixar de pensar em por que, então, sentimos essa tristeza horrorosa diante dela. Não faz sentido.

Decorei, muito tempo atrás, um salmo que diz: “Deus chora a morte de cada um de seus filhos.” Salmo 116:15. Isso sim faz sentido. Os caras da teologia fazem de tudo para esconder os sentimentos de Deus. Mudam o verbo chorar por outros mais dignos de um super Deus, mas eles não fazem jus ao que o Criador sente. Estou certo disso.

Quando recebi aquela notícia infame e terrível Ele deve ter me tomado em seus braços, fazendo o mesmo com minha esposa, depois com nossos filhos e a seguir com todos que foram tolhidos por aquela dor desproporcional e desproposital. Acho que todos nós ainda estamos nos perguntando atônitos como foi que suportamos e passamos aqueles momentos. Só há uma resposta, Ele nos deu a força necessária. E hoje, quando se completam dois anos, Ele deve estar renovando nossas capacidades de suportar, outra vez, porque sem isso nem vivos estaríamos, se não me engano.

Não existe a tal conformação, para isso. Perder um filho amado é hediondo, catastrófico, desesperador, insuportável e insubstituível. Só conseguimos continuar andando porque uma força superior nos é dada, embora não nos damos conta disso, geralmente.

Mas é só. Hoje estamos mais conscientes e imagino que a cada ano passado estaremos ainda mais e isso é determinantemente insuportável. Ele não voltará. Quiçá algumas dessas seitas conhecidas ou outra desconhecida tenha razão em afirmar que, ao partirmos, iremos encontra-lo em algum outro lugar e/ou plano.

Fora isso e a força extra da parte divina, só nos resta seguir olhando fotos, vídeos, textos enquanto relembramos e trocamos nossas lembranças, repassando tudo para não deixar o esquecimento nos surrupiar o pouco que nos restou dele.

Meu chapa, nosso amado filho Thomas, se você ainda puder ler minhas linhas mal escritas, de alguma forma, guarde sempre: eu te amo cara, em proporção que nenhuma palavra conseguiria expressar, seguramente. Tudo que eu mais desejo nessa vida é que você pudesse estar aqui conosco, como sempre foi enquanto durou. Tomara que você esteja muito melhor do que estava conosco, ao menos. Gostaria muito de acreditar nisso de todo o meu coração ao invés de tomar essa ideia como um dogma da igreja, apenas. Isso me consolaria sobremaneira.

Que Deus tenha piedade de todos nós e nossos entendimentos pífios sobre Ele.

 Capricornio PB

Vivendo em outro planeta

Cardiopatas Congênitos podem ser seres extraterrestres.

Talvez seja só, a minha impressão, sei lá.

Cerca de dois meses atrás, estávamos na casa de uma amiga que nos ajudou a encontrar lugar mais apropriado para tratar minha mãe com sérios problemas. Ela foi minha aluna no tempo de seminário e hoje é psicóloga. Às tantas ela perguntou se eu sentia alguma culpa pela morte de meu filho. Respondi a ela, que não apenas me sentia culpado, como de fato falhei em muitos itens durante os vinte e cinco anos de vida dele, em relação aos cuidados que ele necessitava e que poderiam ter lhe dado uma vida com mais qualidade e, também, permitido mais longevidade a ele, se tivéssemos tomado providências adequadas.

Mais de um ano depois de meu filho Thomas ter partido desta vida, posso lhes afirmar: Não há um dia que não me pegue pensando e repensando quantas providências poderiam ter feito melhor a ele. Creio ser o despreparo um dos maiores inimigos para pais premiados com filhos cardiopatas congênitos. Contribui grandemente nisso, o fato de ter sido um cristão detentor de uma falsa teologia que me dava a sensação, para não dizer certeza, de não estar no grupo dos pais cujos filhos nascem com algum problema de saúde, seja leve, moderado ou grave.

Imagine você, em 1987 levei minha família comigo para morarmos na Flórida, Estados Unidos. Você não acreditará, de certo, mas não fiz nenhuma pesquisa para saber se o lugar era indicado para pessoas de fina estirpe, como nós, morarem. Hoje sei, embora tarde demais, que morei em meio a um campo magnético, necessário ao tal Cabo Kennedy (Canaveral) onde há uma base lançamento de foguetes da NASA, lugar nada propício para se viver com qualidade.

Nosso filho nasceu em 1988, pouco depois de termos retornado ao Brasil. Em 1999, resolvemos nos mudar para Sorocaba. Escolhi uma casa boa com um aluguel compatível e, pronto, mudamos. Uma tarde, todo mundo (cidade inteira) ouviu e sentiu uma explosão, com direito a tremedeira do solo, vidros quebrados, deslocamentos de objetos, etc. Sai da sala onde estava e saí perguntando às outras pessoas se haviam sentido o impacto. A resposta foi: Não liga não, estamos perto de Aramar e essas coisas são comuns por aqui. Só pra ilustrar, Aramar abriga a unidade da Marinha onde são desenvolvidas as pesquisas atômicas brasileiras. Não foi difícil adivinhar que, mais uma vez, estávamos no meio de um campo magnético. Esse detalhe me foi confirmado depois, por um ex-milico sorocabano.

Campos magnéticos não são lugares lá muito indicados para seres humanos viverem vidas saudáveis, imagine então, para cardiopatas congênitos ou qualquer pessoa com algum problema de saúde, a priori. Campos Magnéticos causam câncer, cardiopatias e outras doenças congênitas e muitos outros males às pessoas e ao meio ambiente.

Mas esse detalhe, embora possa causar câncer, doenças congênitas e uma série imensa de males, além da morte precoce ainda não é nem um décimo de minhas preocupações tardias (no caso do meu filho) e de importância vital para as pessoas, sobretudo crianças, presentes e milhares que ainda virão. Sabe, aos poucos, essas reflexões foram crescendo e tomaram dimensão incomensurável, para mim.

Você não acreditará no que lhe direi agora, mas esse planeta não é apropriado para 99% dos seres vivos que o habitam, com destaque para os seres humanos e em particular para os cardiopatas congênitos. Grande parte da água e do ar sob os quais vivemos, estão contaminados. Os alimentos que ingerimos estão contaminados justamente com os agrotóxicos utilizados para preservá-los. Á água considerada própria ao consumo humana, em nosso país, contém flúor, bicarbonato, cálcio, etc., adicionados a ela. Há inúmeros trabalhos científicos condenando essa prática, tendo como principal argumento os efeitos conhecidos ou não que causam às pessoas, animais, plantas, etc.

Para esses problemas há algumas alternativas que incluem treinamento, como quais seriam os alimentos mais saudáveis e como utilizar uma água melhor para os cardiopatas congênitos. Além disso que tipo de exercícios eles poderiam fazer em beneficio próprio. Planejei fazer algum exercício com meu filho em piscina, mas nunca levei esse plano adiante, a não ser, uma ou outra tentativa esporádica, mas creio haver um caminho legal para eles, nessa ideia. Podem haver outras formas, também, embora isso não seja muito bem vindo aos muito mais que deuses.

Outra dificuldade importante para os cardiopatas congênitos diz respeito à educação formal deles. Uma parte importante deles não tem condições de frequentar escolar tradicionais. A tal educação inclusiva não é opção para pessoas com restrições cárdio respiratórias. Nesse caso também há opções legais.

Nosso filho só frequentou escolas do Jardim até o início do segundo ano básico. Depois de tempestade, fomos informados que a professora havia tentado a técnica de enfrentamento do nosso cardiopata congênito que temia raios e trovões, obrigando-o a ficar de cara para a janela admirando seus algozes. Em casa, durante as tempestades, ele entrava dentro de um guarda-roupas, onde deixávamos espaço para esse fim. Fora outras idiotices de imbecis comuns a esses lugares nocivos, como obriga-lo a subir as escadarias no mesmo ritmo dos outros estudantes, etc. Então o salvamos daquele antro onde a vida dele corria perigo incalculável. Depois disso ele passou a adquirir conhecimento pelo método indutivo e o resultado foi surpreendente e altamente positivo. Fora que, com isso, ele passou muito mais tempo de vida conosco.

A grande preocupação dos pais e do próprio cardiopata congênito, sem sobra de dúvida, diz respeito à saúde dele, pois isso acaba sempre sendo sua agenda principal. Consultas, exames (simples ou complexos), cirurgias, utis, hospitais, consultórios e todo o esquema de saúde acaba consumindo esses valentes de forma injusta, sempre com a desculpa de que isso é melhor para eles. Será? Não sei responder isso. Só posso lhes dizer, que nosso filho acabou perdendo tempo fazendo um monte de procedimento inúteis e dispensáveis. Claro, houve acertos importantes. O ideal é que ele pudesse ter experimentado só esses últimos. Sem falar que foi uma dessas ocasiões que acabou com a vida dele precocemente e desnecessariamente. Essa foi a minha maior falha, pois eu perdi a chance de ter evitado esse erro fatal, para a infelicidade dele. Bastava ter dito não ao cirurgião havido por realizar uma grande cirurgia, quando um procedimento simples e mais seguro teria sido a opção mais racional e equilibrada, ou mesmo ter impedido a ação desastrosa dele.

Enfim, desejo compartilhar minha experiência com quem está na luta, agora. Meus erros e acertos podem ser muito uteis ainda, sem dúvida, estou disposto a isso, ainda que seja escrevendo no blog da Missão Coração Valente. Mas espero poder fazer bem mais em favor dessa comunidade. Desejo conversar, ajudar na busca por novos caminhos em todas essas áreas mencionadas e em outras. Há outros grupos que fazem bom trabalho no encaminhamento de saúde. Nessa área, adoraria incentivar a pesquisa em busca da prevenção e métodos menos invasivos para o tratamento dos nossos queridos cardiopatas congênitos. Apoio aos pais, com treinamento, reuniões de auto-ajuda, literatura, etc.

Quem sabe assim, não chegaremos a tornar esse planeta um lugar adequado e merecedor dos cardiopatas congênitos, né?

Sozinho, não poderei fazer muito. Portanto, espero encontrar apoio e participação de mais gente, talvez você e seus amigos.

Um abraço forte


Para quem acredita em anjos

Anjo Divino

 

 

Hoje, 11 de maio de 2014, como em 2008, comemora-se o dia das mães. Entretanto, para nossa família, o dia 11 de maio tem um significado muito especial, pois nosso filho mais novo, o Thomas, nasceu no dia 11 de maio, em 1988 e várias vezes, seu aniversário empatava com o Dia das Mães.

Isso não aumentava a festa, em nosso caso, simplesmente optávamos por comemorar o aniversário de nosso filho, capitaneados pela mãe da casa, a Dedé que preferia assim, antes de todos nós. Minha sogra sempre preferiu comemorar esse dia com as outras filhas e minha mãe, sempre teve horror ao papel de avó, pois isso a fazia sentir-se velha.

Este ano, é o primeiro em que havendo empate do dia das mães com o aniversário do Thomas nós não o temos aqui conosco, pois ele partiu para o céu no ano passado, vinte e um dias antes de 11 de maio. Minha sogra estará com as outras filhas, como sempre, e minha mãe está aqui em casa, mas não faz mais a menor ideia do que seja dia das mães, não se lembra do meu nome e muito menos que tem netos.

Nos últimos anos, desde que comecei a escrever este blog, no aniversário de cada um dos meus filhos eu procurava escrever ou montar uma homenagem. Nos aniversários do Thomas, escrevi textos na maioria das vezes, armazenados sob as categorias Coração Valente, Homenagens e Thomas H. V. Mello. Minha intenção era fazer isso enquanto eu vivesse, de preferência em forma de cartas.

No ano passado, o primeiro sem o Thomas, com a recente partida dele, não escrevi uma carta, mas um desabafo. Por alguma razão desconhecida, tudo que escrevi naqueles dias trágicos para o Thomas e todos nós, perdeu-se, sabe-se lá onde e como. Neste ano, ainda sob dor intensa por essa perda, segundo dizem, ela não passará nunca, decidi voltar às cartas, inclusive para ele.

Dizem por aí, que os cardiopatas congênitos são futuros anjos em treinamento enviados para certas famílias a fim de cumprir alguma missão celestial e caso tenham sucesso em sua tarefa, receberão suas asas de anjos ao retornar para o céu.

Aprendi, via Bíblia, que uma das tarefas dos anjos, ou de uma categoria deles, é a dos anjos mensageiros. O Thomas, como todo mundo aqui no planeta água, teve um anjo protetor designado para protegê-lo, era o Raniel, a quem carinhosamente eu chamava de anjo esculachado.

Se interessar saber por que, use a pesquisa do blog para encontra-lo. Talvez você tenha sorte em acha-lo sob a categoria “ficção”. Armazenei os textos envolvendo o anjo Raniel, protetor do Thomas nessa categoria para amenizar um pouco o impacto junto aos leitores, pois poderiam achar que o papai aqui estava pirando.

Aliás, nem tudo que está na categoria ficção é história inventada e, por outro, quase tudo que escrevo contém alguma ficção. É a tal da liberdade poética em andamento.

Quando o Raniel vinha verificar como o Thomas estava e trazer-lhe recados e presentes celestiais, ele fazia questão de me visitar. Eu não era uma tarefa dele, mas fazia isso por pura misericórdia, mesmo, pois meu anjo protetor fora designado para outra pessoa (um tal de Ed alguma coisa) que nasceu uns doze anos depois de mim e eu fui encaminhado para o ICSE (Instituto Celestial de Seguro Espiritual) onde você não é mais atendido por um anjo especial designado para protegê-lo, mas pelo instituto, através de computadores celestiais, senhas e consultas marcadas.

Se você me perguntar se isso funciona, nem perderei meu tempo para responder. Só serviria para irritar a nós dois. Sendo assim, o Raniel, que sempre foi um anjo meio rebelde, infiltrava-se sorrateiramente no setor de arquivo do ICSE e roubava, digo, pegava sem licença prévia, as minhas correspondências e as trazia para mim. Como nunca elas eram entregues, a minha gaveta sempre estava cheia, como ele me informou.

Duro era o fato de essas visitas acontecerem sempre nas madrugadas. O Raniel é da turma daquele anjo de Daniel que atrasou três semanas para entregar a resposta do profeta porque se envolveu numa briga com demônios no caminho. Várias vezes, chegou todo rasgado para me visitar. Eu nunca perguntava, mas ele havia se metido em brigas, certamente e, para completar, ele é um anjo notívago, dorme de dia e o resto faz durante as noites.

Depois que o Thomas se foi, não recebi mais visitas do Raniel. No começo achei que a causa era minha vontade de esganá-lo por não ter protegido e livrado o Thomas naquela fatídica e infeliz cirurgia que encerrou a estada dele entre nós. Cheguei a pensar que ele não teria coragem de me encarar.

Algum tempo depois me ocorreu que ele não poderia me visitar exclusivamente, pois as visitas que ele me fazia, sem autorização celestial, eram visitas inclusivas, ou seja, ele aproveitava as visitas ao Thomas para me visitar, também. Sem meu filho, ele não teria como justificar a iniciativa.

O negócio da proteção angelical é sério. Jesus, por exemplo, viveu cercado de anjos. O céu designou uma equipe inteira para protegê-lo e servi-lo enquanto esteve por aqui. Lembre daquela cena, quando Jesus resistiu à tentação e pôs o diabo para correr. O que aconteceu em seguida? Os anjos vieram e o serviam.

Alguém, cuja noção de Deus e suas coisas seja bem antropomórfica dirá, certamente: “Parece que esse serviço de proteção angelical não é lá grande coisa.” Mas enganam-se, eles protegem sem interferir na missão de cada um, e com Jesus e com o Thomas não foi diferente. Segundo eles, deveríamos receber os acontecimentos com fé nas decisões divinas.

Depois de um tempo sem meu filho, comecei a pensar em qual seria a missão dele e não tive dúvidas quanto a resposta. Ele deveria colocar todos os cardiopatas congênitos e suas terríveis dores em nossos corações, falo de mim e de nossa família, incluindo a Dedé, a Carolina e o Pedro e em menor intensidade, nos corações das pessoas ligadas a nós, parentes e/ou amigos.

Então, entre outras providências, nós deveríamos levar adiante a causa dos cardiopatas congênitos. O Raniel chegou a me informar que a quantidade de petições chegando aos céus via orações e diariamente é incalculável.

Um dia, não faz muito tempo, já estávamos em São Paulo, creio que tive uma visão. Estava acordado e dirigindo, mas durante alguns minutos, meu carro parece ter ligado o piloto automático, enquanto eu recebia a visita do uma equipe inteira de anjos, liderados por um anjo que suponho seja um Querubim.

A cena se deu no meu quarto, para onde fui transportado naquele momento, sem perda de timing. Eles cobriram todas as quatro paredes e vi entre eles, todos com aquelas roupas de anjos, além das asas enormes, o Thomas, abraçado com uma garota, loirinha, olhos claros, cabelos bem lisos como os da Dedé, mas mais claros, com um sorriso maravilhoso na boca e linda, como um ser celestial deve ser. Do outro lado, um anjo todo desalinhado, com cara de quem havia corrido a maratona, piscou o olho levantando a sobrancelha para mim e eu sorri marotamente.

O Querubim fez uso da palavra e me informou que estavam ali para confirmar que o Thomas havia cumprido a missão dele, o que ficara bem claro com aquelas asas enormes nas costas dele e que agora, caberia a mim trabalhar em favor dos cardiopatas congênitos pelo resto dos meus dias.

Segundo o chefe angelical, eles estavam a caminho para atender parentes e amigos das vítimas da boate Kiss, em Santa Maria – RS e que a inclusão do Thomas (que agora tem um nome de anjo, mas ainda não sei qual seja) no grupo fora antecipada, por causa daquele acontecimento, mas resolveram dar uma parada para falar comigo rapidamente, a fim de nos consolar um pouco.

Então me deu licença para abraçar o Thomas, que para mim continua sendo meu filho com o mesmo jeitinho carinhoso de sempre, depois do longo e poderoso abraço (como se ele ainda tivesse corpo de carne e ossos) ele fez questão de me apresentar a linda garota que estava com ele:

-Pai, essa é a Laila, minha irmã! Exclamou.

Por um instante fiquei sem entender, mas logo lembrei. Entre a Carolina e o Pedro, houve uma gravidez que não chegou a termo. Então, era a Laila, que não vingou aqui, mas vingou lá.

Na virada de ano entre 2012 e 2013 o Thomas me deu de presente dois DVDs, contendo dois filmes dos quais gosto muito, um no natal e outro no meu aniversário que acontecem bem próximos. Eu tinha esses dois filmes em mídias muito antigas e ele fez questão de modernizá-las, pois esses filmes encerram mensagens muito importantes para mim, talvez já sentindo que sua partida estava próxima.

Um deles é um filme do Frank Capra, cujo título traduzido é “A Felicidade Não Se Compra” onde há uma mensagem central sobre a importância de granjear amigos e todo um contexto envolvendo o Céu, Deus e os anjos, com destaque para o Clarence que vem à essa vida cumprir sua missão com vistas às suas futuras asas de anjos alados.Você já deve ter entendido as razões dele.

O outro filme é “Wall Street, poder e cobiça” de Oliver Stone, um libelo contra a insistente e equivocada busca por poder, dinheiro e coisas materiais. Assim o Thomas reforçou a importância de minha comunicação com os anjos e de nunca confiar nessas bobagens materialistas, mas viver pela fé como convém aos justos, não dando ocasião ao diabo e seus ilusionismos cascateiros.

E eu pensando em deixar herança ao meu filho e, no fim, ele é quem me deixou essa valorosa herança. Nada poderia ter sido melhor. Prometo fazer o possível para disponibilizar esses vídeos para download aqui no blog.

Assim tratei de aproveitar para dizer a ele que havia entendido os recados e trataria de mantê-los em epigrafe. Desculpe, estou meio antiquado hoje. Olhando para o Querubim, reiterei meu desejo de cumprir a missão que me foi ensinada e dada via Thomas, com a confirmação naquele instante e agradeci pelo privilégio. O alado sorriu magnificamente e completou: – Isso fora o serviço de tradutor e interprete entre anjos e seus protegidos. Rindo gostosamente.

Então tivemos as despedidas extremamente emocionantes e eles partiram, deixando claro que os contatos continuariam, sobretudo devido ao meu dom de ver anjos. Quando voltei à realidade estava exatamente no mesmo lugar e o semáforo onde havia parado antes da visão começar, ainda estava vermelho e o relógio não andara nem um minuto sequer. Coisas celestiais, né?

Alguns dias depois, pensando em todo esse acontecimento, me dei conta que não recebi visitas do Raniel e nem vi nenhum anjo durante bom tempo porque minha fé sofrera grande abalo com o falecimento do Thomas. Quando tive a revelação de que a fé começa quando o amor não pode mais resolver a parada, seja qual for, e voltei a buscar minha fé, comecei a voltar à senda da fé, culminando com essa grande e magnífica reunião.

Carta ao Thomas

Se desejar ler a minha carta desse ano ao Thomas, basta clicar no link. Assim como podemos receber mensagens do céu trazidas pelos anjos, eles também têm a função de levar nossas mensagens de volta. Então deixei essa carta no blog para o primeiro anjo que passar por aqui a leve e entregue para ele.

lousign

Não é só a água que está acabando, a caridade também está indo para o ralo

No início da década de oitenta (século passado) fui empossado no cargo de diretor de desenvolvimento da Missão Portas Abertas – Brasil. Minha responsabilidade seria captar recursos (à época conhecido como levantar fundos) para os projetos da Missão, todos relacionados a causas envolvendo a falta de liberdade religiosa, todas acontecendo fora de nosso país, sobretudo na Cortina Ferro (URSS), na Ásia (China, Coréia do Norte, Vietnan, Laos, Cambodja, etc.) e na África (Angola e Moçambique).

Falando a verdade, naquele tempo eu nem acreditava que aquela tarefa era algo ético e espiritual. Foi preciso fazer um treinamento capitaneado pelo Dr. Dale W. Kietzman para mudar de opinião, ou seja, captar recursos para as causas missionarias era bíblico e ético, conclui.

Quando comecei, a Missão estava recebendo 50 doações por mês em média. O escritório era cem por cento sustentado pela Open Doors Internacional, então. Essas doações nacionais não pagavam nem o aluguel do escritório que ficava na Rua Manoel da Nobrega, bem perto da Av. Paulista, na confluência da Brigadeiro Luiz Antonio. A sala grande era dividida em salas menores, uma para o secretário executivo, uma anta naquele tempo, outra para reuniões, uma outra onde o Sipierski e eu fomos acomodados, A H.U.M.E., tocada pela D. Elmira Pasquini ocupava uma também, uma forma da Portas Abertas apoiar ministérios menores, e um espaço onde ficava a recepcionista. Todos esses espaços eram bem pequenos, onde só cabiam mesa e cadeira. Naquele tempo, não tínhamos computador, ainda. Era tudo planejado e calculado na mão.

Comecei meu trabalho levantando as origens geográficas das doações recebidas até então, bem como as principais fontes. Logo percebi uma discrepância interessante, ou seja, enquanto a Missão insistia em solicitar doações ao pessoal das igrejas chamadas históricas (batistas, presbiterianos e metodistas) a maioria das doações vinham de pentecostais, na maioria de crentes vinculados às Assembleias de Deus.

Decidi priorizar meu trabalho junto às Assembleias de Deus. Conheci o Pr. Eude Martins, secretário executivo da Casa Publicadora das A. D., na época, depois com longa passagem na gerência da Editora Vida e hoje na Sociedade Bíblica do Brasil, em cargo promocional, se não me engano. Todo ano apareço por lá uma ou duas vezes para filar a boia e bater um bom papo com ele. Atualmente, ele é meu único doador, em meu ministério à frente do Projeto Coração Valente, por enquanto, um site de informações.

Em pouco tempo, conseguimos um avanço surpreendente. Os pastores eram muito receptivos e montamos uma agenda polpuda de visitas às igrejas da A. D. ocasiões em que divulgávamos o ministério da Portas Abertas, colhíamos assinaturas grátis para a revista da Missão e ainda cuidávamos da pregação naqueles atos. As outras igrejas eram atendidas, também, mediante solicitações ou através de pessoas ligadas à missão que traziam os convites. Meu trabalho incluía ir aos campos missionários que pretendíamos apoiar, como Angola e Moçambique, Cortinas de Ferro e de Bambu, arriscando minha pobre e quase insignificante vida. Depois das campanhas realizadas, sempre através de mala direta, ao menos em 90% do total efetivado, a grana arrecadada era enviada para nosso escritório central destinar a esses objetivos. Depois era ficar de olho para ver se tudo estava caminhando como esperávamos e dar relatórios autênticos aos doadores.

Três anos depois, quando fui demitido sem justa causa, a Missão estava recebendo mil e quinhentas doações por mês e com o gráfico em franca ascendência. Provavelmente, a razão da minha demissão tenha sido excesso de competência, se não houver sido por calúnia. Havia um cara lá que morria de medo de perder o emprego e tratava de defendê-lo à custa da degola de outros, enquanto do Dale Kietzman, meu mentor, e a diretoria formada por vários amigos, diziam amem ao panaca.

Numa análise bem positiva, aqueles foram os anos dourados das doações e, a meu ver, a razão é que as pessoas ainda eram generosas, com destaque para os assembleianos, que além de generosos, estavam muito bem preparados para doar, tanto para suas Igrejas, como para os projetos relevantes, fossem eles em favor do avanço da evangelização, sociais ou educacionais.

Com a chegada de Fernando Henrique Cardoso à presidência da república, o primeiro presidente de esquerda da nossa história republicana, a generosidade do povo, inclusive dos assembleianos, começou a mudar e hoje ela tornou-se muito aquém daquela dos anos oitenta.

O presidente Fernando Henrique deu ouvidos a um ícone da propaganda chamado Alex Pericinotto que afirmava haver no Brasil um mercado de doações de mais de oitenta bilhões de dólares, por coincidência, do mesmo tamanho da divida externa do Brasil, naqueles dias. Então o Fernando entendeu o recado assim: Precisamos trazer esse dinheiro para o governo e pronto, pagaremos a divina externa.

Peculiar foi a forma encontrada por Fernando e a esposa dele, D. Ruth, assim como o governo marxista leninista da Albânia mostrou como a igreja iludia o povo com imagens que choravam sangue feito de suco de uva, milagres falsos e padres pedófilos, criando um  “Museu do Ateísmo” caso o povo desejasse ver essas obras por si  próprio. Eu mesmo estive nesse museu e as vi. Então, esse nosso governo foi à caça de organizações filantrópicas sem ética e pudor, principalmente no uso do produto de suas arrecadações para  arrefecer o ímpeto do dom de generosidade via doações do povo religioso. Salvo enganos.

Os crentes fecharam-se em copas tratando de segurar as doações do seu povo para uso estritamente doméstico, com a vantagem de melhorar muito suas próprias finanças (a da igreja e a do pastor) , enquanto o presidente cunhava o termo “Pilantropia” e a mulher dele criava as OCIPs e o certificado de Filantropia. Com isso eles começaram redirecionar o dinheiro das doações direto para os governos. Depois vieram os conselhos (dos direitos da criança e do adolescente, tutelar e vários outros) e com eles o tal fundo municipal, para onde as doações deveriam ser enviadas.

Para completar o quadro sinistro, milhares de desempregados dos outros setores, cheios de diplomas de todos os tipos e pouca qualidade, migraram para o terceiro setor (o da filantropia) com seus marketings inadequados, cheios de camisetas, padarias, e outras enganações tornando o promissor mercado de doações filantrópicas quase inviável.

A Missão Portas Abertas ainda existe, arrecada bem, mas tornou-se uma mera agência arrecadatória, dirigida por um profissional especializado em marketing e comércio exterior, outro oriundo dos outros setores, e de missão evangélica não tem mais nada ou tem muito pouco, talvez o suficiente para os ingleses verem. No momento eles apoiam a igreja cristã protestante e com pouca liberdade nos países do Oriente Médio, coincidentemente, o mesmo alvo da politica externa dos americanos do norte. O único que viaja lá, hoje, que se saiba, é o chefe, os outros são funcionários de uma firma como outra qualquer, se não me engano.

Se preferir, pode usar uma empresa arrecadadora secular para sua avaliação. Por exemplo, o Instituto Ayrton Senna. Essa organização começou com dinheiro da família Senna, boa parte originada pela herança deixada pelo Ayrton, suponho. Uma destinação muito meritória, sem dúvida que tem rendido muitos prêmios à irmã dele que preside a coisa. Mas o Instituto Ayrton Senna hoje, é uma empresa de arrecadação de doações, cujo objetivo declarado são os projetos dedicados à educação. Recebem dinheiro do governo e de empresas, substancialmente. Com isso, contribuem muito para arrefecer o ímpeto das organizações menores e dos doadores pessoas físicas, os melhores nos países do primeiro mundo. Ao lado deles há a Abrinq e a C&A, todas mega arrecadadoras de doações, isentas de impostos, acho.

Então não me surpreendo quando visito as contas destinadas à recolher doações em pró do Projeto Coração Valente e não encontro um único centavo, depois da morte de meu filho que era portador de uma cardiopatia congênita altamente complexa e que acabou graças à negligência e a ganância de certos profissionais médicos. Com ele vivo, ainda recebíamos algumas doações, certamente para apoiar o tratamento dele. Mas o projeto, que poderia fazer diferença para centenas, talvez milhares de pessoas com cardiopatias congênitas, crianças na maioria, não recebe doações há mais de um ano, salvo a do meu amigo Eude Martins da Silva.

Não tenho dúvida que as pessoas trocaram a generosidade e a caridade pela desconfiança e incerteza. Deve ser horroroso você descobrir que contribuiu para algum tipo de falácia ou golpe pilantrópico.

Então só me resta agradecer aos Ex presidentes Fernando Henrique Cardoso que começou o projeto Pilantropia, talvez o melhor de seu governo chinfrin, ao Lula que deu continuidade ao projeto Pilantropia em seus dois mandatos e à atual presidente Dilma que segue na mesma toada. O que eles não sabem é que Deus tem particular apreço pelos doadores de causas meritórias e costuma reservar bênçãos muito especiais a eles, não sem perseguição, claro.

Não aliviarei para os colegas pastores, que trataram de aproveitar para ficar com 100% da grana doada pelos membros de suas igrejas, inclusive desincentivando-os a doar para projetos fora do ceio de suas igrejas. Eles também esqueceram como Deus trata os doadores verdadeiros, palavra de pastor missionário, embora a Tia Noely insista em me negar o que a mim pertence por direito. Aliás, todo aquele alvoroço  no final e começo deste ano não passou de mais uma tentativa tosca de acobertar essa verdade inegável. Pior é que foi o Tio Cássio, falecido marido dela quem providenciou essa ordenação consagratória.

As represas da Cantareira e a da Generosidade estão funcionando com apenas 10% de sua capacidade, mas sua morte cerebral está sendo dada como certa para muito breve.

morcego-12OPS: Se bater algum arrependimento ou súbito recrudescimento de generosidade terminal, o endereço do site do Projeto Coração Valente continua o mesmo: http://coracaovalente.com

Beijo nas carecas e perucas

Domingo de Páscoa é para todos, inclusive nós?

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Thomas, nosso filho amado eternamente.

Hoje é domingo de Páscoa. Se não me engano, comemora-se a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui no Brasil, em São Paulo onde estou, a maioria das famílias está festejando, embora duvide que saibam exatamente o que.

Ao contrário da maioria, hoje não é um dia festivo para mim e minha família, pois há exato um ano nosso filho nos deixava para sempre, graças a uma cirurgia mal sucedida, precipitada, mal planejada, com claras nuances de incompetência e negligência, da parte de certo famoso dottore e sua equipe de paspalhos e trapalhões inexperientes e mal preparados, em minha opinião.

Deus sim foi muito feliz. O filho único dele morreu crucificado, morte horrorosa diga-se de passagem, depois de haver sido castigado pelos soldados romanos por uma noite e um dia. Mas três dias depois, o moleque estava vivo de novo, todo serelepe.

Diferentemente de Deus, o meu filho até hoje não ressuscitou, sem falar que o sofrimento dele durou vinte e quatro anos, onze meses e dez dias (os piores). Portanto, em matéria de filho sofrido, morto e cremado, sou muito mais apto do que Deus.

Calma aí. Não sou tão herege como está parecendo. Creio em Deus e também que Ele é possuidor do amor perfeito (Ágape). Estou fazendo troça com as infâmias humanas via interpretações bíblicas e outros livros sagrados, pero no mucho. Ou será que Deus depois de dizer com todas as letras que desejava de nós misericórdia e não sacrifícios iria providenciar um dos mais trágicos sacrifícios, se não o mais, justamente com o filho dele pregado numa daquelas cruzes infames dos desumanos romanos? Não acredito.

Aliás, essa história de Deus contra os sacrifícios já era velha nos tempos da vida de Jesus nesse planeta. Basta lembrar de Abraão ávido por sacrificar seu primogênito e único filho como requereram os outros deuses de seus vizinhos, levado ao alto da montanha para imolar Isaque e lá em cima Deus passou-lhe um belo sabão e depois lhe deu um cabrito para ele aplacar sua sede de sacrifício, enquanto livrava a cara do moleque Isaque.

Há algo de podre no Reino de Deus estacionado sobre a terra. Como diria Schopenhauer, as religiões e seus sacerdotes agem assim porque sacrifícios dão dinheiro. Digo isso porque o “Schop” via intenção financeira atrás de cada canalhice humana, tal qual essa. Não, Deus não faria um absurdo desses com o filho dele e muito menos com o meu ou vice-versa.

O nosso atual governo fala muito em igualdade enquanto promove a desigualdade sob todos os pretextos, classificando todos os seus discordantes em “elites”, só pra começar. Enquanto a presidente e seu ex-ministro da saúde traziam “médicos” cubanos para “melhorar a saúde”, como dizem, absurdos como o acontecido ao meu filho grassavam pelos hospitais, centros de saúdes fixos ou ambulantes, consultórios e demais locais onde exercem essa coisa horrorosa a qual chamam de serviço de saúde.

Meus caros políticos governantes, saúde igualitária não é essa prática mezzo cubana soviética mezzo chinesa que vocês estão querendo perpetuar no nosso país. Saúde igual para todos existirá quando cada pessoa doente e carecendo de uma cirurgia, independentemente de sua situação financeira, idade, cor, sexo, etc., for internada em um apartamento privado, com direito a acompanhante e serviço completo de hotelaria.

Será algo igual quando as consultas forem feitas sem pressa e por médicos sem medo ou nojo de tocar nos pacientes, sejam eles de que parte forem, caribenhos, europeus latinos e até brasileiros. Quando as pessoas não morrerem de infecção hospitalar só de passar perto dos hospitais.

Não essa diferenciação feita pelos senhores que só se tratam no Hospital Sírio Libanês, enquanto os demais, inclusive as elites formadas por seus desafetos, são obrigados a submeter-se a pocilgas como a Beneficência Portuguesa e similares, para quem paga plano de saúde, e os antros públicos para quem nem isso tem.

Também, quando essa mesma pessoa for para a Terapia Intensiva, igualmente será acomodada em apartamento privado, em regime de isolamento para prevenir o ataque das infecções via bactérias, vírus, etc., com direito a acompanhante vinte e quatro horas, mais todos os outros procedimentos necessários ao seu caso, poderemos chamar tudo isso de atendimento de saúde igualitário.

Em todos esses lugares onde vocês não se submetem quando algo em seus rotundos e flácidos corpos vai mal, as pessoas são tratadas pior do que o gado que vocês criam para exportação em suas fazendas adquiridas com dinheiro público, subtraído por vias funestas, salvo engano.

Respondam se puderem a essas perguntas: Como vocês se sentiriam se o cirurgião famoso que acaba de lhes operar resolvesse sair para uma nova lua de mel com sua dottore e/ou scrivania cem anos mais novas, bem bonitinhas e gostozinhas, bem no meio do seu período de recuperação em UTI?

Se seu filho ou mãezinha morresse durante uma cirurgia, vocês não gostariam de ver o acontecimento investigado de forma competente, por pessoal especializado? Caso ficasse constatado a imperícia e/ou negligência do médico, brasileiro, cubano ou argentino, whatever, você deixaria barato, ou preferiria que todos os casos fossem muito bem avaliados? Se o “cirurja” houvesse pisado na bola, comprovadamente, vê-lo julgado e condenado a assistir todas as manhãs o sol nascer por entre grades de ferro de uma polegada for ever?

Meu, cidadania, igualdade e democracia também incluem saúde pública de qualidade para todos, sem distinção alguma, ou estou errado?

Sabe, tro-lo-ló de Deus culpado pela inescrupulosa e totalmente inaceitável atitude de usar meu filho como cobaia humana pra treinar um novo tipo de cirurgia cardíaca, é pecado mortal. Nisso sim eu creio, esses caras arderão no fogo eterno. Podes crer, seja lá onde isso for e como for.

Fora a falta de caráter em não mencionar a Septicemia no laudo final, a fim de livrar o Hospital de penas financeiras, caso houvesse algum processo e condenação. Pois sim, como se isso fosse possível em um regime como nosso de caos, desigualdade e total corrupção.

Fora o fato de eu ter conjugado meu tempo, minhas parcas possibilidades e talentos com os esforços favoráveis aos tratamentos de nosso filho. Sem perceber, fui me afastando do mercado de trabalho, cada vez mais, juntando contas não pagas, perdas e inadimplências múltiplas. Agora, aos 63 anos, estou aqui obrigado a continuar tocando a vida sem meu filho, e nenhuma complacência da sociedade, onde os primeiros a me espetar são os órgãos governamentais e seus impostos de Renda, IPTU, etc.

Só pra constar, procurei no formulário eletrônico da declaração de imposto de renda o lugar onde eu registraria o filho perdido para o devido ressarcimento financeiro e não encontrei. Estranho né? Se alguém achar, por favor me informe, antes do prazo de entrega das declarações vencer, obrigado.

Isso é um domingo de Páscoa que se apresente? Não se Deus estivesse à frente de tudo isso, então só haveria domingo de Páscoa quando chegássemos ao alvo dele, ou seja, com ou até sem ovos de chocolate descobríssemos como viver em amor e fé e então sermos, de fato, um povo igualitário. Enfim, apenas mais um sonho impossível e/ou utópico.

Meu, como disse Jesus, ore para você não ter nenhum filho cardiopata congênito naqueles dias, pois ali haverá dores e ranger de dentes.

Feliz Páscoa a todos, se puderem.

Ops: Meu filho caçula o Thomas, faleceu no dia 20 de abril de 2013, exatamente há um ano.

lousign

Domingo de Ramos na Gruta

Domingo de Ramos

Não sei quantos lembram, mas no último dia 03 de março passado, iniciei uma série de posts sob o Título: “Quaresma”. Em princípio a ideia era escrever sobre o período de quarenta dias sucessor ao carnaval e antecessor à dita Semana Santa, onde celebra-se a famosa “Paixão de Cristo“.

Bom, após o primeiro post, aparentemente, não aconteceu mais nada. A série pretendia conter quarenta posts, relativos a cada dia da Quaresma, tomando por base o texto bíblico do evangelho de Marcos.

Mas esse plano foi para a gaveta do arquivo onde são guardados os planos não implementados antes de seu destino final, o cesto do lixo.

Aconteceu, ao consultar a agenda, perceber a incrível coincidência das datas. Todo mundo sabe que a cada ano, a Semana Santa cai em um período diferente entre março e abril. Mas esse ano as datas da Paixão de Cristo batem exatamente com as datas da Paixão do Thomas.

Calma, antes de pensar que pirei de vez ou assumi ser de fato um herege, deixe-me tomar emprestado um dado do livro “A Última Semana” do

English: Marcus Borg speaking in Mansfield Col...
English: Marcus Borg speaking in Mansfield College chapel. (Photo credit: Wikipedia)

Marcus Borg, aliás esse livro deverá nos acompanhar ao longo dos próximos sete dias e/ou sete posts; é o seguinte: “Paixão vem da palavra latina ‘passio’ que significa Sofrimento.

Sendo assim, você já deve ter percebido porque a quatro dias venho insistindo em relatar a saga vivida por meu filho no ano passado e, como todo mundo já sabe, culminou com seu falecimento, na madrugada do dia 20 de abril.

Muitas vezes, enquanto lia e/ou estudava a bíblia, pai que sou, me pegava preocupado com Deus pai. É verdade, sim, especialmente durante a tragédia e sofrimento da chamada Semana Santa. Afinal, o alvo daquela saga foi o Filho de Deus. Certo?

Ficava imaginando como o velhinho de barbas branquinhas devia ter sofrido e, embora pudesse parar aquilo, poder não lhe faltava, precisava deixar tudo acontecer sem intervir.

O futuro da raça humana e de todo o projeto divino estava incluso naqueles acontecimentos, segundo os melhores e principais teólogos da história da igreja cristã. Entretanto, por mais que me esforçasse em sentir o que aquele Pai sentiu, sabia o óbvio, não estava chegando nem perto.

Na noite em que orei ao lado daquela cama no hotel e tive uma crise de choro, pela primeira vez senti algo inusitado para mim, uma dor no coração, não na carne, mas no espírito, que jamais poderia imaginar existir.

Naquela hora não soube identificar, mas hoje sei que Deus me permitiu sentir o que ele sentiu na Semana Santa da Paixão do Filho Dele, durante a semana da Paixão do meu próprio filho.

O Thomas não morreu para isso, mas na inevitabilidade da morte dele, Deus me deu essa graça. Agora cabe-me viver por ela, pois ela salvou a minha vida, embora tenha que vive-la sem meu filho.

De novo, estou sentindo as dores de Deus e será assim enquanto viver, como acontece com Deus, obviamente. Certamente, estou sentindo essas dores em muitos megatons abaixo da experiência divina, apenas o suficiente para entender o que é preciso.

Quando o Thomas viajou para aquele hospital, no dia 9 de abril, ele estava seguindo Jesus em sua última viagem a Jerusalém. Jesus entrou pelo portão da cidade no chamado Domingo de Ramos.

Hoje, dia 13 de abril faz um ano que ao entrarmos na UTI Cardiológica do Hospital Beneficência em São Paulo, no horário da primeira visita daquele dia, fomos informados que haviam retirado os tubos de respiração mecânica dele, mas devido a agitação ocorrida nele após esse procedimento, eles haviam decidido entubá-lo novamente. Essa foi a última tentativa. Depois disso os tubos só foram retirados após o óbito.

Durante a segunda cirurgia, realizada no Hospital São Paulo, no período de recuperação na UTI, alguns dos profissionais que mais trabalharam com o Thomas foram os fisioterapeutas.

Quando me informaram da extubação mal sucedida, lembrei-me na hora do Dr. Barbero, do INCOR. Para esses procedimentos é preciso competência somada a muita coragem.

Durante todo o período na UTI da Beneficência, nunca vimos um único fisioterapeuta trabalhando com nosso filho, sobretudo no procedimento da extubação, quando é preciso ajudar muito o paciente a expulsar toda a secreção represada pela presença dos tubos nas vias respiratórias do paciente, se não me engano.

Disse mais o Dr. Barbero, os fisioterapeutas do INCOR também representavam grande parte do sucesso nas recuperações por lá.

O Domingo de Ramos do Thomas aconteceu no dia 13 de abril de 2013, pois ali teve início a Paixão dele. Até ali, ele havia chegado a Jerusalém, apenas, mas agora tinha início seu calvário, exatamente como aconteceu a Jesus, Filho de Deus, guardadas todas as devidas proporções.

O Borg nos lembra ainda do texto de Zacarias, profecia sobre a entrada do rei em Jerusalém: “Ele cortará a carruagem de Efraim e o cavalo de Jerusalém, e o arco de guerra será cortado e ele anunciará a Paz entre as nações. (9:10).

O Thomas não era rei e nós nunca tivemos essa pretensão, no máximo ele foi um príncipe para nós, seus familiares e amigos, pois nobreza não lhe faltava.

Ele não veio anunciar a Paz entre as nações, mas nos lembrar que essa era e é a grande missão de Jesus de Nazaré. Você não pode imaginar como me sinto depois dessa identificação.

No livro “Zelota” de Reza Aslan, o autor argumenta com muita propriedade sobre uma provável postura guerrilheira de Jesus. Mas não creio nisso dessa forma, apesar da excelência do livro e do texto do Reza.

Penso com todas as minhas forças em não embarcar na onda de violência que se aproxima em nosso planeta. Decifro a metáfora duramente representada por meu filho como uma tremenda e contundente mensagem de Deus para todos nós.

Falo da natureza pacifica da missão do Cristo: Ele veio anunciar a Paz entre as nações e a nós não cabe outra missão, se não seguir a cruz dele. Deus não faria um anuncio tão dramático se o momento não o requeresse.

Ao contrário do que possam dizer as religiões e seus sacerdotes, a Quaresma não deveria ser um tempo para nos flagelar provocando nossa própria penitência em jejuns e orações intermináveis.

Talvez um abstenção respeitosa possa ser feita por ocasião do dia em que Jesus teria morrido na cruz do calvário, somente.

Pelo menos para mim, que estava disposto a experimentar uma Quaresma religiosa, cheia de sacrifícios auto impostos, para observar meus sentimentos diante dela, o que aconteceu, na verdade, foi que o conjunto das lembranças dos acontecimentos ocorridos há um ano com meu filho está sendo a penitência e será enquanto eu viver, pois ele se foi exatamente na Semana Santa e em consequência de uma enorme Paixão.

Após a visita da noite, sem outras alterações importante no quadro, naquele dia 13, rumamos para a casa da minha mãe, bem distante do hospital, na Vila Mascote, aliás, perto de onde estamos morando agora, onde passamos aquela noite.

Amizades, no dia 12 de abril de 2013
Thomas com uma amiga enfermeira conquistada no hospital São Paulo durante a hospitalização para a segunda cirurgia em 1996.


Acabamos optando por dormir em um hotel fuleiro quase em frente do hospital. Pelo menos estaríamos bem perto caso fossemos chamados, por qualquer razão. Lembrei de novo do hospital lá em Louisville – KY com seu hotel a bordo. Um dia mudarei o ditado “cada povo tem o governo que merece” para “cada povo tem o que merece”. Não fomos incomodados por chamadas intrusas e dormimos um pouco, embora eu só tenha ficado no tal do primeiro estágio. Mas sonhei, desesperos, claro.

Depois do café da manhã, voltamos ao apartamento para pegar algumas coisas e resolvi ligar para alguém. Foi aí que me dei conta do fato de não haver sinal de celular naquele lugar. Não disse nada para a Dedé a fim de não assustá-la, mas me deu uma pressa louca para voltar ao hospital, tinha medo de alguém ter nos ligado sem resultado. Chegamos por volta das 10 horas e fomos direto falar com a secretária do doutor. Ela já tinha checado o estado do Thomas. Tudo bem até ali. Havia acordado e os sinais estavam bons. Agora era avaliar o melhor momento para extubá-lo de novo, informou. Imaginei que eles seriam mais cautelosos agora e não estranhei. Folguei que não tivessem nos chamado durante a noite.

De novo na sala de espera da UTI, Dedé agarrou sua palavra cruzada e eu tentei ler um pouco. Cadê concentração para qualquer coisa. Vi a doutora Juliana passando empurrando o carrinho com a máquina de eco portátil e corri falar com ela. Acabara de fazer um eco no nosso filho e disse que estava tudo bem, conforme o esperado. Folguei um pouco. Acrescentou que à tarde a equipe trataria de avaliar a possibilidade de extubá-lo. Quando entramos para a visita ele estava acordado, mas meio sonolento. Um pouco ficava conosco e outro pouco cochilava. A PA estava em 10 X 6, com medicamentos. Preferi não ter olhado para o monitor. O melhor era a oxigenação, sempre acima de 94, coisa que ele nunca tivera na vida.

Demos carinho a ele, palavras de incentivo e esperança, quase não o tocamos por causa do espaço e eu preferi deixar a Dedé mais próxima. Os dois juntos era impossível, imagine. O horário da visita terminou e fomos expulsos de novo. Expressamos nosso amor a ele, o beijamos e saímos. Ele já estava adormecido, quando virei e olhei antes de sair pela porta que dava para o corredor.

Resolvemos ir almoçar em algum lugar mais distante do hospital e tentar uma alimentação melhor. Lembramo-nos de um restaurante perto da Estação Santa Cruz do Metrô e fomos para lá. Interessante esses nomes das estações do Metrô. Santa Cruz, Paraiso, Saúde, São Judas, Liberdade, Sé, São Bento, Santana, etc. Bem católicas né?

Não lembro direito o que fizemos naquela tarde, antes de voltar ao hospital. A visita da noite foi exatamente igual a da manhã. Sem alterações, apenas a informação de que a extubação estava planejada para a manhã do dia seguinte. Os sinais eram quase os mesmos, com pouca variação. A PA continuava igual, e em alguns momentos subia para 11 na máxima ou caia para 9. Então deixei pra lá. A médica residente responsável nesse dia era meio arrogante. Nada de novo, nisso. Mas conversou conosco, pois parece ter sido incumbida de ficar o tempo todo com o Thomas, naquele dia. Pelo menos, enquanto estivemos lá, não saiu de perto. O casal de super doutores não deu as caras nesse dia. Novamente fomos expulsos de lá. Quem fazia esse trabalho era uma enfermeira mais velha e bem mal educada. Parecia não ter o menor carinho por pacientes. Entendo, uma pessoa passar a vida toda naquela vida ali, não deve ser nada fácil.

Me dei conta de como era difícil orar naqueles dias. As orações eram curtas e meio frias. Nessa noite lembro que acordei de madrugada e resolvi orar como se deve. Clamei pra valer, mas tive uma inexplicável crise de choro e senti um medo enorme, como nunca havia sentido antes.

Pensando bem, nos dez dias que passamos ali, só tivemos companhia de pessoas chegadas (parentes ou amigos) nos horários de visita, mesmo assim, uma ou outra vez. O resto do tempo éramos nós dois do lado de fora da UTI e o Thomas lá dentro cercado de estranhos fazendo todo tipo de maldade com ele, inclusive conversas negativas perto dele e sobre ele. Algumas pessoas nos ligavam, minha sogra, a Nádia, Pr. Neto e Adalberto e a Márcia. Mas ninguém ficou conosco lá, nem um minuto e com tantos amigos pastores, nenhum visitou meu filho, muito menos a nós. Lembrei do professor Geo, ele costumava passar em casa nos sábados à tarde para me buscar e irmos visitar doentes lá no Hospital das Clinicas. Eram pessoas que nunca havíamos visto antes, a maioria sozinhas em seus leitos, semi abandonadas. Conversávamos e orávamos com elas. Acho que devia ter feito mais desse tipo de missão.

Sabe, agora reconheço a importância disso. Alguém que nos levantasse, que fizesse as orações por nós, que pagasse o café e dirigisse nosso carro e/ou nos livrasse dos detalhes burocráticos possíveis. Enfim, companheiros prontos pra toda obra. Quando o Thomas passou pela segunda cirurgia, a Dolores, uma amiga argentina, mãe de uma coleguinha de escola dele, passou o dia inteiro amparando a Dedé. Voltou lá todos os dias até a alta. Mas dessa vez a trajetória foi solitária para nosso filho e para nós dois.

Café na lanchonete e de volta ao hotel fuleiro. Chegamos lá pensando que no dia seguinte deveríamos mudar nossa rotina, inclusive por causa dos custos. Se possível, excluir o hotel. Tentaríamos ir dormir na casa da minha mãe a próxima noite.

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O primeiro susto, em 11 de abril de 2013

LHM com o médico chefe da Cardiologia Congênita no medical center de Louisville – KY – USA

Geralmente, cardiopatas congênitos passam mal. Era engraçado quando chegávamos diante de mais um médico (perdia a conta de quantas vezes isso aconteceu) e quando o cara de branco perguntava sobre isso e respondíamos: nunca. Como assim? Nenhum desmaiou? Arritmia? Dor? Dificuldade respiratória? Não, nunca.

No dia seguinte ao da cirurgia, fomos despertados pela moça do café, lá na sala do desespero, cerca de seis horas da manhã. Ela estranhou nossa presença lá. Geralmente a sala fica fechada durante a noite. Expliquei que houve uma autorização especial. Estávamos desconjuntados, depois de passar a noite com o corpo em uma cadeira e os pés em outra. Mas aceitamos o café fresco, depois de lavar o rosto.

Saímos andando pelo hospital em busca de notícias. Tudo que conseguimos foi o status da UTI: estável. Pareceu-nos bom. Então fomos tomar um café mais reforçado na lanchonete do hospital, depois demos uma volta pela rua e voltamos. A secretária do dottoressa devia estar para chegar e poderia checar melhor o estado dele. Falamos com ela e ficamos aguardando notícias. Lá pelas dez horas voltei à sala da equipe e ela me informou que ele havia sido extubado (retirada dos tubos de ventilação mecânica) e estava acordado e consciente.

A hora da primeira visita do dia custou a chegar. Pelo menos conseguimos ser os primeiros a nos inscrever, embora isso não ajudasse muito na hora de entrar, apenas evitava ficar na fila mais tempo.

Em 1991, estive em Louisville Kentucky – USA, entre outras coisas, visitei o Centro Médico da cidade. Eles tinham uma ala inteira dedicada ao tratamento de cardiopatas congênitos. Um amigo agendara uma reunião com o cardiologista chefe da espelunca. Levei o filme do último cateterismo do Thomas comigo. Encontramos o cara na sala dele. Muito simpático nos recebeu como se fôssemos gente igual a qualquer norte americano. Depois das apresentações, descrevi a cardiopatia do meu filho e dei a ele o filme. Ele me chamou para a sala ao lado onde havia uma máquina onde ele poderia olhar o trem.

Em poucos minutos tinha um diagnóstico completo e acrescentou, um cirurgião brasileiro desenvolveu uma cirurgia para esse problema, Dr. Adib Jantene, conhece? Ele já viu seu filho. Fiquei perplexo. Mais perplexo ficará você quando eu lhe contar que nunca levei o Thomas para uma consulta com o Dr. Adib. Talvez por ele ter sido ministro traído da saúde no governo Fernando Henrique, sei lá. Mas o velhinho simpático fez questão se dizer que poderíamos levar nosso filho para ser operado lá, naquele hospital, enquanto nos levava para conhecer toda a estrutura. Entre tantas coisas muito punks, como um hotel dentro do hospital para os parentes dos pacientes e uma loja do Mcdonald’s, no andar térreo da ala dos cardiopatas congênitos, todo decorado com motivos infantis.

O ponto alto da visita, se bem me lembro, foi a UTI. À porta de entrada, fiquei reticente, pois nas UTIs que frequentara em São Paulo era obrigado a cumprir um ritual imenso, colocando touquinha, aventais e lavando as mãos com uma substância à base de Iodo. Mas ele abriu a porta e disse entre. Pensei, a tortura deve ser lá dentro mesmo e estou entrando de livre e espontânea vontade. Que nada, logo ao entrar ele nos apresentou dois médicos informando que eram anestesistas. Segundo ele, sempre havia dois anestesistas de plantão 24 horas para atender intercorrências dos pacientes em recuperação ali, fora os profissionais para todas as áreas necessárias. Cada paciente ocupava um espaço fechado por paredes de vidro com bastante espaço para circulação, equipamentos, atendimentos e a presença em todo o período de internação de um acompanhante. Para tanto, havia mais uma cama (confortável) para essa pessoa naquele lugar. Tive a sensação de estar em algum sonho ou fantasia.

Então fomos convocados para entrar na UTI da Beneficência. Agora a moda era passar álcool gel nas mãos, apenas. Lá fora, havia vários visitantes tossindo pra caramba. Se não era pneumonia, só poderia ser tuberculose, mas ninguém me pareceu preocupado. Numa dessas vezes, entrando pelos corredores da UTI, havia um rapaz na nossa frente, e percebemos ser um funcionário do hospital, pois estava com uniforme e usava crachá. Ele falava alto ao celular, embora a nós solicitassem desligar os celulares. Ouvimos um trecho da conversa onde ele dizia ao seu interlocutor algo assim: – Não acredito em você, sabe por que? Porque você é médica e médicos mentem o tempo todo. Cara, aquilo está me incomodando até hoje.

Enfim chegamos à UTI onde o Thomas estava, em cubículo cercado por cortinas salmon, onde mal cabia a cama dele e toda a aparelhagem que não era pouca. As pobres das auxiliares de enfermagem tinham que se virar para fazer o trabalho delas e nossa presença ali piorava essa questão ainda mais. Encontramos o Thomas muito bem. Ele ficou muito feliz ao nos ver e estava com uma aparência ótima. A cianose havia sumido por completo, estava com os lábios rosados, corado e com as extremidades das mãos com cor absolutamente normal. Até as pernas, durante tanto tempo, roxas quase pretas do joelho para baixo, estavam mais claras. Ele estava bem alerta e enquanto estivemos ali, riu muito com a Dedé e comigo. O único detalhe negativo era a pressão arterial (10 X 7) um pouco baixa a meu ver. O residente vinha conversar com os parentes de cada paciente e na nossa vez explicou que a operação dele era muito recente, onde havia acontecido uma mudança drástica em todo seu sistema circulatório e seu corpo ainda estava começando a se adaptar a toda aquela novidade. Me pareceu consistente e me dei por satisfeito.

Permanecemos o máximo possível, até sermos pouco gentilmente escorraçados de lá. Saímos mais animados e até ensaiamos um passeio até uma lanchonete fora do hospital para um café mais gostoso. Havia muito tempo para esperar entre aquela visita e a próxima, às 20 horas. Enfim, chegou a hora, e embora tivéssemos nos inscrito entre os primeiros, nosso nome não foi chamado. Indagamos a razão e fomos informados que ele estava sendo banhado. Estranhamos, mais ainda quando a demora aumentou. Apertamos o funcionário responsável e ele foi verificar. Voltou e informou que o Thomas estava fazendo um exame. Perguntei qual o exame e ele disse que parecia ser uma ressonância. Na mesma hora corremos para o setor de exames de imagem e descobrimos que nosso filho estava mesmo lá. A pessoa que nos atendeu disse que a dottoreza logo viria conversar conosco. Tratava-se da esposa do dottoreza agora, a segunda cirurgiã da equipe. Sentamos para esperar e não conseguimos controlar nossa sensação de que algo não ia bem, e caímos em grande pranto, ali abraçados, só nós dois.

Demorou um pouco para a mulher aparecer, toda paramentada com a roupa usada naquela área. Informou que o Thomas tivera uma intercorrência grave e fora necessário fazer um cateterismo de emergência para embolizar algumas colaterais que estavam sequestrando fluxo sanguíneo e fazendo a pressão cair a quase zero.

Muito emocionados, não conseguimos concatenar uma conversa com a dottoreza e ela voltou para dentro onde estava sendo feito o atendimento. Um auxiliar de enfermagem ficou ali conosco e nos incentivou a esperar, pois logo ele passaria por ali para voltar à UTI. Quando o trouxeram vimos que ele estava entubado novamente e estava inconsciente, mantido por um monte de aparelhos à sua volta, naquele leito de transporte interno. A Dedé questionou o estado dele de forma veemente e a dottoreza explicou que naquele momento ele estava fora de perigo, mas que quando o trouxeram estava em grande risco.

Beijamos ele e lhe dissemos palavras de incentivo, amor e bênçãos divinas. O elevador chegou e o levaram. Meio perdidos, nos dirigimos para a sala de espera da UTI. Devíamos estar entre nove e dez horas da noite. Vimos quando o dottoreza chegou e fomos falar com o cara. Ele informou que estivera operando em outro hospital e que iria ver como o Thomas estava. Meia hora depois saíram os dois dottoresas, marido e mulher e nos tranquilizaram quanto ao estado do Thomas, confirmando que ele estava bem melhor e a pressão subira para 11 X 7. Despediram-se e nos deixaram ali, sem eira e nem beira, ou seja sabe-se lá porque não podíamos ficar com nosso filho.

Aquele foi o primeiro susto e talvez um aviso de preparação. Ficamos um pouco mais tranquilos, mas com algo atravessado em nossas gargantas.

Percebemos que não tínhamos onde ficar, então.Tentamos a sala do desespero, mas estava trancada. Logo a segurança apareceu e “gentilmente” nos convenceu a sair daquela área. Sobrou a sala de espera da UTI, um lugar aberto, com cadeiras fixas azuis igual aquelas que existem nas agências da Caixa Econômica Federal, duras pra cachorro.

Foi ali que passamos aquela noite, mesmo porque, nosso compromisso inicial com o Thomas é que sempre estaríamos no lugar mais próximo possível dele.

Ops: Para ver e ler mais sobre Cardiopatias Congênitas, visite o Projeto Corações Valentes.

Um ano atrás, a terceira cirurgia

 

Às 4:30 hs. do dia 10 de abril de 2013, dois enfermeiros entraram no quarto do Thomas anunciando o início da preparação visando a cirurgia. Banho, tosa e medicação pré-operatória. Às 05:30 ele estava pronto. Estávamos, os três, em clima de oração. Falamos pouco entre nós. Dedé e eu evitamos qualquer atitude que pudesse transparecer algum tipo de despedida. Sem fotos, choros ou prognósticos. Não consegui pensar em piadas, naquele instante.

A chefe a enfermagem trouxe a papelada incluindo as autorizações para os procedimentos a serem assinadas pelo paciente, que era maior de idade, ou por um responsável, a critério dele. Incentivei-o a assinar, como uma forma de dar-lhe mais confiança. Hoje considero essa atitude minha precipitada e uma das mais equivocadas em todo aquele processo. Falaremos disso oportunamente.

Um dos jovens médicos, residente, Dr. Vitor Hugo, apareceu e anunciou que seria realizado um novo Ecocardiograma antes da cirurgia. Aquilo pareceu meio fora de ordem. Ele tinha vários ecos prontos, inclusive um feito em DVD, com o coração em movimento, realizado na Unimed de Sorocaba, em máquina rara e especial a pedido do cirurgião. Então descemos para a sala de exame onde a Dra. Juliana, outra residente, nos aguardava. Ela é técnica em ecocardiograma e me passou a impressão de estar apreensiva, um pouco além do normal. Pareceu buscar algum ponto em especial e fiquei com a sensação de ter encontrado o que procurava e compartilhado com o Dr. Hugo, mas não consegui ouvir a conversa dos dois.

Dali subimos, encontramos a Dedé e rumamos ao elevador que leva ao centro cirúrgico. O doutor não estava na porta de entrada, apenas outro médico desconhecido por nós. Nos despedimos do Thomas e eu o abençoei, enquanto a Dedé lhe dava um longo e terno abraço. Ele disse algo para nos confortar, mas não seguramos as lágrimas, os três.

Segundo orientação da equipe, fomos encaminhados para a sala dos desesperados, apelido que demos ao lugar onde os familiares aguardam seu queridos enquanto estão sendo submetidos à cirurgias. Chegamos lá às 7:15 hs, daquela manhã.

A secretária do cirurgião, estava disposta a nos manter informados além do serviço de informação oficial do hospital, realizado através de um terminal telefônico instalado naquela sala. Durante todo o dia as cadeiras disponíveis foram disputadas por mais pessoas do que elas podiam suportar.

Não sei exatamente, mas suponho que a secretária nos trouxe a primeira informação extraoficial, por volta das 11hs da manhã, depois de uma solicitação nossa. A sala dela era bem em frente de onde estávamos. Dava conta de que tudo estava caminhando bem, sem qualquer intercorrência negativa.

Imaginávamos, tolamente, que a cirurgia deveria estar perto de terminar. Entretanto, até ao meio-dia não recebemos novas informações. Às 13 horas falei com secretária e ela me informou que ouvira alguém mencionar algo sobre o doutor haver mudado a cirurgia planejada, para uma cirurgia de correção total. Isso jogava a previsão de término, para o fim da tarde e nossas preocupações para a lua. Todas as informações chegadas, tanto as oficiais quanto as da secretária foram as melhores, até o anuncio de cirurgia encerrada. Eram 17:30, dez horas após o início.

Minha sogra chegou por volta das dezoito horas e logo depois a esposa do doutor, também cirurgiã cardíaca e membro da equipe do tal. Ela foi logo informando que tudo correra muito bem e que havia se oferecido para entrar na cirurgia, mas o doutor informando estar nos procedimentos finais, não aceitou sua ajuda, por não haver necessidade para tanto. Ela nos explicou melhor o que havia sido realizado e ficamos felizes por um lado, mas apreensivos por outro, pois sabíamos que agora a recuperação exigiria mais de todos, a começar pelo Thomas.

Uma hora depois, o próprio cirurgião apareceu, todo feliz e radiante por ter feito uma super cirurgia e ainda deu uma leve ratificada em seu posto de number one dos cirurgiões de cardiopatas congênitos, se não me falha a memória. Segundo ele, a única dificuldade foi manter sob controle um sangramento persistente, mas que não impediu a realização da cirurgia em seu todo. Fiz-lhe algumas perguntas óbvias, entre elas uma relativa às colaterais, que seria uma preocupação a priori, mas ele considerou aquilo sem maior importância.

Às 20:30 hs descemos para a UTI e fizemos a primeira visita ao nosso filho, evidentemente entubado e anestesiado, cheio de máquinas ao redor, tanto que mal conseguimos um espaço em seu corpo para tocá-lo. Ficamos ao lado dele por pouco menos de 30 minutos, falando-lhe palavras de carinho e incentivos, então fomos convidados a nos retirar, afinal não havia nada que pudéssemos fazer ficando ali, segundo o pessoal da saúde, presente.

Saímos de lá fomos arranjar autorização especial para permanecer na sala do desespero por mais uma noite, embora já houvéssemos perdido esse direito, pois nosso ente operado não estava mais em processo cirúrgico.

Esse é um dos temas que pretendo discutir muito enquanto viver: A importância de familiares presentes 24 horas nas Unidades de Terapia Intensiva como parte essencial da recuperação, tanto quanto no restante do processo recuperativo.

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O último dia de vida
Thomas Henrique Velloso Mello


Ninguém poderia presumir que aquele era o último dia de vida dele, de fato. Levamos nosso filho Thomas para São Paulo, com o objetivo de interná-lo no hospital Beneficência Portuguesa. No dia seguinte ele seria submetido à uma cirurgia (a terceira) no aparelho circulatório. Fizemos isso de livre espontânea vontade, usamos nosso próprio automóvel, conduzido por mim e com minha esposa a meu lado. Acima de tudo, nosso filho estava disposto a submeter-se a aquilo.

Depois dos ajustes burocráticos, tivemos uma reunião da qual participaram o cirurgião e dois de seus auxiliares de um lado e o Thomas e eu de outro. O médico, considerado o “Number One do Brasil” na especialidade, com direito à capa de revista famosa e tudo. Ele explicou o que pretendia fazer na operação: Reparar a válvula Pulmonar utilizando um implante de ser humano tratada adequadamente para tanto, em substituição à original e mais alguns ajustes circunstanciais. A cirurgia não deveria ultrapassar o tempo de quatro horas.

O Thomas foi encaminhado para um apartamento e nós seguimos com ele, onde permanecemos até o dia seguinte, quando o acompanhamos até a porta de entrada para o Centro Cirúrgico.

O Thomas tinha enorme esperança naquele procedimento. Sonhava com a possibilidade de, finalmente, poder levar uma vida normal, igual a de qualquer jovem de sua idade (24 anos, 11 meses e 19 dias). Evidentemente, havia algum temor nele, mas muito menos do que o esperado. O doutor, estranhamente, estava prometendo até mais do que o esperado, segundo ele, nosso filho ainda jogaria muito basquete. Embora o doutor não confirmasse, havia em todo o pessoal da equipe e em nós também, a desconfiança de que ele fizesse uma cirurgia maior, dependendo das circunstâncias encontradas, ou seja, desconstruir a cirurgia anterior e fazer uma correção total do problema, colocando tudo no lugar original. Segundo os entendidos, se havia alguém com a capacidade de fazer uma cirurgia desse tipo (pouco provável e recomendável para os outros profissionais do bisturi na área) esse alguém era o tal doutor.

No quarto havia a cama hospitalar do paciente, um sofá e uma cadeira daquelas super confortáveis com mecanismos especiais e outros móveis necessários. O Thomas foi alojado na cama, a Dedé acomodou-se no sofá, então eu fui para a poltrona, a única opção restante.

Depois que minha sogra saiu, a única e última visita naquele dia, não aconteceu nada incomum, mas não dormi, exceto uma ou outra pescada, sobretudo, percebi que Deus não visitou o Thomas, pelo menos não de forma aparente, que eu tenha visto.

Até hoje lembro daquela noite e não me conformo por não ter pego meu filho em meus braços e junto com a Dedé, sequestrado ele dali. Infelizmente, essa ideia não me passou pela cabeça, nem por uma fração de segundo, a não ser depois de tê-lo perdido.

Todos nós queríamos ele sarado, talvez até Deus, mas antes de tudo, nós o queríamos vivo.

Após a cirurgia ele ficou dez dias na UTI entre a vida e morte, finalmente a morte venceu.

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Nosso primeiro livro

Ontem, durante o almoço com o Nelson Bomilcar (pastor, músico de primeira com uma vasta produção de músicas relevantes, conselheiro, palestrante, expositor bíblico e autor de “Os Sem Igreja”), me peguei declarando, mais uma vez, meu propósito de seguir adiante com o Projeto Coração Valente.

Conversa vai, conversa vem, contei a ele alguns dos insights espirituais subtraídos da história do Thomas e o Nelson recebeu a bola, matou no peito de bateu forte no ângulo perguntando: “Você já escreveu todas essas coisas?”

Hoje, acordei antes da hora. Em momentos de grande preocupação com o que comer e o que vestir, acho interessante acrescentar “e onde morar”, detalhe ao qual o Mestre de Nazaré parece não ter dado muita importância quando fez o sermão na montanha, meus momentos de descanso diminuem contra a minha vontade.

Na falta de outra coisa a fazer, deixei-me levar pelos pensamentos e lembrei da pergunta do Nelson. Então me pus a pensar nesse assunto.

Estou imaginando que o Projeto Coração Valente deve ter um novo começo, ou seja, a partir do livro com a história do Thomas. Ela é riquíssima e um livro contendo-a deverá ser grande contribuição à essa comunidade em especial (cardiopatas congênitos, outros doentes e suas doenças escandalosas, seus parentes, amigos, interessados, pessoal de saúde, governo, etc.) e a todas as pessoas que vierem a conhece-la, certamente.

Comecei um pequeno ensaio em 2012, alguns meses antes da cirurgia desnecessária (nos moldes em que e onde foi realizada) e fatídica, a partir do livro escrito pelo “reacionário direitista” Diogo Mainardi sobre seu filho mais novo e a saga deles.

Achei a proposta interessante, afinal o cara é jornalista e escritor de razoável sucesso e poderia me ensinar muitas coisas, desde que não estejamos falando sobre política, embora ele não faça a menor ideia das minhas intenções malignas.

Sem dúvida temos (o Diogo e eu) muito mais coisas em comum, do que nossa mera diferença sobre temas do aion desse cosmos (aion to kosmos). Por enquanto ele está mais para o método de copiar um livro (artificio muito usado por quem não se sente capaz de gerar o próprio, desde que não se esqueça de dar os créditos devidos) e mudar fatos e nomes.

Mas trabalhando um pouco mais, de forma organizada e sem medo de ser feliz, creio ser capaz de extrair algum sumo dali e desenvolver aquilo para algo bem mais completo, quiçá bem melhor. Importante será ter em mente a necessidade dele vir a contribuir decisivamente para com a imensa comunidade de cardiopatas, em particular os congênitos, toda a comunidade dos doentes desse mundo e o público em geral. O fato é: quem não está doente, cuida dos doentes até estar doente também.

Enfim, pretendo dar meu melhor e fazer o projeto andar. Evidentemente, precisarei de apoio em vários sentidos. A medida que forem aparecendo as necessidades divulgaremos e cada um avaliará se e como poderá participar. Em suma, parto para essa etapa contando com você.

Um beijo nas carecas e perucas



Um anjo entre nós
O Anjo

Hoje fui pego pela saudade, pela tristeza e pela dor logo cedo. Talvez, bem antes de acordar. Praticamente não parei de chorar, pois tudo me emocionou, as pessoas, as músicas, cenas de filmes, tudo. O cara no supermercado percebeu algo e me consolou, sem saber de nada. A moça no banco tentou me alegrar, mas ele estava em tudo e em todos.

Talvez tenha começado ontem quando, de repente e sem mais nem menos, o personagem da novela disse: “A dor de perder um filho é insuportável e não passa nunca”. Essa fala acertou meu coração em cheio. Ainda, disse a um amigo da culpa que sinto por não tê-lo protegido mais, por não ter me sacrificado mais e lutado mais para manter os abutres longe dele.

Não sei se sonhei, ou misturei meus pensamentos com um livro lido recentemente, mas me vi voando com um anjo, desses com roupas brancas e asas imensas de uma beleza indescritível. Ali eu sabia com quem estava sem dúvidas. Senti vergonha por ter inventado um personagem anjo parecido comigo sobre quem escrevi muitas vezes, para não falar de mim mesmo. Mas esse anjo era muito diferente, lindo, gentil, forte sem ser rude e muito, mas muito familiar. A primeira frase dele para mim foi: Você é amado! A mesma dita para o cara do livro, da qual senti imensa inveja. Depois, ele disse: Não há culpa, nem arrependimentos e nada a perdoar. Você é amado. Enquanto sobrevoávamos lugares encantadores, inimagináveis e indescritíveis, ele era o anjo, com nome de anjo e tudo de anjo, sem qualquer dúvida.

Durante o dia, me dei conta, aquele ser celestial com quem voei um voo surreal era o Thomas. Meu Deus, ele é e sempre foi um anjo de verdade!

Como diz o texto bíblico, “um anjo esteve entre nós”.

Um anjo esteve entre nós

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Hoje fui pego pela saudade, pela tristeza e pela dor logo cedo. Talvez, bem antes de acordar. Praticamente não parei de chorar, pois tudo me emocionou, as pessoas, as músicas, cenas de filmes, tudo. O cara no supermercado percebeu algo e me consolou, sem saber de nada. A moça no banco tentou me alegrar, mas ele estava em tudo e em todos.

Talvez tenha começado ontem quando, de repente e sem mais nem menos, o personagem da novela disse: “A dor de perder um filho é insuportável e não passa nunca”. Essa fala acertou meu coração em cheio. Ainda, disse a um amigo da culpa que sinto por não tê-lo protegido mais, por não ter me sacrificado mais e lutado mais para manter os abutres longe dele.

Não sei se sonhei, ou misturei meus pensamentos com um livro lido recentemente, mas me vi voando com um anjo, desses com roupas brancas e asas imensas de uma beleza indescritível. Ali eu sabia com quem estava sem dúvidas. Senti vergonha por ter inventado um personagem anjo parecido comigo sobre quem escrevi muitas vezes, para não falar de mim mesmo. Mas esse anjo era muito diferente, lindo, gentil, forte sem ser rude e muito, mas muito familiar. A primeira frase dele para mim foi: Você é amado! A mesma dita para o cara do livro, da qual senti imensa inveja. Depois, ele disse: Não há culpa, nem arrependimentos e nada a perdoar. Você é amado. Enquanto sobrevoávamos lugares encantadores, inimagináveis e indescritíveis, ele era o anjo, com nome de anjo e tudo de anjo, sem qualquer dúvida.

Durante o dia, me dei conta, aquele ser celestial com quem voei um voo surreal era o Thomas. Meu Deus, um anjo entre nós e não nos demos conta!

Como diz o texto bíblico, “um anjo esteve entre nós”.

Capricornio PB

A Âncora para a vida

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Sabe, tenho pensado muito e avaliado os acontecimentos relacionados ao meu filho Thomas e quais as lições a serem aprendidas com tudo isso. Algum tempo antes da cirurgia fatídica, tivemos uma reunião com o Dr. Zé Pedro, no consultório dele lá na Beneficência Portuguesa. Participaram, além de meu filho e do cirurgião, minha esposa Dedé, um médico cujo nome desconheço e eu. Houve ali uma conversa franca entre o Thomas e o Zé Pedro e, entre várias condições impostas, de lado a lado, o Thomas reivindicou a presença em período integral da mãe na UTI durante o período de recuperação, após a cirurgia.

Todos nós ouvimos em alto e bom som o Zé Pedro declarar ao Thomas: “Eu darei uma autorização para sua mãe ficar com você na UTI, enquanto você precisar ficar internado lá”. Saímos dali certos que havíamos lançado a Âncora para a vida de nosso filho, durante os dias seguintes à cirurgia.

Tal promessa nunca se cumpriu, muito menos no momento mais delicado, ou seja, em suas últimas horas de vida.

-“Sério Eben (filho), vá para casa. Tente não se preocupar. Seu pai ainda está conosco. Não vou deixá-lo partir”.

…Ela se aproximou da cama, segurou uma das minhas mãos e começou a massageá-la. Tendo como companhia apenas as máquinas e a enfermeira da noite encarregada de checar minhas reações. Phyllis passou o resto da madrugada segurando minha mão para manter uma conexão tida por ela como vital para eu atravessar tudo aquilo. …

… Me acostumei a contar tanto com minha família: com Holley (esposa) e nossos filhos, minhas três irmãs e, é claro, com meus pais. Para ser franco, nunca teria sido capaz de exercer minha profissão e ver as coisas que vi, sem o sólido suporte de amor e compreensão proporcionados por minha família.

E, por esse motivo, Phyllis ( irmã) depois de consultar Betsy (irmã) pelo celular, decidiu fazer-me uma promessa em nome de toda a família. Sentada ao meu lado, com minha mão flácida e quase sem vida entre as suas, ela me disse: “independentemente dos acontecimentos dali para a frente, sempre haveria alguém segurando a minha mão”.

…-“Não deixaremos você partir, Eben. Você precisa de uma âncora para mantê-lo nesse mundo, onde necessitamos tanto de você. E nós seremos essa âncora – disse ela”

Mal sabia ela como essa âncora seria importante para mim nos dias seguintes. …

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Essas palavras foram ditas pelo neurocirurgião Dr. Eben Alexander III, neurocirurgião norte-americano vítima de uma infecção devastadora pela terrível bactéria KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase). Apesar disso, durante vários dias em coma profundo, ele sobreviveu, vencendo a infecção e voltando para nos fazer importantíssimo relato sobre sua experiência de quase morte. Não deixe de ler o livro dele, sobretudo os cardiopatas congênitos e seus familiares mais próximos em especial. Lá estão as palavras mencionadas acima e muito mais, particularmente as opiniões desse medico e cientista sobre questões espirituais, além da importância da Âncora para a vida nesse período tão difícil dessas pessoas.

Enquanto nossos atuais governantes, bando de panacas irresponsáveis, brincam de fazer revolução bolivariana em nosso país, trazendo médicos cubanos para a catequese vermelha do povo pelo interior da nação, nós precisamos e desejamos lutar, entre tantas necessidades, por hospitais onde as UTIs deixem de ser os atuais “currais” ditatorialmente comandados por enfermeiros desprovidos de coração, e voltem a ser alas formadas por apartamentos individuais com espaço para um acompanhante familiar, ao menos, durante toda a internação e absolutamente desinfetados como determinam os protocolos de assepsia hospitalar.

O doutor Zé Pedro e seus auxiliares, médicos, técnicos e pessoal de enfermagem privaram nosso filho (e sabe-se lá quantos mais) dessa possibilidade, a âncora para a vida, para nós vital, ao não cumprirem a promessa feita ao Thomas e, muito provavelmente, perderam grande chance de contribuir para a recuperação dele. Talvez, decisivamente.

Capricornio PB


Coração Valente
Thomas
Thomas H. V. Mello

Thomas,

…nosso coração valente travou sua ultima batalha na noite de sexta-feira.

Coração valente em todos os sentidos. Teimava em bater quando as circunstancias ordenavam passividade.

Coração valente diante de um mundo desesperançoso e triste – não acordava (como a musica), apenas ajustava seu ritmo para desfrutar sol, pensamento e pessoas.

Coração valente diante do aperto – com originalidade criava seu jeito, seu espaço  sua forma de ser. Coisas de família  jamais seguiu o rebanho. Seu tambor era igualmente descompassado.

Coração valente com uma alma acesa e firme.

Thomas você é o nosso exemplo – superou-nos em muitos quesitos. Mas acima de tudo em fé e ousadia no viver.

RIP nosso coração valente.

Volney Faustini

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Diário de um Pai durante a Cirurgia e UTI – Sétimo Dia

Diário de um pai durante a cirurgia e UTI  (No caso, euzinho mesmo)

Não há uma foto da UTI onde nosso filho faleceu. Creia, era muito ruim.

Informações médicas diretamente da UTI podem ser de três tipos:

Primeiro, elas podem ser otimistas, quando o cara de branco diz: os exames de hoje do seu filho vieram com resultados excelentes.

Segundo, elas pode ser pessimistas, quando a jovem garota de branco começa o relatório com a palavra “Então”.

Terceiro, elas podem ser competentes quando o chefe da equipe está lá na UTI e lhe dá as notícias.

Diário da Cirurgia- Sétimo Dia – Informações na UTI
The Neonatal Intensive Care Unit.
The Neonatal Intensive Care Unit. (Photo credit: Wikipedia)

 

Diário de um pai durante a cirurgia de seu filho:

Informações médicas diretamente da UTI podem ser de três tipos:

Primeiro, elas podem ser otimistas, quando o cara de branco diz: os exames de hoje, do seu filho, vieram com resultados excelentes.

Segundo, elas podem ser pessimistas, quando a jovem garota de branco começa o relatório com a palavra “Então”.

Terceiro, elas podem ser competentes quando o chefe da equipe está lá na UTI e lhe dá as notícias.

O Calo


O calo, o que é? Um probleminha tolo e quase todo mundo resolve isso fácil, com um simples calista ou pedicuro.

 

Nos meus tempos de Missão Portas Abertas, quando eu ainda era suficientemente idiota para trabalhar numa organização daquelas, o Dr. Dale Kietzman, meu mentor na arte do Desenvolvimento (Marketing e Propaganda evangélica) cansado de nos ensinar e cobrar alguma organização em nosso trabalho, sobretudo a nossa compulsiva tendência a burocratizar tudo, com aqueles infernais papeis para tudo, bem a gosto do Jacob que adorava assinar aquela porcariada toda com seu garrancho enorme e bisonho, mandou uma equipe do CRM (Cristhian Resource Management) vir ao Brasil e nos ensinar alguma coisa de administração.

Animado com a coisa, tratei de organizar um seminário abrindo à participação de outras organizações congêneres, loquei o Rancho Silvestre em Embu (Um dos palcos onde a Seleção Brasileira de Futebol costumava se concentrar e treinar) e preparei tudo como manda o figurino, bem a gosto do Dale.

Os dois gringos (Ed Netland e Jim Smooke), devidamente interpretados pelo Ruben Seidl e Volney Faustini, ensinaram muito bem, embora suspeito que ninguém ali tenha aplicado qualquer um dos ensinamentos em suas organizações. Talvez o pessoal da Igreja Filadélfia de Minas Gerais, que eram holandeses, o tenham feito, mas nunca ficamos sabendo de nada.

Entre outras coisas, os dois gringos nos contaram a história de um hospital militar, da marinha norte americana, se não me engano. O objetivo disso era ilustrar o tópico eficiência X eficácia. Segundo eles, um soldado foi ao hospital com um corte relativamente profundo em um dos dedos de sua mão esquerda. Na porta do hospital havia uma placa com os dizeres: Passe pela porta, siga em frente até o final do corredor e leia a placa ali afixada. Quando chegou no final daquele corredor, leu a placa: dobre à esquerda e siga esse corredor até o final. Lá, leia a placa ali afixada. Fez isso e leu a placa indicada: dobre a direita e siga até o fim desse corredor. Leia a placa ali afixada. Com dedo latejando, cumpriu a ordem, bom soldado que era e leu mais uma placa: Saia por essa porta na sua frente e nunca mais volte aqui. Ele saiu, indo para do lado de fora do prédio. Embora seu dedo estivesse doendo pacas, ficou perplexo com toda aquela organização.

Sem dúvida o “hospital” da marinha norte-americana era muito eficiente, pois seguindo as placas o soldado não se perdeu nenhuma vez naquele prédio, mas nada eficaz, pois seu dedo continuava do mesmo jeito, ou melhor, doendo ainda mais.

Acho que esse exemplo introduz bem o que meu filho viveu nos últimos três dias. O Thomas chegou ao Hospital da Beneficência Portuguesa, no dia 17,  com toda a cardiopatia congênita dele, as pernas bastante castigadas (inchadas, com hematomas, etc.) e um calo sob o dedo de pé esquerdo que lhe impede de andar normalmente.

Os caras não fizeram nada pela cardiopatia, até pioraram um pouco, muito menos pelas pernas e conseguiram a proeza de ser o quarto hospital grande (maior da América latina, etc) a não ser capaz de remover um calo, sim um simples calo e ainda vir com a conversa que não adiantaria pois ele voltaria. Melhor então ele continuar andando em cadeira de rodas. Nesse caso, não foram eficientes, pois a desorientação lá é patente, nos vários níveis; e não foram eficazes, tampouco.

 

Um coração autenticamente corinthiano


No próximo dia 17, meu filho Thomas será internado no Hospital Beneficência Portuguesa onde, sob coordenação da equipe de cardiologia do Dr. José Pedro da Silva, iniciará os preparativos com vistas à mais uma cirurgia (a terceira). Estamos muito esperançosos e confiantes. O Dr. José Pedro avalia que o Thomas deverá melhorar muito com essa cirurgia.

Quando meu filho nasceu e descobrimos que ele tinha uma má formação congênita no aparelho circulatório, envolvendo coração e os principais vasos sanguíneos, fiquei chocado. A médica pediatra responsável pelo berçário, naquele dia, me explicou que ele tinha algo no coração e que seria necessário transferi-lo para avaliação de uma equipe de cardiologia especializada. O médico obstetra que fez o parto foi o Dr. Paulo Pereira de Andrade e ele, pessoalmente, fez os arranjos junto à equipe do Dr. Antônio Carlos Carvalho, no então Hospital São Paulo, para interna-lo lá.

Depois da avaliação, com direito a reunião da equipe toda, resolveram interna-lo na UTI pediátrica para observação. O Dr. Carvalho me informou, após ecocardiograma, que ele tinha uma cardiopatia complexa, ou seja, uma dupla via de saída no ventrículo direito, estenose na pulmonar, CIV e PCA. O sintoma mais evidente era uma cianose intensa. Portanto, seria necessário fazer uma cirurgia paliativa para uma posterior correção. Depois de cinco dias, resolveram dar alta da UTI e do hospital. Ele tinha os sinais vitais bons, mamava bem e não tinha porque permanecer internado. Nós o levamos para casa após o almoço e na hora do jantar estávamos de volta ao hospital, assustados, sem saber se ele estava bem ou não. Estava bem e voltamos para casa com ele.

Demorou um pouco para nos acostumarmos com ele. A rigor, o Thomas nunca teve nada que assustasse, fora os procedimentos cirúrgicos e exames próprios ao problema dele. Recentemente ele teve uma descompensação causada por um inicio de anemia somada a uma desidratação inoportuna e febre alta, o que nos levou ao Hospital da Unimed em Sorocaba. O pessoal da emergência reequilibrou-o e voltamos todos para casa no mesmo dia. Foi só.

As duas cirurgias anteriores foram paliativas, na verdade. Nas cardiopatias congênitas as cirurgias possíveis estão divididas em dois grupos, as corretivas e as paliativas. Cabe aos cirurgiões optar pela mais indicada a cada tipo de cardiopatia, considerando um monte de fatores importantes. A primeira cirurgia do Thomas foi aos oito meses, em 1989 (Blalock). A segunda aos oito anos, em 1996 ( O plano era uma Fontan, mas ficou em uma cavo-pulmonar). Após essas duas cirurgias houve considerável melhora da cianose, mas aos poucos ela voltou, nas duas vezes. Outros sintomas deixam claro a necessidade de um novo procedimento, sem falar no fato de que o conhecimento e o tratamento das cardiopatias congênitas cresceu muito, nos últimos anos e o Dr. José Pedro da Silva tem se destacado muito nesse meio.

Agora o plano agora é uma correção, aproveitando parte do que já está feito e introduzindo Rastelli e mais alguma coisa. Não sei muito mais do que isso, obvio. Com essa intervenção, o ventrículo direito deverá ter funcionamento pleno, com a veia cava inferior voltando ao seu lugar de origem, ou algo parecido. Claro que o cirurgião terá uma ideia completa quando estiver olhando o coração ao vivo e em cores. Isso pode fazer toda a diferença. Ele pretende encontrar o foco exato da cianose para eliminá-la, se possível. O mais importante é que o coração do Thomas continue sendo corinthiano.

Após a cirurgia, haverá um período de UTI, ocasião em que o corpo com todos seus órgãos, sobretudo os mais importantes, precisarão se adaptar à nova circulação decorrente da cirurgia. Quando os ganhos forem considerados satisfatórios, com a retirada dos instrumentos de medição e controle, ele deverá passar algum tempo na enfermaria, antes de voltar para casa.

A companheira mais frequente de nosso filho durante esse tempo deverá ser a Dedé, que além de mãe é uma grande amiga, enquanto eu procurarei ficar o mais perto que puder. Mas o meio de campo entre eles no hospital e a nossa casa em Sorocaba, ficará por minha conta.

Somos cristãos, tementes a Deus, e coloco tudo nas mãos dele, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele estará presente em todas essas fases através de seu espírito e controlará tudo e todos. Estou certo disso. Somos todos humanos e como tal reagiremos, como sempre. A melhor ajuda e apoio que as pessoas, amigos, irmãos, parentes, companheiros das redes sociais, etc., poderão nos dar será através de suas orações. Infelizmente, não podemos incentivar as pessoas a visita-lo no hospital. Sob todos os pontos de vista, isso não será a melhor coisa a fazer.

Desde já, agradeço o interesse de todos, em especial a tudo que vocês têm feito para nos ajudar a enfrentar essa nossa realidade. Quero deixar aqui um beijo grande na careca de cada um e na peruca de cada uma (original ou postiça). Conforme as coisas forem acontecendo, tentarei manter esse site atualizado, enquanto estivermos atravessando a rebentação dessas ondas.

Deus a (o) abençoe abundantemente


Lou Mello

 

OPs: Publicado originalmente no site do Projeto Coração Valente

 

 

A Doação e o Mussum com seu paradoxis
Mussum
Mussum

Gosto do Mussum por ele ter sido um dos poucos caras que conseguia fazer cara de paradoxis como ninguém.

Inseri essa foto em um texto do Paulo Brabo que clonei e postei aqui, já que não tinha foto nenhuma no original, mas acho que o Brabo não gostou muito. Sabe, ele me elegeu seu maior citador, e agora pode estar fazendo de tudo para não correr o risco de eu devolver-lhe a comenda. O fato é que ele sumiu e não sei se foi por causa da foto do Mussum no texto dele ou por causa do negócio das citações. Nem sei por que o citei tanto. Ele é bom, mas também não é para tanto. Imagine, ele é amigo do Gondim e do Ed, pode? Na última vez que me escreveu disse que eu não deveria me iludir imaginando que fosse capaz de lhe dar algum motivo para ele se ausentar. Coitado, ele nem sabe de quanto posso ser malvado, enfim foi nobre da parte dele me aliviar a consciência. Bom, pelo sim ou pelo não, tirei a foto do Mussum lá do texto dele, trocando-a por uma caricatura criada por ele mesmo, dele próprio. E como gosto mais do Mussum do que dele, usarei a minha foto predileta nesse texto, que há de ser muito melhor do que aquele. Mesmo assim se você for masoquista e quiser sofrer vendo o textinho dele, clique aqui.

Mas a intenção é bem outra agora. O Pr. Estevam Hernandes foi o segundo principal doador da campanha que fizemos por ocasião da segunda cirurgia sofrida por meu filho Thomas, em 1996. A cirurgia realizada no Hospital São Paulo foi planejada para ser paga por um mix, uma parte pelo governo, outra parte por mim e o que faltasse pelos amigos e parentes. Do total, descontados a parte do governo e a minha, faltavam quinze mil reais, justamente os honorários dos médicos que não faziam parte do convênio entre o hospital e o governo, mas eram os caras que sabiam fazer a cirurgia, imprescindíveis, portanto.

Ed, Gondim, Ariovaldo, Silas Malafaia, Ari Velloso. Valter Brunelli, Russell Shedd, Carlos Alberto Bezerra, Waltinho da Lapa, Nivaldo Nassif, Paulo Moreira, Carlos Lachler, Nelson Bomilcar, Ivailton dos Santos, Edir Macedo, Guilherme Kerr, R. R. Soares, Caio Fábio D’Araujo Fº, Jung Mo Sung, Jonathan dos Santos (pai), Eliezer Soares, Domingos Gióia, Leonardo Boff, Rubem Alves, Jaime Kemp e mais uma pá enorme de pastores e religiosos, alguns que foram meus alunos ou professores, até mesmo meus pastores, outros que nunca vi mais gordos, ou que não fazem a menor ideia de quem sou e muito menos de que tenho um filho que nasceu com uma baita cardiopatia e até uns e outros que beberam comigo nos botequins da vida, nenhum deles, veja bem, nenhum deles me ajudou com um réis furado naquela hora em que precisei. Além do Tio Cássio que me levou à frente da igreja para dar o testemunho do fato, levantar uma oferta ali mesmo e receber mais uma boa quantidade de doações e depois me repassá-las, o único pastor que fez uma doação para ajudar a pagar a cirurgia do meu filho foi ele, ninguém menos que, Estevam Hernandes. Ele era mais meu amigo que os outros? Não. Conhecia-me mais do que os outros? Não, pelo menos da maioria. A única coisa que ele fez a mais foi mandar alguém da igreja ir ao banco e depositar quinze reais na minha conta. Claro que ele tinha grana para pagar a conta toda. Sim, quinze porque decidimos que levantaríamos mil doações de quinze reais e ele fez a dele. Fez mais, apelou através do programa de rádio que ele tinha. Assim ele poderia dividir a benção com milhares de pessoas.

Naquela época, recebemos pouco mais de três mil reais em doações. A maior parte doada pelo pessoal do Tio Cássio, mais a doação do Pr. Estevam Hernandes, não esqueça. Claro que do meu ponto de vista e do ponto de vista divino, as melhores doações depositadas na minha conta naquela ocasião foram as das viúvas pobres. Deus tem essa coisa meio mórbida, meio favela de gostar de sofredores, você sabe. Certamente foram elas que doaram mais. Você deve estar se perguntando sobre os outros doze mil que não vieram. Não vieram na minha e na sua opinião, mas quando fui aos diretores do hospital e contei a verdade, eles decidiram pagar essa diferença por mim.

Depois daquilo, mesmo que chova canivete, que o cara tenha o corpo todo forrado de pulseiras com chip devido a algum crime, ou mesmo que o coloquem na cadeia de novo, ele terá o meu respeito forevis. Vale lembrar que nesse momento o filho dele está preso à uma cama de hospital, desenganado pelos homens.

Creio que o paradoxo ficou claro, ou paradoxis como diria nosso saudoso e querido Mussum, apesar dos més que ele tomou, e tomou demais lhe ceifando a vida precocemente, não sem antes acabar com o fígado dele, embora na versão oficial e verdadeira, ele tenha falecido após uma tentativa mal sucedida de transplante de coração.

Quem me conhece já matou a charada ou decifrou o enigma, nessa altura. Meu filho está próximo de passar pela terceira cirurgia do coração, em apenas 24 anos de vida. As duas primeiras foram ótimas e o trouxeram até aqui, embora ele tenha vivido a maior parte do tempo como se estivesse em uma bolha. Pouco saiu de casa, após os doze anos, e seu mundo passou a ser visto pela janela da Internet, então. Agora as perspectivas são muito boas. A ciência relacionada às cardiopatias congênitas progrediu muito, inclusive no Brasil e há uma técnica cirúrgica que surgiu após a segunda que poderá melhorá-lo muito, para uma vida normal, mesmo.

Mas dessa vez não pretendo fazer nenhuma campanha. Tecnicamente estou em condições menos pródigas do que da vez anterior, digamos assim, mas tenho a experiência daquela época. Em resumo, o Deus de todos nós não faltou-nos. Supriu, fez milagres e foi o mesmo grande Pai de sempre. De mais a mais, o Thomas não quer que eu faça qualquer solicitação de ajuda, talvez nem me queira muito por lá. Foi-se o tempo em que eu parecia com o Super Man, para ele. Agora ele me conhece melhor. Mas ele é meu filho, eu o amo e faço ou não faço o que ele quiser. Entretanto, se alguém ainda assim o desejar, os caminhos são os mesmos de sempre e já fica com nosso humilde muito obrigado.

Sei bem com quem não posso contar. Não se arvore imaginando que todos esses nomes aí acima não são dignos, isso poderá ser um erro enorme. Deve haver alguém aí que quase se equipare ao Estevam (e ao Tio Cássio), mesmo com as minhas monumentais desconfianças. Ele não é nenhuma Brastemp, todo mundo sabe. Tem lá seu lado picareta, como eu tenho e a maioria tem. Como diria meu pai, Jesus só existiu um. Mas ele conseguiu ser mais de alguma forma do que quase todos na outra cirurgia do Tho. Certamente Deus deve avaliar por outros critérios, imagino que orações tenham o maior peso, depois a preocupação com o Thomas, com o que ele terá de passar, com a mãe dele, os irmãos e até com pai dele e suas lutas normais, além do filho naquele hospital. Alguns lembrarão até dos outros parentes, como as avós, tias, primas e primos, etc. Quem sabe até de alguns amigos que certamente irão sofrer enquanto não o verem novo em folha. Mas o desprendimento do Estevam deve ter valido algo, também, estou certo.

Enfim, a vida é mesmo cheia de paradoxis, mas sempre podemos tomar um mé e abreviarmos o sofrimento, ou segurar na mão de Deus e ser capaz de agradecer e aprender com ele, com o sofrimento e com Deus.

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A Unimed Sorocaba nos deixou na mão, nesse caso.


No final das contas, ou frigir dos ovos, como diria meu pai, a Unimed Sorocaba tirou o corpo fora da consulta do Thomas com o Dr. José Pedro da Silva. A consulta será no consultório particular dele, dia 21 de junho, e foi sugerida pela esposa dele, Dra. Luciana Fonseca, também cirurgiã em cardiopatias congênitas na Beneficência Portuguesa. A consulta particular tornou-se necessária para encurtar o tempo, pois quando você tem um cardiopata congênito, com uma cardiopatia ultra complexa como a de nosso filho, qualquer segundo é extremamente importante. Se fossemos pelas vias normais a equipe do Hospital, talvez, fizesse o caso chegar ao Dr. J. Pedro, ou não, pois ele não é o único cirurgião lá, imagino. Fora o tempo que poderia demorar em chegarmos a tanto, se não me engano.

A Unimed Sorocaba, através da funcionária responsável, me comunicou, esta manhã, que reembolsarão as despesas de viagem, não segundo o valor a ser gasto, mas conforme o que eles estabelecem para esses casos, ou seja, cobrirão passagens de ônibus para o segurado e um acompanhante, somente. O crédito deverá ser feito em até trinta dias a contar da data da consulta. Creio que todos nós devemos ter em mente o seguinte: Planos de Saúde são negócios com fins lucrativos e, evidentemente, não têm coração, muito menos quando o seu problema é o coração, desculpe a redundância. Nesses casos, também conta o mito “gastar o mínimo possível para lucrar mais”. Acho que o Steve Jobs nunca teve um pensamento desses passando pela mente dele.

Enfim, resta dizer, com uma ponta de esperança de que chegue aos ouvidos de alguém dessa empresa cheia de ganância, o fato de termos consciência das regras determinadas pela ANS (Agência Nacional de Saúde) que regula esses “planos”. Entre elas, há uma rezando que, nesses casos, o plano deverá liberar o pagamento da consulta, inclusive em consultório particular, em caráter imediato, independente de carências ou outras restrições impostas pelo plano. Não sei se exercerei esse direito de alguma forma. Estou cansado, nesses vinte e quatro anos temos brigado muito com planos de saúde, hospitais, médicos, enfermeiras e seguranças de hospitais e clínicas. Evidentemente, há muitas pessoas que merecem nosso maior respeito e admiração, mais a nossa gratidão eterna.

Resta informar a existência de algumas pessoas com desejo de nos apoiar e, geralmente, preferem fazê-lo anonimamente. Por isso preciso divulgar, como puder, o custo das providências necessárias ao tratamento de nosso filho. Isso possibilita a essas pessoas contribuir democrática, voluntaria e anonimamente. Elas clicam no Anjinho Azul, aí do lado direito, entram no site do Projeto Coração Valente, clicam no botão “Contribuir” e contribuem com quanto desejarem. O custo dessa empreitada deverá ser de R$ 700,00 com a consulta mais despesas.

Nosso plano é ir com nosso carro, que é bem econômico, Thomas, Dedé e eu (o motorista). Daqui a São Paulo, ida e volta, passaremos por cinco pedágios. Diferente do que se propõe a Unimed de Sorocaba, claro. Nós já recebemos uma primeira contribuição no valor de cerca de 1/3 do necessário. Na maioria das vezes nós não recebemos contribuições capazes de cobrir o valor total necessário, mas já aconteceu, como em 2007, quando o Thomas passou por uma grande avaliação protagonizada pelo pessoal do INCOR. Nesses casos, as sobras ficam no caixa do Projeto e são utilizadas para cobrir as despesas normais do projeto. Como pai, mesmo com minhas impotências financeiras, trato de fazer das tripas coração e levar adiante o que for preciso, independente das contribuições. Algumas vezes consigo outras não. Há tanto a fazer e não tenho conseguido boa parte disso. Somos muito agraciados por Deus e seus caprichos milagrosos, com ou sem nossas preocupações e tudo isso deve estar sob o controle dele, creio.

Estamos cientes que a consulta gerara outros desdobramentos. Alguns deverão ser cobertos pelo plano de saúde e outros, eles se esquivarão, devendo ficar por nossa conta. Quanto a isso, continuarei a divulgar conforme for acontecendo, em que pese o ônus embutido nessa decisão.

Desde já agradeço de todo o meu coração, e sei que falo também pelo Thomas e toda a família, por todas as ações em favor de nosso filho, não só as contribuições, sobretudo as orações, preocupações, interesse e a torcida dos nossos amigos.

Um beijo a todos, nas carecas e perucas.

Lou Mello


A Unimed de Sorocaba à beira de descumprir normas da ANS


A dois dias da consulta marcada com o Chefe de equipe da cirurgia cardíaca no Hospital Beneficência Portuguesa, São Paulo – desde 1984, pioneiro em várias técnicas inovadoras em cirurgias de cardiopatias congênitas, o plano de saúde de meu filho (Unimed de Sorocaba) sequer encaminhou internamente a solicitação da consulta. Segundo me informou a funcionária responsável pelo trâmite, em uma primeira fase haveria uma avaliação de um conselho não sei de que. Este, por sua vez, solicita a avaliação de um médico responsável por essa área e depois ela nem sabe o que viria a acontecer. Talvez, poucos cheguem a tanto.

Os casos de cardiopatias congênitas são sempre urgentes. Nós não dispomos de tempo para decidir, quando muito temos poucos dias para fazê-lo, independente da idade do paciente. O que determina a urgência é a complexidade do caso.

A médica credenciada por esse plano de saúde que acompanha o caso do Thomas é, seguramente, a maior autoridade em cardiopatias congênitas em Sorocaba. Ela enviou E-mail com histórico do caso dele mais a solicitação da consulta no dia 29 de maio. Hoje, passados 14 dias a pessoa responsável em dar andamento ao processo interno na Unimed informou não ter lido o E-mail, sequer, embora o tenha recebido.

A ANS (Agência Nacional de Saúde) determina que em casos de urgência a providência deverá ser “imediata” quando há necessidade de atendimento fora do município, com cobertura, inclusive, para as despesas de viagem. O não cumprimento implica em multa de R$ 80.000,00. O que ficaria mais barato, pagar a consulta ou a multa?

A Unimed de Sorocaba ter convênio com os Hospitais Dante Pazanesse e Beneficência Portuguesa, seguramente, não é uma casualidade. A empresa sabe de sobejo quais os casos precisam de atendimento nesses centros especializados, já que na cidade eles inexistem, quando o assunto é cardiopatia congênita. Eu tenho batalhado por isso desde que cheguei à cidade, sem qualquer sucesso. O nosso atual prefeito é médico, sabe do problema, mas não move um dedo em favor de nossa causa. Os políticos fazem jogo de empurra com os casos mais caros para economizar verbas que eles dão outros destinos. Cuidar de cardiopatas congênitos custa caro, sem dúvida. O fato é que não há nenhum cirurgião dessa especialidade por aqui, mesmo porque a cidade não dispõe de nenhum centro cirúrgico para cirurgias desse porte. Essa situação se repete às dezenas por todo o país.

Pior ainda, para os que não têm nenhum recurso próprio e ficam a mercê do famoso SUS e seus credenciados. Enfim, não é uma questão de partido político, mas de vergonha na cara mesmo, e de todos.

Pô, Unimed de Sorocaba, é só uma consulta (R$ 600,00). Embora o plano do Thomas lhe dê direito a cirurgia, não estamos nessa fase. Sem essa consulta, não há como pensar nisso, ainda. De mais a mais, se for o caso de uma cirurgia (e imaginamos que seja) isso poderá ser organizado em conjunto com o SUS, via Beneficência Portuguesa, se não me engano. Sobraria para o plano a parte mais barata, ou seja, a hospitalização.

Mas precisa ficar claro, essa consulta só pode ser com o Dr. José Pedro da Silva por razões de competência. Caso meu filho não seja contemplado com o cumprimento das obrigações por parte da Unimed Sorocaba, não deixaremos de comparecer à consulta e o faremos às nossas expensas, apesar de todas as dificuldades que temos enfrentado nos últimos anos. Queira Deus que essas pessoas nunca precisem passar pelas experiências que nosso filho e toda a nossa família tem passado por causa da doença e de gente com tamanha insensibilidade.

Caso a Unimed Sorocaba venha a honrar seus compromissos com o Thomas, voltarei aqui para informar.

Por enquanto, peço a todos que repliquem e compartilhem esses acontecimentos, por todos os meios possíveis e agradeço desde já.

Deus os abençoe abundantemente.

Lou Mello

Ps : O Projeto Coração Valente não dispõe desse valor em caixa, no momento.

Atenção: Às 17:30 hs do dia 13 de junho de 2012 recebi um telefonema de D. Marinalva, assistente social da Unimed Sorocaba que me comunicou a liberação de uma consulta para meu filho Thomas Henrique com o Dr. José Pedro da Silva, titular em cirurgias para cardiopatas congênitos do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, através da parceria existente entre a Unimed Sorocaba e o o médico em questão. Essa parceria não faz parte do convênio a que meu filho tem direito, nem o médico é credenciado da Unimed Sorocaba. A consulta inicial estava marcada para o dia 14 de junho e precisou ser adiada para o dia 21, um mal muito menor do que não ter a consulta. O Thomas e toda a família estão gratos por tudo ter dado certo e mais essa etapa vencida.

No dia seguinte, 14/6 a situação voltou a ficar indefinida quando fui informado pela equipe do consultório do Dr. José Pedro que a guia fornecida pela Unimed-Projeto Coração não será aceita. Até o momento (domingo – 17/6 às 17:52) não houve nenhuma  nova notícia por parte da Unimed, que ficou de me dar alguma orientação, depois de ser comunicada. De qualquer forma, pretendo levar o Thomas à consulta no dia 21, mesmo que seja através de pagamento particular. Creio que seja imprescindivel para ele.

Maliciosos e maldosos
Maliciosos
Maliciosos

Os seminários e cursos sobre administração da vida, seja a pessoal, a familiar, a financeira, etc., costumam ser muito interessantes. Eu mesmo já coordenei (facilitei, ministrei) vários deles. A grande verdade, se me permitem, é que, em muitos desses momentos, me pego perplexo e não encontro nada melhor do que rir de mim mesmo. O Pior é constatar quanto esses ensinamentos se encaixam nas vidas das pessoas, enquanto para mim, chegam a não fazer sentido algum.

Evidentemente sou o grande culpado, fique tranquilo e não perca seu tempo querendo me convencer de mais algum novo tipo de culpa. Talvez seja essa a razão (ainda não solucionada) do meu horror a psicólogos e pastores (teólogos). Essa gente dorme e acorda sonhando em criar algum tipo novo de culpa. Um depende do outro como a praga da planta e o difícil é identificar quem é quem, aí.

Imagino o quanto todos devam estar cansados e até resistentes a minha enfadonha lenga, lenga sobre meu filho. Na verdade, ninguém deve estar mais cheio do que eu, ou talvez ele mesmo seja o grande campeão nessa disputa. Em verdade vos digo que de tudo o que ele necessita, só para sentir-se um pouco melhor, não sou capaz de suprir nem um décimo disso. Em grande parte das vezes a coisa requer dinheiro, mas nem sempre.

No caso da grana, em nossa causa, pode ter havido alguma confusão no céu durante a escolha da família ideal para cuidar desse caso. Todos nós sabemos que a condição sócio econômica das vítimas não é a única e talvez nem a mais determinante dentro dos critérios celestiais. Mas estou sempre tão distante do necessário para ajuda-lo que chego a sentir ódio de ter nascido, de existir, de ser tão incompetente, bla, bla, bla. Sabe, fico com um horroroso pensamento de que Deus poderia esperar muito mais de mim do que eu mesmo e, nesse caso, por ter me dotado de recursos espirituais, cognitivos, uerevis, talvez. Tudo isso coroe a minha alma e até duvido ser portador de uma igual a dos outros.

Ontem estive na loja da Empresa que fornece energia elétrica para a minha casa. Tenho um probleminha razoável com eles. Consta lá que mantemos uma UTI domiciliar. Talvez isso possa ser um exagero, mas temos de fato um aparelho concentrador de oxigênio com respirador e o torpedo emergencial que fica ligado boa parte do tempo e depois o consumo normal de uma casa que abriga quatro ou cinco pessoas mais uma cadela e uma calopsita. Por alguma razão desconhecida, só há uma instalação elétrica na casa e as coisas estão misturadas. O fato é que qualquer acontecimento fora da rotina em uma casa está sujeita a alterar os consumos normais no local, e como altera, não só a luz, mas todo o resto. Bom, eles não me ajudaram muito, para não dizer nada. Se quiser ver meu lindo e conhecido nome do rol dos maus pagadores a solução é uma só: pagar. Se eu acertar o acordo todo que já existe, eles se disporão a fazer outro em relação ao restante. Em outras palavras !#$$!$$!@%$%.

Vi uma notícia no G1 e até divulguei no meu site onde me travisto de ajudador de cardiopatas congênitos, alias nem sei para que, sobre um garotinho chamado Daniel, portador de uma síndrome grave que o mantinha na UTI em um hospital há quatro anos. Recentemente fizeram uma campanha para arrecadar o dinheiro para a compra de um aparelho mais o carrinho de transporte da coisa, cujo valor divulgado era de R$ 25.000.00 e conseguiram arrecadar R$ 115.000,00 até agora. Espero que consigam aumentar isso, pois sei muito bem que não será demais. Agora a família poderá comprar uma casa e montar a UTI nela, mas a companhia de luz não abrirá mão da parte que lhe cabe nesse latifúndio.

Meu é tanta coisa, olha só pro cê vê, fora os probleminhas relacionados com a cardiopatia, sangue com parâmetros indisciplinados que insistem em sair de suas raias, se faz hemodiluição ou não, se toma mais antibiótico ou outra porcaria qualquer, risco de tromboses, endocardites, embolias e sei lá o que mais, fora as pernas que não há quem de jeito ou se disponha a tratar com um mínimo de compromisso hipocrático, tem a questão dos dentes. Sabe, é 250 por cada canal para o canalista e há vários, 80 para cada extração para a cirurgiã dentista, num sei quanto para outro fazer a parte de próteses e, certamente, outras surpresinhas. E ninguém se move sem pagamento correspondente. Pergunto-me, onde anda o velho, bom, competente e simples “dentista”? O diabo é que não dou conta. Preciso mandar fazer os óculos, mais de 3 graus de miopia e ainda não consegui. Fora roupas, alimentação especial, farmácia, educação e ainda precisamos dar amor, como se nada houvesse no ar.

Se você pensou, caso tenha sido corajoso e generoso para ler isso até aqui, que meu objetivo seria pedir dinheiro ou qualquer outra coisa, esqueça. Eu me viro, fique tranquilo, e sempre tem algum milagre vindo por aí. Volto lá no começo, naquela parte em que começo rir desses cursos e seminários, das pregações dos pastores, da patética participação desses juízes que militam as redes sociais, dentre eles, muitos com passagens pela igreja, me dando conta de quão maliciosos e maldosos somos todos nós.

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A cara de Pilatos


Há uma cena bíblica recorrendo em minha mente, vira e mexe. Vejo Jesus Cristo diante de Pôncio Pilatos cercados de PMs romanos, logo após a escolha do povo presente que optou pela soltura de um vagabundo com passagens policiais por roubo e possível assassinato, graças à uma propaganda urgente e básica dos sacerdotes afim de induzir o voto. Então Pilatos vira para Jesus enquanto, hipocritamente, lava seus dedinhos nojentos, e diz: Bom, eu tentei. Você viu, mas o povo escolheu Barrabas.

O que mais me chama atenção nessa cena mental é a expressão do rosto de Pilatos versus a cara de incredulidade de Jesus. Pilatos não tinha a menor intenção de mover uma palha a favor do filho predileto de Deus. Fez aquilo para matar dois coelhos na mesma cajadada, ou seja, ficar sem dois incômodos sem precisar sujar as mãos (daí a lavagem cínica?), pois Jesus e Barrabas só lhe causavam incômodos. Jesus seria crucificado com aval publico e Barrabas acabaria se enforcando sozinho, provavelmente.

Não sei se impressão minha ou alguma insanidade começa a me assaltar, mas nos últimos tempos, todas as vezes que levo meu filho a algum medico (de cardiologistas a nutrólogos) vejo essa expressão de Pilatos na cara dessa gente, enquanto meu filho e eu ficamos com cara de Cristo. Exceção deve ser feita à Dra. Márcia aqui de Sorocaba e, talvez ao Dr. Carvalho da UNIFESP.

Embora eles não tenham se encontrado para discutir o caso, parece haver certa unanimidade tácita de não fazer mais nada por ele, nem mesmo cuidar dos problemas periféricos, como as pernas, os dentes, sei lá. Acho que os pais de cardiopatas congênitos ainda bem jovens podem usar esse texto como um alerta. Chega um momento que o interesse por eles diminui drasticamente, quase a zero. Até mesmo as pessoas que ajudaram quando a coisa ficou feia ao extremo, como na vez da segunda cirurgia ( a temível Fontan) aparentam muito menos disposição.

Ontem, enquanto meu filho tirava um cochilo, observei-o e pensei novamente: não vou abandoná-lo e, muito menos, deixarei minha motivação diminuir, enquanto puder ou, além disso. Ele nunca verá a cara de Pilatos em mim.

Tudo bem, nem sei o que fazer, daqui por diante. Já peregrinamos por todos os principais hospitais públicos considerados como as maiores referências em cardiopatias congênitas da América do Sul (INCOR, Dante Pazzanese, Beneficência Portuguesa e UNIFESP) e não houve nenhuma proposta aceitável. Só aquelas coisas do tipo, se vocês quiserem a gente opera, com aquela cara de “se não der certo, problema seu”.

Não estamos buscando cirurgias. Esse é o tipo de coisa que só aceitamos quando não há nenhuma outra opção. As cirurgias na área da cardiopatia congênita são todas experimentais. Quando são feitas alterações na estrutura orgânica de uma pessoa, do porte do que é feito ao implantar uma Fontan ou algo assim, as consequências não são todas previsíveis, sobretudo a médio e longo prazo. Meu filho está razoavelmente bem, no aspecto cardiológico, mas as sequelas nos membros inferiores preocupam, inclusive com episódio de trombose já registrado.

A minha suspeita, sinceramente, é que não há ninguém que saiba, com clareza, o que fazer agora. Talvez haja algo no exterior, em países do chamado primeiro mundo. Para o futuro, caso as coisas piorem, as opções serão quais? Transplante, implante de células tronco (ainda não utilizado no Brasil), desfazer a Fontan e tentar outro tipo de cirurgia?

Claro que a ignorância não é pecado. Se os caras não sabem o que fazer, pronto, dá para entender. A única coisa positiva aí é que isso coloca a medicina e seus militantes em seu devido lugar. Somos humanos, apenas, inclusive eles. O que me incomoda, juro, é o desinteresse, esse que foi crescendo conforme meu filho foi ganhando anos (23 agora). Acho que, se eles pudessem me diriam: Pô, o que você quer mais? Seu filho já viveu tudo isso, quando a maioria não chega nem a metade disso. Contente-se.

Sabe, e no meio de tudo isso está o maior interessado, meu filho. Tenho até medo de perguntar o que ele acha de tudo isso. Ainda bem que ele me poupa de discutir esse assunto. Segundo ele, falo um monte de coisas que ele prefere nem ouvir, tentando explicar o problema, minimamente.

Outra coisinha sem a menor importância é que não chegamos a tentar os grandes Hospitais particulares, esses que nossos principais funcionários públicos como o ex-vice-presidente José de Alencar, o ex-presidente Lula e a atual presidente Dilma costumam se tratar. Não o fizemos por motivos óbvios, pois até para manter o tratamento usando os equipamentos públicos, um plano de saúde limitado para as necessidades dele e nossos recursos, fomos obrigados a recorrer à ajuda de parentes e amigos. Uma coisa é certa, quem tem um desafio desses, dificilmente não precisará de apoio e dos bons. Raríssimos são os que possuem recursos para se auto sustentar diante de uma realidade dessas.

Tomara que meu filho continue vendo a expressão de vitória do Cristo ressuscitado em mim e que eu nunca, mas nunca mesmo, esmoreça. Para isso, só mesmo se o Criador continuar me amparando, mais ainda a meu filho e a todos nós por aqui.



A mensagem do sofrimento
A mensagem
A mensagem


Nos últimos três dias, vivi momentos de intensas emoções. Da angústia à euforia, da vergonha ao orgulho, da culpa ao perdão e vai por aí. Talvez isso contrarie uma série de dogmas e teologias, mas isso chegou como as águas da enchente e foi inundando todo o meu ser, devastando as coisas materiais de um lado e deixando o terreno pronto para um extraordinário crescimento e/ou desenvolvimento espiritual.

Interessante é que não perdi nada. Foi só um grande medo de perder. Meu amigo não pode me ajudar dessa vez, mas foi precisamente essa a maior ajuda que ele poderia ter dado. Estranho né, ajudar não ajudando. Na trilha espiritual encontramos cada uma… Mas foi esse ato, e nem sei qual foi a motivação dele, que propiciou uma tremenda avalanche em nossas vidas, nesses dias. Não estou falando só das muitas pessoas que se envolveram, a partir do Facebook, Twitter e outros meios da Internet, orando, propagando e contribuindo, mas de uma mudança drástica no meu campo de visão.

Tempos atrás, houve uma campanha parecida, envolvendo mais os amigos blogueiros com vários destaques, especialmente da Georgia, de quem temos saudades, sempre que lembramos daquele evento. Sem dúvida, esse acontecimento já era uma grande mensagem de Deus aos nossos corações e, talvez, não tenhamos entendido bem. No caso desses últimos dias, esse torpedo divino causou muito mais impacto, ainda, e ficou tudo bem claro, se não me engano.

Tenho falado de nosso plano de voltar a viver em São Paulo, a família toda ansiosa para ver a implementação disso logo, mas parece que a coisa vinha se arrastando, meio encantada, meio calabresa. O pessoal até faz piadas pelos cantos, com essa história. Pensam que não sei? Mas agora não tenho mais duvidas e eram elas que estavam nos segurando. Confesso que meu plano real era algo assim: arrumar tudo primeiro e depois me dedicar ao Projeto Coração Valente. Essa tese me atrasou uns vinte e tantos anos. Não, não era nada disso. “Buscai primeiro o Reino de Deus e as outras coisas lhes serão acrescentadas”. Era tão obvio, mas a Anta aqui, não entendia ou não queria entender.

Um projeto como esse não é coisa para uma andorinha solitária. Ele depende de nossa capacidade de envolver o maior número possível de participantes alados. Engraçado é que não há nada para o que eu esteja mais capacitado. Disse no post de ontem que o Torpedo de Deus tinha uma mensagem assim: “You are a fundraiser!” Escrito em inglês porque o Divino prefere se expressar na língua do Tio Sam. Ponto para o C. S. Lewis, de novo. Mas veja:

  • Engana-se quem pensa a tolice: Fundraiser = Captador de Recursos. Nada mais equivocado, um Fundraiser é, acima de tudo, um aglutinador de pessoas. Se você não tiver pessoas, jamais receberá contribuições, pois elas provém das pessoas. Foi isso que aconteceu nos últimos dias conosco, embora tenha sido só uma ínfima amostra do que está por vir. Embora tenha sido tremendo para nossa família e quem está participando.

Alias, o Projeto Coração Valente, em minha opinião, deverá se ater prioritariamente a isso, e ser parceiro dos outros projetos mais capazes na área das realizações em favor dos Cardiopatas Congênitos (e outras doenças interligadas) como Amigos do Coração (AAC), Inclusão: ampla, geral e irrestrita, Pequenos Corações, Pró Criança Cardiaca, Projeto Coração Criança. A realidade é muito abrangente e chega a ser assustadora. Essas organizações estão fazendo muito, todas além de suas capacidades normais, mas há muito mais a ser feito. Além de nossas terríveis necessidades domésticas, imagino nossa participação em favor dos cardiopatas congênitos da África e Haiti, para começar. Só para se ter uma pequena ideia do tamanho da encrenca, o Brasil, esse país com cara e corpo de continente, fazendo parte do grupo das maiores economias do planeta e com perspectivas de grandes avanços, não tem nenhum hospital dedicado aos cardiopatas congênitos, embora haja um contingente de milhões de casos a espera de atendimento minimamente eficaz. Falar em pesquisas, maior eficácia nos procedimentos, pessoal melhor treinado, atendimento humanizado, etc., é quase uma imprudência, quando se tem tão pouco.

Agora, para nós, somar capacidades em nossos intentos deverá ser prioritário. Cair na tentação de querer fazer as coisas sozinhos será o maior dos enganos. As primeiras providências precisarão incluir contatos visando somar gente da pesada, com a capacidade de ganhar pessoas à nossa causa.

Então, São Paulo aí vamos nós. Por que São Paulo? Peço desculpas a todas as demais cidades do nosso país, que abrigam esse povo sofrido e tão mal tratado, mas não tenho muito mais tempo para implementar o Projeto Coração Valente, finalmente e precisarei encurtar todos os caminhos. Além de ser nossa cidade natal, São Paulo tem muito mais recursos para nos ajudar nessa empreitada. Não tenham dúvidas, de lá olharemos com igual carinho a todos os cardiopatas congênitos do país e dos outros continentes onde Deus nos levar.

Será que esse plano faz sentido? O que você acha?

Espero que você esteja conosco, começando agora nesse empenho em solver essas nossas necessidades familiares e, a partir daí, envolver-se como puder do Projeto Coração Valente. Ajude-me a não deixar esse projeto cair no esquecimento. Faça inserções regulares no Facebook, Twitter, Orkut, etc. e persista, hoje e sempre, por favor. Posso contar com você? Fique com nossa gratidão.

Um beijo nas vossas carecas e perucas

Lou Mello

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A velha “Carta a um amigo”

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Tendo esgotado todas as possibilidades que qualquer um esgotaria, sempre com muitas orações, cheguei à fase do desespero, quando você se despoja de qualquer resquício de dignidade, autoestima e respeito próprio e parte para a tudo, sem se importar com humilhações, desprezos e quaisquer coisas menores. Ontem, véspera do dia D (que é hoje) enviei essa mensagem a um amigo, por E.mail. Ele tem sido o nosso mais fiel ajudador em nossas desventuras nos últimos anos. Claro, nem sempre ele está disponível e procuro não incomodá-lo, a não ser quando tudo mais falha.

 

Caro amigo

Você me ligou ontem e não consegui perceber o que você tinha em mente. Talvez tenha lembrado do meu aniversário, dia 8, embora eu saiba que você não costuma dar tanta importância para essas coisas. Aliás, eu também não ligo muito.

Bom, há certas horas que precisamos falar o que está em nosso pensamento e/ou no coração, pois não há outro jeito de comunicarmo-nos  melhor.

Como você sabe, há dois anos nós adquirimos um automóvel. Foi uma ação contra tudo e contra todos, primeiro por que não tínhamos a menor chance de obter qualquer financiamento pelas vias normais, naquele momento. Precisávamos muito de um carro pois é quase impossível tratar nosso filho adequadamente ou com mais chances em favor da vida dele sem isso. Acreditávamos, naquele momento, estar sendo movidos por Deus e cheios de fé entramos na concessionária Ford e saímos de lá devidamente motorizados e recebemos aquilo como um milagre. Isso se deu porque, acima de tudo, esse carro viria a nos ajudar decisivamente na manutenção do tratamento de nosso filho, tenho certeza. Claro que o usamos para todas as nossas necessidades e, também, para meu trabalho.

A maior parte das vezes consegui pagar as prestações com o fruto do meu próprio trabalho, outras (umas cinco) minha mãe liberou e você me ajudou uma vez, com parte do valor necessário, se bem me lembro. Sei que nosso Senhor deve ter disposto o valor de alguma forma, mas não estou conseguindo ver ainda. Quem sabe você, com sua habitual sabedoria, não me dá uma dica.

Claro que um carro ainda é considerado um grande luxo e gente como eu não deveria ter um deles, mesmo que tenha todas as razões do mundo para tanto. Mas você sabe que essa não é bem a filosofia de Deus. Claro que nossas necessidades continuam sendo múltiplas, inclusive em relação ao próprio carro que precisa ser licenciado, abastecido e mantido, mas isso vem depois. Primeiro preciso mantê-lo conosco, acho.

Minha mãe, antes do natal, solicitou que não a procurássemos mais, afinal ela precisa poupar para quando ficar velha (está com 84 anos).

Talvez alguém me ligue  a tempo para um serviço urgente a tempo e valor para fazer os pagamentos ou chegue uma carta da China contendo isso. É sempre assim, então vou deitar e dormir. Amanhã veremos o que há à nossa espera, na área das soluções. Certo?

Bom, era isso, fique com Deus e em paz.

Um abraço


Bom, o tempo está passando e até agora, nada. Quando fiz minha primeira viagem missionária, não tinha um tostão para as passagens e o resto. O pastor levantou uma oferta no culto, um dia antes de vencer o prazo para os pagamentos e só uma pessoa ofertou, mas ofertou o total necessário para aquela missão inteira. Sei que isso pode se repetir, mas é uma pena, porque muitos mais poderiam fazer parte e receberem seus galardões também.

Fique em paz com Deus.

Um beijo

Luiz Henrique Mello
(lou)

 

 

 

Solidariedade generosa

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Amanhã, quarta-feira 11 de janeiro de 2012 será um dia difícil para mim, pois tenho à minha frente uma montanha e será minha tarefa muda-la de lugar.

As pessoas amigas, de longo tempo ou recentes, que têm acompanhado nossa luta não precisarão de maiores explicações, eu sei.

Diz o ditado popular que “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Não sei se há um texto bíblico equivalente ao ditado. Penso que não. Andando pelas madrugadas vi milhares de pessoas passando frio, nas noites úmidas e geladas de São Paulo, com proteção muito aquém do necessário. Quando dirigi a creche da prefeitura, inúmeras foram as manhãs em que recebemos crianças geladas, machucadas, sujas ou com marcas piores, completamente indefesas. Foi o amor generoso das pessoas que mudou essas situações.

A resposta a isso tudo sempre foi a solidariedade generosa. Se tiver algo sobre Deus a compartilhar, é isso: Ele nos quer em amparo mutuo, uns aquecendo os outros, quem tiver mais repartindo com quem tem menos. A esperança divina é que eu e você tiremos nossa blusa extra e a entreguemos a quem tem frio. Na filantropia de Deus, é assim que as coisas devem funcionar.

Em nossa vida familiar, Deus nos deu um desafio e temos aprendido essa verdade. Em meu orgulho e prepotência daria minha vida para jamais ser obrigado a mendigar ajuda de minha mãe e, claro, muito menos de pessoas de fora do circulo familiar. Mas essa opção pode significar a abreviação de uma vida que não quero perder. Qual é a vida que lhe importa mais, além da sua? Então entendi o que Jesus Cristo dizia com aquela frase enigmática: “Melhor coisa é dar do que receber”.

Imensa é a dor de receber. Daria várias vidas para estar na posição de doador benemérito, talvez feito um Bill Gates doando milhões de dólares para as campanhas pró África, para conter a AIDs, para as crianças com câncer ou os cardiopatas congênitos. Mas Deus me escolheu para estar do outro lado, o lado de quem precisa receber a solidariedade e ter a humildade de fazê-lo com gratidão e reconhecimento.

Solicito, aos que me entendem, um gesto especial para me ajudar a superar a barreira deste dia. Vá ao site do Projeto Coração Valente clicando nesse link e faça o que puder, sem se deixar trair por nenhum pensamento contrário, qualquer ajuda será vital. Serão necessários muitos gestos como esse para vencermos, mas não é impossível e acredito com todas as minhas forças no poder existente entre todos nós, quando estamos de mãos dadas ou abraçados com um só pensamento.

Claro, isso não resolverá o problema em definitivo. Será só mais uma batalha vencida, mas valerá a pena derrotar o inimigo, ainda que seja só um pouquinho. Certo?

Essa mensagem deverá calar profundamente em alguns, a ponto de fazê-los sentir grandes arrepios, dores estomacais e/ou lágrimas brotando em profusão. Se esse não for o seu caso, não se perturbe, agradeço a paciência e interesse de ter gasto tempo lendo essa mensagem, mas esse apelo não foi para você. O que as outras pessoas farão a seguir contribuirá para manter uma vida com alguma dignidade, por mínima que seja.

Deus abençoe a todos abundantemente

Um grande beijo

Luiz H. Mello (Lou)

OPS: Para saber mais detalhes leia também Carta a um amigo

Atenção: Esse post, com o apoio de manifestações do pessoal no Facebook e no Twitter, gerou contribuições. Entre os dias 11 e 13 de janeiro de 2012 foi enviado um total de R$ 1.180,05. Os gastos realizados com o pagamento de uma parcela vencida atingiram R$ 835,00, gerando um saldo (já reservado para a outra parcela em atraso) de R$ 195,05. Uma das contribuintes assumiu o desafio de contribuir durante todo o ano. Ainda estamos longe do ideal, que será completar essa etapa e chegar aos outros cardiopatas congênitos com grandes necessidades. Essa amostra serviu para constatarmos que o pessoal é solidário e vale a pena seguir em frente. Só não deixar a peteca cair agora, nem nunca mais.

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Pais também sofrem

Não acordei feliz hoje. Logo percebi que o medo me dominara de novo. Então relacionei todos os meus medos a Deus, em uma tentativa meio desesperada de obter algum alento. Depois resolvi escrever a respeito, mas lembrei desse post e decidi publicá-lo aqui, também. Quem sabe ele tem a capacidade de operar milagres.

Pais sofrem, também.
Pais sofrem, também.

 

Entre outras coisas, creio ser importante manifestar-me na qualidade de pai de um cardiopata congênito. Tenho visto por aí, que quase 100% das vezes, são as mães que aparecem no apoio aos filhos cardiopatas congênitos. Elas fazem mais, além de leva-los às consultas, cuidar deles em casa, fazer curativos, ministrar medicamentos e funcionar como acompanhantes durante internações hospitalares, ou seja, fundam associações em apoio aos cardiopatas congênitos e batalham para o bem geral dessa nação de quase excluídos, que cresce na mesma proporção em que aumenta população mundial.

Imagino que com essa atitude pro ativa das mães, muitos pais acabem distanciando-se de seus filhos C.C., não tanto por falta de interesse, mas por confiarem em suas companheiras. Ao longo dos vinte e três anos que sou pai de um C.C., tenho me esforçado em participar, tanto quanto minha esposa. Quando minha esposa estava hospedada com ele na UTI do hospital onde ele foi operado duas vezes, passava a maior parte do tempo no corredor, do lado de fora da UTI e aproveitava todas as chances para dar uma entrada, sempre que ela saia, por qualquer motivo. Cheguei a ser escorraçado por uma enfermeira mal amada, certa vez. Elas tendem a ser feministas e não gostam da presença de pais, salvo exceções.

Atualmente estou levando-o às consultas e exames. Acho bom prevenir papais e mamães novatas na arte de criar, educar e cuidar de filhos cardiopatas congênitos sobre uma realidade importante. Se a cardiopatia do seu filho (a) for das mais complexas, as cirurgias dificilmente darão vida física plena a eles. Vale lembrar que, há pouco tempo atrás, esses casos não tinham chances de sobrevivência, tão pouco. As cirurgias permitem que eles sobrevivam e isso tem grande valor, mas há um lado duro, nesses casos.

Meu filho nasceu com Dupla Via de Saída no Ventrículo Direito e/ou transposição dos grandes vasos na base, mais estenose na artéria pulmonar, que virou atresia na valva pulmonar. (com o tempo os diagnósticos mudam, para aumentar a insegurança geral) e CIVs múltiplas. Aos oito meses passou por uma cirurgia para a implantação de uma ligadura de Blalock e aos oito anos, em nova cirurgia, foi submetido a uma Fontan parcial (Cavo-Pulmonar) com a re-ligadura do Blalock. Depois da segunda cirurgia, ele ficou bem durante dez anos (até os dezoito), fazendo manutenção apenas e um cateterismo para procurar fístulas, comum nos operados de Fontan.

Então começaram a aparecer algumas consequências da cirurgia, as pernas escureceram do joelho para baixo e incharam, especialmente, junto  aos pés. Um efedema instalou-se na perna esquerda e houve uma trombose em uma vaso próximo da virilha. Segundo os médicos vasculares não há nada a fazer em relação a isso, a não ser algumas medidas paliativas, como colocar as pernas para cima, usar meias compressivas e orar. O sangue passou a evidenciar baixa saturação de oxigênio com a produção acentuada de hemácias e consequente alta de hematócritos, a níveis preocupantes. A cianose voltou a ser intensa. Então ele tem feito constantes hemogramas e quando os hematócritos sobem muito, é preciso fazer hemodiluição (sangria), no hospital. Esse procedimento leva de três a quatro horas para ser efetuado. As articulações, sobretudo dos tornozelos começaram a enrijecer dificultando o caminhar. Estamos no meio da avaliação e diagnóstico do ortopedista. Há modificação nos órgãos em geral (fígado, pâncreas, rins, vasos, etc.), mas nada que comprometa, até aqui. Faz uso de um saturador de oxigênio, em casa.

Atualmente, ele está sendo atendido por várias disciplinas médicas, além da cardiológia. Ortopedia, vascular, dermatologia, oftalmologia, nutrologia, odontologia e clínica geral. Conseguimos matriculá-lo para receber o benefício previsto pela LOAS (Lei Orgânica de Assistência Social) art. 20 e ele está recebendo um salário mínimo mensal. Mais da metade desse salário está sendo gasto na manutenção de um plano de saúde da UNIMED de Sorocaba e o restante ele usa para algumas coisinhas dele. Mas os custos de medicação, exames não cobertos, tratamento dentário, óculos, deslocamentos (muitas idas e vindas entre Sorocaba e São Paulo), meias compressivas, palmilhas especiais, roupas e alimentação especial, ficam por nossa conta.

Recentemente, li um trabalho realizado por alunos de mestrado de uma universidade portuguesa e outro de um pessoas do Rio de Janeiro (leia aqui) sobre a incidência de depressão e ansiedade em mães de cardiopatas congênitos. Não pude deixar de pensar que seria interessante estudar essas manifestações psíquicas nos próprios cardiopatas congênitos e nas outras vítimas, também, como os pais, irmãos, avós, amigos próximos, vizinhos, animais de estimação, etc., pois todos são afetados em maior ou menor grau, se não me engano, além da mães, claro.

Talvez isso explique a situação emocional dele, da mãe, dos irmãos e a minha própria, sem falar nos outros parentes e chegados. No meu caso, meus relacionamentos profissionais tornaram-se mais difíceis e a consequência é que tenho passado muito mais tempo sem trabalho do que seria admissível e necessário, sobretudo com o aumento de receita proveniente do problema.

Além disso é bom lembrar da convivência compulsória com o preconceito, é isso mesmo, e para os cardiopatas congênitos e vítimas de outras enfermidades graves não têm leis de exceção como as que foram dadas aos gays e aos negros. Alguns privilégios concedidos aos deficientes podem ser utilizados, mas sempre fica aquele ar de dúvida nas caras das pessoas, afinal os C.C. tem as duas pernas, os dois braços, etc.

Se tivéssemos melhor condição financeira, poderíamos fazer muito mais por nosso filho. Sem dúvida, essa é a limitação que mais contribui para piorar o difícil quadro de saúde dos cardiopatas congênitos. O serviço público de saúde em nosso país tem limitações homéricas, muitas de domínio público e outras nem tanto. Portanto, se os pais tiverem recursos próprios para melhorar o apoio a seus filhos C. C., tanto ou muito melhor. Há pouco tempo, faleceu o Gabriel, um cardiopata congênito que morava no Habiteto (conjunto habitacional erguido pela prefeitura local para população de baixa renda), subnutrido e cego. Foi avaliado pelos médicos do INSS local como apto ao trabalho e não conseguiu nem o benefício previsto pela LOAS. Se os pais dele, que têm outros filhos C.C., tivessem mais recursos, o Gabriel ainda estaria conosco, provavelmente.

Estimo que um cardiopata congênito como o nosso filho custe entre cinco e dez mil reais/mês, à sua família para ser tratado corretamente. Isso sem falar em cirurgias, cateterismos e exames de imagem em geral. Em nosso caso, recebemos ajuda de parentes e amigos, mas isso não supre nem dez por cento do necessário, geralmente. Então adivinhe, sou sócio majoritário do SCPC, SERASA, cartórios de protestos, e quase todas as listas de inadimplentes que você possa imaginar, etc. Na hora que preciso fazer algo por meu filho lembro de certo premier inglês e sua frase histórica: A lei, ora a lei! Na verdade, aqui em casa, só ele, nossa cadela e nossa calopsita não estão inadimplentes, ainda.  Mas se necessário for, a Bia, nossa cadelinha, será hipotecada, também, caso algum banco aceite-a como garantia.

Já tivemos mais apoio, não muito, mas um pouco mais. Mas as campanhas maciças do governo contra atitudes benemerentes por parte população ou outro motivo infame qualquer, fez com que isso diminuísse. Então só nos resta a maior de todas as nossas retaguardas, ou seja, crer em Deus, na redenção de Jesus Cristo e em milagres.

Nossas vidas, a começar na do nosso filho cardiopata congênito, têm sido alvo de milagres diários. Na maioria dos nossos dias, começamos sem saber como viveremos aquelas próximas 24 horas, no fim, nos damos conta que continuamos vivos e, muitas vezes, até com certa abundância. Em outras nem tanto.

Só posso agradecer a todos que, de uma forma ou de outra, têm nos ajudado nessa caminhada. Tenho certeza que esses estão inscritos em outra lista, aquela que é mantida no céu, e não nessas em que eu tenho sido relacionado por aqui.

Deus o abençoe abundantemente


Lou H. Mello

Ops:

Meu filho partiu para a eternidade, falecendo no dia 20 de abril de 2013 depois de uma cirurgia precipitada e mal organizada realizada por um famoso cirurgião em um dos maiores hospitais de São Paulo, devido a complicações pós operatórias, agravadas por contaminação bacteriológica em UTI. Isso me atingiu fulminantemente, quase tanto quanto à minha esposa, nossos filhos e todos que o amavam.

Originalmente publicado no site do Projeto Coração Valente

Anjos


Para todos nós é dia das mães…
Para todos, hoje é o dia das mães, mas...
Para todos, hoje é o dia das mães, mas…
Thomas - in vídeo
Thomas – in vídeo

mas aqui em casa é mais que isso. Hoje o Thomas faz vinte anos.

Poucas semanas atrás ele escreveu sobre os pais e dedicou palavras muito ternas para a Dedé e para mim. De uma forma não organizada, fugi de fazer ideia sobre meus filhos. Prefiro guardar comigo uma ideia única: Tudo que eu tiver de melhor quero dar a eles. Para mim eles são os melhores filhos do mundo.
Assim dou-lhes Deus, Jesus Cristo, a minha cultura, com nossa língua, conhecimento, usos e  costumes e meu jeito de amar.

Com o Thomas tomei uma decisão no dia que ele nasceu: fazer cada
dia dele como Deus quiser. Às vezes eu o olho e me sinto um crápula por não poder ir além, dando mais, fazendo mais, superando os obstáculos, removendo montanhas e mares, etc. Sinto estar devendo a ele muitas coisas, principalmente uma vida de paz, onde ele não precise se preocupar comigo e deixe que eu me preocupe com ele, apenas.

Não sei por que Deus nos colocou juntos. Posso, apenas, supor que ele se transformou em uma missão e deu um sentido à minha vida. Claro, os filhos são a nossa razão, mas com o Thomas eu descobri milhares de crianças e adultos também, pelos quais poderíamos fazer alguma coisa mais. Isso me transformou. Sempre desejei ter muitos filhos, imagine que insanidade. O Thomas veio sozinho e me fez pai de milhares de estrelas, até onde eu consigo ver e contar, quando olho para o céu.

O detalhe é ver nele, também, uma pessoa singular, sensível, preocupado com sua família e sempre incluindo todos nós em sua vida. Guardo comigo cada momento de nossa história juntos. Sou grato a Deus por cada ano de vida dele, pelos que passaram e pelos que virão.

Espero que o Pai Celeste me permita ir mais adiante e proporcionar muito mais ao meu filho caçula, da melhora de sua saúde ao seu futuro como homem. Espero que ele venha a se tornar pai de filhos como eu tive a ele e seus irmãos, Carolina e Pedro, mas que seja prospero e feliz, muito mais do que eu tenho sido.

Nessa caminhada, a pessoa mais importante foi a Dedé. A parte mais difícil sempre é a da mãe. Meus filhos têm mãe para valer e isso não é pouco. Ao contrário é um grande presente de Deus.

Talvez tenham faltado muitas coisas materiais aos nossos filhos, especialmente nos últimos anos que não estão fáceis para eles, por minha causa. Mas eles são privilegiados por sua mãe, um exemplo de doação e dedicação.

Ao contrário de muitas mulheres, ela nunca disse, e sei que nunca pensou, em viver a sua vida e deixá-los à própria sorte. Antes os amparou, mimou, abriu mão de seus próprios anseios e, não duvido, está pronta a dar a própria vida por eles.

Deus não me deu coisas, mas me deu pessoas maravilhosas. Tenho filhos, como o Thomas, Pedro e Carolina e tenho uma esposa da qual me orgulho, principalmente, pela mãe que ela é. Eu os amo muito, bem além de minhas forças.

Um dia como hoje é um grande dia para mim, pela mãe dos meus filhos e pelo Thomas. O que eu posso desejar mais?

Obrigado Senhor. Você é fera mesmo!

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Melhor dar do que receber, será?

Centro Hospitalar de Louisville – KY USA – Lou Mello com o Diretor Clínico do Departamento de Cardiopatias Congênitas.

Aviso Importante: Conforme o post anterior esclarece, na próxima terça-feira o Thomas (nosso filho mais novo e portador de uma cardiopatia congênita complexa) passará, graças aos leitores e amigos desse blog, por uma importante consulta (com um dos mais renomados cirurgiões da especialidade e titular do INCOR – São Paulo) onde nova etapa de tratamento deverá ter início. A família não dispõe, no momento, dos recursos necessários para tanto. Você pode participar, se desejar.

Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar DO QUE RECEBER. Atos 20:35

Em minhas andanças por esse mundo de Deus tenho experimentado todo tipo de sensações e situações.

Lembro de um tempo em que visitava várias igrejas, em razão de meu trabalho, e percebia que elas apoiavam financeiramente vários missionários, alguns eram meus conhecidos, inclusive.

Havia os missionários em terras estrangeiras, os envolvidos com as missões nacionais, outros eram pastores itinerantes e, alguns eram apoiados em suas necessidades, especialmente os casos dos doentes. O Ariovaldo Ramos, que conheço pessoalmente, era sustentado por diversos ministérios. Acho que até hoje o pessoal o apóia e fazem bem.

Havia o Enoque, a Valnice, uma outra irmã que vivia em Angola, o Elcio, etc… Cada vez que olhava para esse quadro, honestamente, pensava o quanto não desejaria estar entre eles. Minha preferência era estar entre os doadores. Acho que posso dizer que participei de vários projetos sustentadores, alguns com alcance de milhares. Queria chegar ao céu com esse epitáfio: O Lou foi um grande doador.

Quando participei de uma missão à Albânia (na época, fechada ao evangelho por um regime marxista-leninista ateu), minha igreja levantou ofertas para minha viagem. Precisava um valor considerável.

Além de tudo (passagens, estadias, etc) o governo da época cobrava um pedágio de quem viajava para o exterior chamado Depósito Compulsório, cujo valor era altíssimo. Lembro que, para surpresa do nosso pastor, em uma única passada da sacola, no final do culto de domingo, todo o dinheiro necessário para a minha missão foi arrecadado (muito mais do que era costume arrecadar nas ofertas dos domingos) e, dentro dela, havia uma grande doação e outras pequenas.

Muito tempo depois, conheci o irmão que Deus tocou naquela noite para fazer aquela doação. Não foi uma experiência legal para mim.

Sempre me senti mal com essa situação. Desejava continuar envolvido no ministério, mas queria sustentar-me. Adorava aquela história de Paulo fazendo tendas e sustentando todo mundo, além de si mesmo.

Quando toquei minha empresa de Malotes Internacionais, fiz planos para fazer grandes doações. Fiz algumas, inclusive. Estava do lado dos caras que seguram a corda, para os outros que tem que descer por ela. Era onde queria estar.<

Mas o divino resolveu me contrariar. A velha mania dele. Primeiro foi a experiência de Portas Abertas. Quando o Dale Kietzman disse que eu seria responsável por captar recursos, disse-lhe um taxativo: Negativo! Ele teve que me fazer um desafio para eu aceitar passar pelo treinamento.

De fato, após aquele período de aprendizagem, concordei com a tarefa da mendicância. Depois, como família, nos vimos em situação de necessidades básicas e, finalmente, fomos agraciados com a enfermidade no lar. Tudo isso veio a esmagar meu ego e meu orgulho, coitadinhos.

Faz tempo que o Thomas está apresentando sintomas de que algo não vai bem. Mas vivo sonhando em conseguir ou construir aquele trabalho que me possibilitará dar-lhe uma grande assistência.

Nada menos do que levá-lo para o que há de melhor no mundo. Nos tempos da minha empresa, estive nos Estados Unidos tratando disso em um grande centro hospitalar. Mas as necessidades dele não estão a fim de esperar por mim.

Assim sucumbi, de novo, à tarefa de esmolar, como dizia Albert Schweitzer que até ganhou um prêmio Nobel fazendo isso, só que pelos outros. Para mim, pessoas como o Albert, Madre Tereza e tantos outros nobres catadores de esmolas são monstros espirituais.

Sei quanto custa esmagar o próprio espírito para ser útil ao próximo. Meu amigo Daniel Fresnot, principal sustentador das Casas Taiguara costuma fazer algo que, no princípio me envergonhava muito, ele abrevia as conversas com os doadores dizendo: o papo está bom, mas preciso fazer um depósito urgente na conta da entidade. Quanto o senhor vai doar afinal? Poderia preencher logo o cheque?

Quero lembrar a todos os leitores que continuo coordenando o Projeto Coração Valente (siga o link no topo da página). São mais de mil crianças atingidas pelas cardiopatias congênitas complexas (aquelas em que há risco iminente de morte), só em Sorocaba e região.

Queremos crescer no Brasil e, se possível incluir partes da África. Aí a necessidade deve ser multiplicada por mil, pois a maioria dos atingidos é carente. Só que nossa missão começa em casa. Coisa que nem o Albert Schweitzer experimentou.

De repente comecei a imaginar que as pessoas pudessem começar a envolver-se nessa necessidade do Thomas e, a partir daí, viessem a participar do Projeto Coração Valente de forma definitiva. Desculpem-me, acho que fui mordido pela mesma mosca que mordeu a Madre Tereza.

Olha se você sentir algum constrangimento, fique fora dessa ou dê uma boa ajuda a alguém necessitado aí próximo de você. Faça isso por mim. Tá? Qualquer valor que ultrapassar nossa necessidade específica, será repassado ao projeto, se todos concordarem.