A Gruta do Lou

Homens de pouca fé, milagres e carnaval

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Marcos, o evangelista, me disse que Jesus nos queria independentes, por isso aquela bronca do: “homens de pouca fé”. Mais ou menos, um vai lá e faz o que puder, o resto é comigo.

O problema de não fazer nada, implica em deixar tudo por conta dele e, nesse caso, ele fica tiririca. Em nossos tempos, pior, pois o trabalho que damos a ele, no caso de não termos feito nada, é tremendo, uma vez que não está encarnado, como na vez do barco x tempestades e ventos. Por isso, muitas vezes, fica pelo: “o que não tem remédio, remediado está”.

No meu caso, tento de todo jeito parar os ventos e acalmar as tempestades, problema é a rebeldia desses fenômenos ecológicos em não me obedecer. Acho que já contei o caso do milagre que fiz uma vez. Não? Tudo bem, mesmo que o tenha feito, não me custa nada repetir, pelo menos tem a vantagem da repetição e isso ajuda a fixar princípios e conceitos.

Tínhamos uma reunião de oração na casa da Tia Vera, todas as quintas-feiras à noite. Eu havia me tornado a estrela profética, um fenômeno incontrolável, pois era colocar a mão na cabeça da vítima e a coisa saia sozinha, como se alguém estivesse usando a minha fala, com total domínio do órgãos em questão. Mas eu nunca perdi a consciência ou deixei alguma entidade exótica me usar a seu bel prazer.

No grupo havia um senhor que sofrera um grave acidente fraturando vértebras da coluna, com a conseqüente perda dos movimentos dos membros inferiores. Usava um aparelho ortopédico com muletas para andar e precisava de ajuda, sempre. Uma noite achei que Deus estava me mandando orar pela cura dele. O maior problema dos ministros, nesses casos, é a coragem para obedecer esses impulsos, ou sei lá o que. Provavelmente, a maioria prefere gritar o: “Para trás Satanás”, a correr o risco do vexame da coisa não dar certo. Advinha se eu não resolvi obedecer.

Fui na direção dele, Tia Arlete, minha fiel escudeira do lado, eu precisava dela pois a mensagem era dada a ela e eu só interpretava. Estávamos em total concordância, assim não fosse, ela não viria comigo. De frente para o homem sentado no sofá, ordenei que levantasse, uma operação complexa, no caso dele, mas obedeceu. Olhei nos olhos dele e vi dúvidas, incredulidade, mas ele se encheu de esperança, percebi. Pedi para fechar os olhos (não sei para que) e coloquei minha mão na cabeça dele. Nesse instante ouvi o zum zum zum dos presentes, uma incredulidade geral, mas estava determinado e nem minha mãe estragaria aquele momento, caso estivesse lá. Não me lembro as palavras que disse a ele, mas deve ter sido o famoso:

– Não possuo prata nem ouro (situação que persiste até hoje) mas o que tenho te dou, levanta e anda.

Dei dois passos para trás e fiquei esperando o véu se rasgar de alto a baixo e os aparelhos explodirem enquanto o homem começasse a dar os primeiros passos. Segundos preciosos e insuportáveis e o cara não mexia aquelas pernas nem um milímetro. Esperei alguns minutos e nada, então falei com Deus: o Senhor me pois nessa enrascada, agora se vira. Então me ocorreu outra velha saída para casos de milagres não realizados. Olhei firme nos olhos do sofredor e disse:

– Meu, você está curado e os movimentos das pernas, etc., voltarão aos poucos, mas você precisará crer nisso como nunca creu em alguma coisa.

Virei as costas e gritei: Next!

Como eu disse ao homem: o milagre está feito a anos, se ele não acreditou, o que posso fazer? A vantagem daqueles discípulos de Jesus é que eles viram o Mestre fazendo essas coisas e depois delegando a seus auxiliares o poder de fazer o mesmo, embora eles tenham claudicado, como bem explicou meu maior mentor para assuntos polêmicos dos evangelhos, o finado Albert Schiweitzer. Os caras não conseguiram nem expulsar um simples demônio, desses que já expulsei muitas vezes, no tempo que jejuava e orava. Pedro e João só começaram a milagrar bom tempo depois da maior injustiça do planeta, graças aos sacerdotes, o povo judeu e a parceria com o Império Romano. Coisas daquela época, claro. Com o tempo essa fé se perdeu e os milagres congelaram.

Um pastor amigo meu costuma orar pela ressuscitação de todos os mortos para os quais é chamado para dirigir o culto fúnebre. Não preciso dizer que o pessoal da igreja dele só conta que alguém morreu quando o moribundo já está seguro abaixo dos sete palmos da superfície, principalmente se forem sogras. Depois que contei esse fato, também não fui mais convocado para dirigir esses cultos. Estava louquinho para ressuscitar alguém. Se não desse certo, era só avisar que ocorreria aos poucos.

Mas, o mais importante é lembrar que Jesus deseja ver-nos andar pela fé. Então homens e mulheres de pouca fé, o que vocês me dizem?

Tá, não precisam dizer nada, já sei, depois do carnaval vocês pensarão a respeito. O raça!

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1 thought on “Homens de pouca fé, milagres e carnaval

  1. Lembrou-me de um pastor que curou um paciente aidético e foi a sensação do bairro. Até que o rapaz meses depois veio a falecer…

    Duas explicações convincentes chegaram:
    1. O atestado de óbito, ou laudo médico, era claro ele não tinha morrido de aids.
    2. A Bíblia era clara, agora vá e não peques mais para que não te suceda coisa pior.

    A fama do pastor ficou só um pouquinho arranhada. Depois disso acho que ele só curou um paciente de câncer que passou por uma longa quimioterapia na Europa.

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