A Gruta do Lou

Guia Postal


Na tarde de hoje fui à agência dos correios para postar um envelope de meu filho. Não dei sorte ao chegar à loja, pois as duas vagas do estacionamento estavam ocupadas e só a vaga reservada aos deficientes estava livre. Continuei e fui procurar lugar para estacionar na rua de trás. Segui em direção à loja caminhando, depois de estacionar e, na metade do caminho, me dei conta que minha carteira ficara no carro. Fui obrigado a voltar e começar a caminhada outra vez. Cada vez mais essas cenas se repetem em minha vida, nesses dias sexagenários.

Entrei na agência, peguei uma senha e sentei-me em uma das poltronas de espera. Dois guichês estavam abertos e atendendo as pessoas. Um terceiro guichê estava funcionando e percebi que era reservado às pessoas especiais, entre elas os idosos. Pensei comigo, se idoso significar alguém com mais de sessenta anos, para os correios, então poderia ganhar um tempo sendo atendido ali. Mas fiquei com medo de perguntar e passar vergonha, achei melhor esperar quietinho e sentadinho para ser atendido quando meu número fosse chamado. As duas pessoas que estavam sendo atendidas nos dois guichês normais estavam demorando muito, talvez enviando cartas para toda a população da China.

Então a atendente do guichê dos especiais gritou: Senhor, pode vir aqui. Falou isso olhando para mim. Hesitei, um instante e foi preciso uma senhora me cutucar para eu criar coragem e dirigir-me para lá. Assim que me aproximei a moça pediu desculpas dizendo que não queria me ofender. Sorri e tranqüilizei-a, afinal estava feliz em poder ganhar um tempinho não tendo que esperar o pessoal amigo dos chineses terminar seus intermináveis envios.

Bom, agora sou de fato um idoso. Pelo menos para quem entende idoso como alguém que conseguiu a façanha de chegar aos sessenta. Há quem pense no idoso como sendo só as pessoas acima dos sessenta e cinco. Considerando a média da longevidade dos brasileiros que é de setenta e três anos, para esses um velhinho só terá direitos de idoso por oito anos, mais ou menos.

A vida é mesmo uma grande aventura onde é aborrecido ser criança, entediante ser adolescente, cansativo ser adulto e insuportável ser idoso. Claro, se você encarar essas fases todas com bom humor será mais adequado, não mais fácil, apenas mais divertido. Até os quarenta e cinco, entre altos e baixos, caminhei razoavelmente, depois não consegui estabilizar a minha situação mais. Ainda conservo um certo bom humor para os momentos muito complicados, mas tenho estado irritado, na maioria das vezes.

Como a maioria dos leitores sabem, não posso liberar meu filho de vinte e dois anos para viver a vida dele livremente. Uma antipática cardiopatia congênita ainda o impede de alcançar a desejada carta de alforria. Nesse caso, não posso conceder-lhe o direito de ir e vir por conta própria. Da porta de casa para a rua, ele vive segundo minhas possibilidades em todos os termos, inclusive para fazer seus tratamentos. Entretanto, todos nós acreditamos que ele ainda alcançará sua alta total e receberá seu diploma de liberdade.

Depois que o INCOR (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) declinou de tratar meu filho, da forma mais covarde e irresponsável, através de uma atitudezinha vingativa de uma médica ainda cheirando a cadeira de faculdade, que cancelou a matricula dele, datada há mais de vinte anos, agora seremos obrigados a começar nova peregrinação em outro grande hospital de São Paulo especializado em cardiopatias e seus tratamentos. Isso está marcado para a próxima terça-feira dia 15 de fevereiro.

O tratamento dele está muito atrasado. Algo deveria ter sido feito em 2007, no máximo, quando procuramos o INCOR, conduzidos pelo serviço estadual de saúde de Sorocaba. Mas não conseguimos nada mais que algumas consultas básicas no precário atendimento de emergência daquele famoso hospital, uma vergonha estadual e nacional, alguns exames e nada de objetivo. O método cirúrgico a que ele foi submetido aos oito anos requer acompanhamento e possíveis intervenções ao longo dos anos vindouros. O problema é que essa brincadeirinha de uma menina mimada e um sistema enrolado e acorrentado por oportunas e inoportunas providencias burocráticas produz seqüelas que não sabemos se serão revertidas e em que nível.

Talvez o INCOR seja um hospital disfarçado de público, mas realmente a serviço dos convênios de saúde, para os quais, políticos e personalidades fazem propaganda, de vez em quando, submetendo-se a tratamento lá, na suite presidencial, lógico. Tudo pago com a grana do cidadão mais obnóxio desse país, o contribuinte. Sei não.

Como sempre, não sabemos como enfrentaremos essa nova etapa de nossas vidas. Apenas dispomos de nossa velha e surrada fé. Nas outras centenas de vezes a turma do céu acabou nos socorrendo, via amigos e parentes. Talvez não como gostaríamos, pois em minha soberba arrogância sempre espero e sonho chegar nesses lugares macabros com alguma altivez, mas Deus insiste em esmurrar nosso ego e acabamos mesmo nos dobrando diante de nossos inimigos.

Enfim, se não bastassem os imensos leões que temos a derrotar nos próximos dias, temos diante de nós essa montanha para ultrapassar e ela é prioritária.

Não sei se consegui emocionar você, espero que sim e que isso possa redundar em algum tipo de simpatia de sua parte com nossas misérias. Ainda que assim não seja, certamente o criador responsável, em última análise, por todas as nossas encrencas, sem falar na mania que ele tem de jogar sobre nós a culpa por tudo que acontece de ruim no universo, dará um jeito de nos suprir, com toda a certeza. Fique tranqüilo.

Assim voltei para casa, pensando em tudo isso, sem nenhuma nova idéia capaz de virar solução aceitável, afinal as minhas idéias já estão mais para descansar ou mesmo aposentar, sem ter que me importar muito com o trânsito e suas leis, pois o fiz com o piloto automático ligado, forma que tenho utilizado ultimamente na condução por nossas ruas. Ainda bem que há uma loja dos correios a cada dez quilômetros, nessa cidade.

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