A Gruta do Lou

Gênio acidental

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“Em certos casos, quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino. Um pequeno gênio ganha fama, um grande gênio ganha descrédito, um gênio ainda maior ganha desprezo; um deus ganha crucificação”.

Fernando Pessoa

Talvez diga: Venho de perambular pela vida, desacreditado e desprezado. Ao ser perguntado, na entrada do céu.

Não. Não estou presumindo ser gênio. Pior seria se descobrisse ser um daqueles caras citados por Jesus de Nazaré, detentor de muitos talentos, mas tendo preferido enterrá-los a utilizá-los. Se pudesse escolher, preferiria uma vida simples e cheia de realizações criativas, com filhos, meu livro publicado e muitas árvores plantadas.

Sei quanto precisamos depender de nós mesmos para criar e manter nossos filhos. Igualmente, conheço a dor de cunhar uma única frase. Ainda vivo em um lugar longínquo, onde preferem publicar e ler livros escritos por idiotas competentes do primeiro mundo, como se fôssemos incapazes de fazê-lo. Não existiram aqui Machado de Assis, Euclides da Cunha, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Guimarães Rosa e tantos outros. Por que não publicar esses sem menosprezar aqueles. Às árvores não nos custa muito plantar, embora tentem nos impedir e apesar de plantarmos muito menos do que deveríamos.

Preocupa-me a inércia. Sair daqui sem começar e, muito menos, realizar. Nada como a volta ao porto com o barco coberto de glórias. Aqueles cujo Deus lhes permitiu esse prazer são muito bem aventurados. Fernando Pessoa deve ter sido um desses caras. Imagino o orgulho dele ao caminhar pelo saguão principal, na entrada celestial. Ainda bem que Portugal não lhe impediu. Deixou o gênio explodir em versos e palavras.

Mas criar, não precisa ser escrever, necessariamente. Mais faz quem permite o desabrochar de uma vida ou quem socorre um aflito em sua necessidade, seja ela qual for. Estamos repletos de heróis anônimos. Gente que pratica benevolências sacrificiais na calada da noite. São todos gênios.

Um imbecil não teria iniciativa para tanto, no máximo, pastorearia uma igrejinha qualquer no Morumbi ou na zona oeste. Pastores costumam ter só dois neurônios, um para falar bobagens e idiotices dogmáticas reformadas ou não e outro para contar a grana dos dízimos e ofertas. Esperar mais deles é imprudência. Salvo enganos. Não existem gênios pastores, atualmente. Esses estão enterrados em algum lugar do passado distante.

Vivemos em um tempo onde só os beócios e incompetentes tornam-se pastores. Os gênios, cheios de talentos escondemos sob o tapete, com suas bocas amordaçadas e seus nomes devidamente registrados em todas as listas dos devedores contumazes. Mais uma das aberrações de nossos dias.

Tive dois colegas notáveis no seminário. Um era o gênio da turma, não sei por onde anda. O outro, o grande puxa saco, hoje um dos pastores mais badalados do pedaço. Sem falar nesses caras cujo pai pagou curso de teologia em uma escola de segunda qualquer, nos Estados Unidos e hoje eles ditam a moda, por aqui.

O gênio, não é grande pela igreja que lidera ou os livros publicados. Ele é reconhecido como um gênio quando descobrimos nele um gigante moral, como Gandhi, Mandela e Luther King. Muitos gênios foram devidamente abafados. O mundo não gosta deles. Pode ser que eu e você estejamos nessa lista. Se for algum tipo de gênio, meus talentos estão enterrados por aí. Afinal, morreria de medo se os perdesse na senda dessa vida nada pródiga.

Enfim, seria eu pouco mais do que um gênio acidental, alguém ainda lutando para começar de novo, cheio de esperança de realizar algo, além dos filhos, do livro e das árvores, para chegar ao meu porto de destino com meu barquinho glorificado.

lousign

3 thoughts on “Gênio acidental

  1. Lu,o babaca do meu irmão foi visitar um cara aí de uma antiga missão, prefiro não dizer o nome, digamos é uma missão formada por pessoas que não são velhas e não são de mentira, e prefiro também não não dizer o nome do cara. Lá pelas tantas, o cara mostrou pro meu irmão um disquinho e falou: vê se você sabe quem é o cara que está cantando. Era o meu irmão, ele canta uma barbaridade. O cara disse: esse disquinho vendeu pra caramba… Meu irmão veio me contar, e eu fiz a clássica pergunta: sim, mas…quanto ele vai te dar? Meu irmão tá bravo comigo até agora, imagine, eu canto pra louvar ao Senhor, coisa e tal.

    Enquanto isso ele perdeu a aposentadoria, e está às voltas sem saber como vai pagar as contas de água e luz e como vai viver.

    Dá para juntar as duas idéias, essa e a do post anterior. É disso que estamos falando, precisamente. A simplicidade (gente que coloca o pescoço na guilhotina, só para experimentar o corte) tem grande chance de ser tratada como um pecado igual a outro qualquer. Agora, esses aproveitadores de gente talentosa e inocente precisam cair na real, antes que seja tarde demais.

  2. É Lou, mas há algumas excepções.
    E depois há também o Aladino, que era génio, mas vivia numa lâmpada.
    Ou numa gruta, já nem sei bem…
    🙂

    (saudades das nossas conversas…)

    Sem dúvida. Difícil achar, mas deve haver sim. Imagino que você esteja a falar dos pastores. Meu tema foi uma tentativa de me desculpar com muitas pessoas que viram algum talento em mim e eu as decepcionei.
    Precisamos mesmo conversar, também gostaria muito. Abração brasuca.

  3. Oi Lou !! ler vc me leva sempre a pensar pelo lado do avesso… e olha, o lado do avesso tem sido bem melhor ..rsrss… ou será esse o lado certo ?

    super abração pra vc

    …sabe que eu não sei.

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