A Gruta do Lou

Filho de Jó

“Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face!” Jó 1:11

Antes de tudo, nunca tive nem a menor parte do que possuía Jó. Não apenas em posses e filhos, mas com disse Deus: ” porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem integro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.”

Não, eu era apenas um pouco devotado, com uma família legal, é verdade, mas sem grandes bênçãos capazes de multiplicar meus bens. Vivi altos e baixos, na questão material. Não fui tão reto, nem tão integro. Também, não era dos piores.

Entretanto, parece que fui escolhido para servir aos caprichos divinos. Como deixa claro o texto de Jó, o chifrudo sabe como cutucar a onça com vara curta. Deve ter dito ao bom velhinho que se me tirasse o pouco que tinha, no caso a família, a minha maior riqueza, e me deixasse sem fonte de renda alguma eu blasfemaria contra o maioral, na cara dele.

O pior é que o capeta estava absolutamente certo e, pelo jeito, Deus apostou em mim e perdeu. Nesse momento, devo estar vivendo a ira divina por tê-lo decepcionado. Se tinha ficado ruim, agora está muito pior e não vejo luz nenhuma no fim do túnel, aliás, nem túnel, sequer, consigo ver.

Engraçado que, logo que li essa narrativa sagaz veio-me a mente a pergunta que nunca quis calar: e se Jó, como eu, tivesse blasfemado? Neca de ovelhas, anéis de ouro, e outros filhos no lugar dos que se foram. Caramba! Receber a mesma sina de Jó é uma desgraça e não sendo capaz de suportá-la como ele o fez, é desgraça muito maior. Pelo menos nisso eu ganhei dele: sou muito pior.

Além de não ter conseguido uma fonte de renda estável, nunca mais, fui perdendo o respeito dos que me são caros, pois pudera, qual o homem capaz de manter o respeito se não é capaz de suprir sua casa? Depois de perder o respeito, vão-se as pessoas.

Sem tudo isso, como manter a fé? No meu caso, continuo incapaz de conceber a vida sem Deus, mesmo com essa intrigazinha Dele como o demo, toda essa ausência de bênçãos, ou mesmo sua presença. Talvez morra esperando vê-lo de alguma forma. Quem sabe Ele não pensa melhor e resolve me enviar uma luzinha só, que seja.

Não sabem nada esses que me julgam sem fé. Diante de Jó, sou quase nada, no entanto, esses caras estão para mim como eu estou para Jó. Nem para serem eleitos personagens no joguinho divino eles prestaram. Se bem que eu preferia não ter sido escolhido, também. Maldita hora que fui me meter a crer daquele jeito.

Daqui a pouco, começará a clarear. Ganhei mais uma noite sem sono e sem respostas para todas as minhas indagações. Outra semana começará sem que eu faça a menor idéia de como irei enfrentá-la e bota problema nela. Só não quero a compaixão, ou pena de ninguém.

Invejo o último verso da saga de Jó: ‘Então morreu Jó, velho e farto de dias.”

4 thoughts on “Filho de Jó

  1. Bem, a verdade é que temos de estender a mão uns aos outros. Sem isso, ninguém espere por uma humanidade melhor.
    Parabéns

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