Feliz ano novo… Agora vamos!

Surgiram convites de todos os lados para pregações, palestras e eventos de fim/início de ano.

O que mais me balançou foi o convite de um SPA Cristão, em Parati, onde aconteceria um Reveillon quase evangélico, com direito a entrar no ano novo (segundo o horário GMT- Brasília), ajoelhados e orando fervorosamente por um novo ano abençoado, mas acompanhado por uma mesa fartíssima, das saladas às sobremesas, passando por variadíssimos pratos principais, incluindo carnes à francesa, massas típicas italianas, comida light, etc, sem falar nas opções de bebidas, com vinhos da melhor qualidade a sucos naturais deliciosos. Meu trabalho seria dirigir uma breve mensagem de fim de ano aos presentes e a contrapartida seria o “tudo pago”, de quarta a domingo, para mim e toda a minha família, alem de um cachê interessante pelo trabalho duro de falar, por uns quinze minutos, de improviso ensaiado. Ao avaliar minhas motivações, percebi um interesse muito mais voltado ao mar, à praia, às belezas da região e aos vinhos do que aos rituais religiosos/gastronômicos e decidi não aceitar. Ainda se fosse para falar uns quarenta minutos, vá lá.

Na outra ponta, o pastor de uma congregação batista de um bairro menos nobre, aqui em Sorocaba, convidou-me para pregar no culto de passagem de ano, um Reveillon menos in, mas atraente pelo ar de algo mais com a cara de Jesus de Nazaré. Depois do culto, seria servido um jantar cujo cardápio seria risoto de frango  com direito a um copo de Taubaina, por pessoa. Confesso que pretendia aceitar, não fosse um telefonema de ultima hora desconvidando-me, devido a uma divergência interna entre o pastor e o diácono presidente. Este senhor desejava a apresentação em vídeo do Pr. Ed, ao invés da minha insignificante presença ao vivo. Claro que a vontade do diácono prevaleceu, pois além de presidente da congregação, ele é o maior dízimo entre os dezesseis existentes lá.

Creio que deveriamos iniciar campanha em favor da pregação ao vivo, sob risco de nosso descarte como lixo teológico. Daqui a pouco, os DJs de púlpito (uma profissão que vem ganhando terreno a passos largos) com seus notebooks, Ipods, Ipads, Iphone, multimídias e aparelhos de som, tomarão nossos lugares de arautos de Deus e nós seremos só parte na estatística dos pregadores desempregados, se é que já não somos. Talvez seja correto pensar que os pregadores, assim como os presidentes brancos, homens, com formação universitária, heterossexuais, empresários e nobres, ficaram em 2008 e não passaram para o ano novo.

Outro dia, um DJ de púlpito, muito ungido, fez um MIX em vídeo editado que juntava em uma só pregação ED, Gondim e Warren (com legenda), tudo com músicas estratégicas de João Alexandre, Diante do Trono, Ludmila Ferber e Aline Barros. Enquanto você ouvia as palavras, entremeadas com a música ao fundo, nos três telões podíamos ver imagens frenéticas do mundo todo. Cara, não consegui pensar durante os quarenta minutos da apresentação. Aquilo te pega pelas entranhas e não há como escapar.

Pior é que isso já chegou à periferia. Nem de graça, nos querem falando sobre a Graça, preferem os propósitos e lamentações anti neo-pentecostais regadas à musiquinhas gospel brega, tudo em DVD. Como diria vovó, quem sabe não seja melhor enfiar a viola no saco. Afinal, com MP3 e MP4 na parada, quem liga para instrumentos ultrapassados como esse. Os pregadores também viraram instrumentos ultrapassados. Onde está o velho preconceito comunista contra pregadores de igrejas ricas? Nem isso se vê mais. Agora as igrejas pobres assistem DVDs dos Mauricinhos do Morumbi e quem aperta o play dos DVDs são os próprios pastores pobres.

Os blogs também estão ameaçados. Basta observar como a prática de postar textos dos mesmos caras vai se alastrando. Você pensa que está lendo o post de um amigo, estranha o estilo “crítico de barriga cheia”, e no fim, bem escondidinha aparece a assinatura do Gondim ou qualquer um desses. Em 2009, prometo, solenemente, que quando me sentir incapaz (ou com preguiça) de escrever um texto com minha própria pena, só postarei textos de escritores mortos, tipo Bonhoeffer, Lewis, Nouwen, etc… Idéia que ainda não passou na cabeça de blogueiro algum. Pelo menos esses não tem como ficar com o que é meu… ou têm? Sei lá.

Por essas e outras, estou colocando minhas barbas de molho e planejei levar 2009 em outros rumos. Tenho a impressão que minha maior atividade será a de tirar dependentes químicos de circulação, trazendo-os de volta com cara de crentes. Adoro as clínicas e igrejas que fazem isso. Bom, fora isso, sempre sobrará a opção de estourar a champagne no final do ano jurando bobagens como: agora vamos, desejo muita paz, etc.

OPS: Continuamos em férias.