A Gruta do Lou

Evangelista maltrapilho

O EVANGELISTA
O EVANGELISTA

Estou perplexo. Ninguém apoiou minha proposta de resistência pacífica para o probleminha da violência no Rio de Janeiro. Tudo bem, o presidente da república, o governador, o prefeito e o secretário da segurança não terem se manifestado, afinal eles devem estar comprometidos com um monte de interesses, da indústria de armamentos aos fornecedores de quentinhas para as prisões e dos pais de santo orientadores de suas carreiras políticas e religiosas. Mas os meus raros e fiéis leitores comentaristas também não se animaram nada com minhas ideias subversivas, nesse caso.

Elegi o “modus operandi” de Jesus Cristo por entender estarmos na vigência da graça, não aquela mencionada pelo ex-pastor Caio em seu artigo de ontem, onde ele relaciona vários passos para se viver pela graça. Ele acredita ter inventado a lei da graça. Tudo bem, ele não foi o primeiro. Ao longo desses dois milhares de anos cristãos, milhões de vulgos discípulos fizeram a mesma coisa como o nosso irmão traidor. Se eu estivesse sob a lei, imitaria Davi, pegaria meu estilingue e liquidaria aquela bandidagem entrincheirada naquelas favelas a pedradas, tudo em nome do meu Deus. Ninguém acreditaria nisso também, suponho. Outro dia alguém escreveu sobre essa narrativa bíblica considerando-a como mais uma parábola.

Desconfio, sinceramente, quanto a grande maioria esmagadora espera uma sonora invasão dos morros cariocas pelas forças armadas. Aí, como previu o Mestre, não vai dar para separar o joio do trigo e, pelo sim pelo não, eliminarão tudo e todos à sua frente. Aliás, tempos atrás, já houve umas amostras desse tipo de procedimento mais ao gosto do Alcorão e da Torá. Em uma delas, os militares policiais entraram na favela armados até os dentes, encontraram um bando de pessoas vindo na direção oposta e metralharam todas elas. Só ficaram sabendo tratar-se de uma cambada de crentes da Assembleia de Deus local, acabada de sair de um culto abençoado depois, quando os corpos jaziam pelas alamedas do morro.

Sou mesmo um ser de outro planeta. É comum ver-me em seções onde as pessoas me lembram de todos os meus pecados e erros ao longo de minha inútil vida. Falta pouco para eu me convencer nunca ter feito absolutamente nada de bom nessa existência desnecessária. Deus devia estar pescando quando fui concebido e escapei ao controle de qualidade dele. Tenho um amigo, ele tem sido meu bem feitor, nos últimos quinze anos. Já enviei-lhe dezenas de E-mails ressaltando suas qualidades e quão bom foram suas ações benevolentes para comigo e minha família. Agora, você não acreditará se eu lhe disser nunca haver recebido uma mensagem dessas. Isso, certamente, é a prova cabal de nunca ter feito nada de valor, nos últimos cinquenta e oito anos.

Só para me contrariar, acabo de ler um comentário (da Chris) favorável à minha ideia pacífica, e ela é carioca e moradora no Rio de Janeiro. Talvez nem tudo esteja perdido. Mas eu gostaria de saber o que os meus colegas pastores andam pregando em suas igrejas, além das baboseiras psicoteológicas costumeiras. Meu, pela falta de noção fundamentada nos ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo menos não me aparece um caboclo, sequer, com qualquer cacoete cristão de fato, faz tempo que não mencionam as insanidades ditas por Jesus, em suas igrejas.

Agora serei profético: esse planeta, não apenas o Rio, só será salvo por ações contidas e concebidas nos evangelhos. Leiam o que estou escrevendo e esqueçam, por um minuto, do evangelista maltrapilho a digitar. O homem de Nazaré era e é o caminho, a verdade e a vida, enfim.

102913_1540_Maisumadmir3.jpg

2 thoughts on “Evangelista maltrapilho

  1. No meu caso, me pergunto por que sempre tendo a levar na brincadeira quando alguém – você, por exemplo – propõe alguma atitude radicalmente idêntica às do Nazareno.

    Bem vindo ao clube.

  2. Resistência pacífica é a melhor pedida, e a mais parecida com a proposta do Cristo Galileu.

    Muito embora nosso apetite por sangue de vez em quando fale alto.

    Sinto que nossos corações querem seguir a Jesus, mas vemos nossas mãos no anseio pela compensação do sangue derramado.

    Miseráveis homens que somos!

    Sem dúvida!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *