A Gruta do Lou

Espiritualidade Hipócrita

 

Ando sentindo grande distanciamento da vocação espiritual da Igreja. Claro, estou chovendo no molhado. Mas vamos deixar a instituição de lado, enquanto refletimos um pouco sobre isso, na forma mais abrangente da definição de Igreja.

Recentemente, durante o ápice da tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, uma mulher da defesa civil (se não me engano) pediu voluntários capazes de consolar as milhares de pessoas que haviam perdido seus entes queridos, todos os seus bens e não tinham nenhuma chance de retomar suas vidas a curto prazo. Ela chegou a citar pastores e padres, como possíveis conselheiros.

Sempre que assisto reportagens de tragédias, seja onde for, procuro ver nas imagens a presença do pessoal do Exército de Salvação, hábito adquirido no tempo em que trabalhei lá, no quartel general em São Paulo. Por alguma razão desconhecida por mim, eles estão ausentes, cada vez mais, das cenas dos crimes, uma pena. Mas, me parece, que isso está longe de ser um problema só dessa instituição.

Chegou perto de zero a participação dos cristãos naqueles episódios horrendos e para baixo de zero qualquer notícia a respeito, na mídia. Na Internet, muito pouco, entre o pessoal que costumo ler ou me relacionar via redes sociais, só um ou outro comentário, geralmente com preocupações políticas e sociais. Os que continham alguma matiz teológica eram, quase todos, de estilo profético, do tipo dedo em riste e acusativos. Com verve consoladora não me lembro de nada a citar agora. Nenhum texto, nenhum vídeo e nenhum comentário. Chegou ao cúmulo de uns e outros fazerem piadinhas com a omissão divina ou a permissividade liberal do Criador.

Claro que estou citando a tragédia carioca por ser um evento recente, mas essa escassa espiritualidade parece estar em toda parte, do Chile ao Egito, da China até a África. Eu mesmo tenho me deixado levar por essa onda. No ano passado, foram raras as minhas citações aos anjos, as profecias praticamente inexistiram e minha intensa atividade com o dom do amor, o dom da fé, da esperança, da cura, de expulsar demônios, falar a língua dos anjos, etc., deixaram as páginas do blog, quase que totalmente. Percebi que esses temas perderam o interesse dos leitores, mais interessados em sangue, sexo e desgraças.

Nos tempos em que lecionei em algumas centenas de seminários paulistas, costumava enfatizar o caráter espiritual de nossa missão. Dizia aos alunos, sempre: “Não somos e não podemos ser psicólogos, aliás para que? Nosso trabalho é a oração, a palavra de consolo e o calor humano de um bom abraço. Explicar as matizes emocionais advindas da queda e do pecado cabe a outros, das castas mais inferiores. Os meus ex-alunos que lêm minhas mal traçadas linhas anonimamente podem testemunhar todo meu esforço em preservar nossa estrita relação de intermediários entre Deus e sua criação.

Entretanto há uma estranha insistência em abandonar nossa vocação primária, trocando-a por qualquer uma dessas atividades de segunda classe e que só sobrevivem graças à teologia, ou deveria dizer, à má teologia. Segundo minha própria hermenêutica, cabe-nos conquistar o status de quem maneja bem a palavra da verdade e ensinar ao próximo, desinteressadamente, na base do: De graça recebeste, de graça deveis dar. Apesar de que, esse não tenha sido meu caso, que fui obrigado a comer o pão que o diabo amassou, trabalhando em congregações batistas de péssima reputação a fim de ganhar o dinheiro necessário para pagar meus estudos teológicos. Na maioria das vezes ensinei pelo dinheiro do combustível, se tanto. Alguns Jesieis me davam uma ou outra oferta de amor, de vez em quando, sem obrigação de fazê-lo.

Não sei se ainda ostentamos o charme de ser pessoas espirituais. Às vezes, me faz bem encontrar algum membro da Igreja local que me conceda esse respeito. Como vai pastor? Ore por mim, por favor. Caso contrário, creio que seria oportuno começar a deixar o Lula, a Dilma e as causas sociais de lado e começar a nos ocupar mais de nossas vocações para o consolo, a orientação, a profecia, a iconoclastia, o exorcismo, a vidência, a glossolalia, enfim boas e antigas práticas sacerdotais. Não falo só dos pastores e mestres, mas penso que essa missão pertence a toda a Igreja de Cristo. Sabe essas outras coisas são muito importantes, mas sempre as tereis convosco. Enquanto isso, a batalha espiritual urge e torna-se prioridade nesse mundo tenebroso de nossos dias.

2 thoughts on “Espiritualidade Hipócrita

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