A Gruta do Lou

Esperando o movimento da água.

Os dias estavam sucedendo-se em águas paradas. Quando o anjo descia agitando as águas, eu não me dava conta ou não havia homem algum que me pusesse no tanque. Sabe como é, as pessoas estão muito ocupadas e com seus próprios afazeres. Além disso, sempre tem aqueles mineiros desconfiados perguntando se sou mesmo aleijado ou um grande farsante. Afinal minha deficiência não se vê. Ela é genética, mas não aparece aos olhos. Nasci desprovido de ambições maiores e materiais, infelizmente. É um mal congênito.

Mas hoje, alguém agitou as águas. Não vi, o anjo deve ter vindo no fim madrugada quando eu havia me deixado embalar por um daqueles últimos cochilos. Coisa típica do Raniel. Não havia ninguém por perto e mais uma vez fiquei de fora. Entretanto o dia foi agitado, devido a isso. Não posso reclamar afinal, o Raniel é o anjo da guarda do Thomas e não meu. Se ele é relapso com seu protegido imagine com o pai dele? Eu não tenho anjo pessoal. Devido a escassez de anjos pessoais, o meu foi designado para o Ed quando ele nasceu e eu para a fila do SCAA, o serviço celestial de ações angelicais, um serviço público que como tal, não funciona. Só filas, propinas e encrencas.

O Raniel me acordou com aquela maldita campainha que ele inventou. Não teve a menor originalidade. Ele sabe que ando dormindo sob o espectro dos verdugos, sempre. Então ele copiou o som da nossa campainha e quando quer me acordar assobia aquele maldito som (anjos fazem isso com a maior facilidade) e desaparece rapidinho com medo do que eu poderia dizer-lhe ou dos lugares para onde eu poderia mandá-lo. Então desci e peguei uma caneca de café fresco e quentinho e fui levar para a Dedé. Acordado já estava, me arrumei e fui para o computador. Logo o telefone tocou. Descobri que estava sendo passado para trás na questão da verba do conselho e tratei de tomar as providências para intervir. O Adalberto ligou para me pedir um favor e outro telefonema me enviou para uma conversa com uma pessoa importante. Sem falar no E-mail do Rubinho respondendo a um convite para um café que lhe fiz outro dia. O dia caminhou em cima dessas questões e acabou rapidinho. Então entendi qual era a do Raniel. Trabalho rentável que é bom, nada.

Agora terei que esperar outra visita do anjo a ver se ele mexe as águas de novo e se, dessa vez, consigo entrar na água para receber minha cura. Fico imaginando como eu seria se não tivesse vindo ao mundo com esse defeito de fábrica. Deve ser emocionante dizer não para alguém ou perceber um sinal vermelho sobre a cabeça de um safado e não avançar esse sinal só para não perder seu afeto. Pelo menos foi isso que explicou minha psicóloga (sic).

Será que um dia experimentarei tal sensação? Invejo o Ed e o Gordim nesse quesito. São os reis do dizer “não”. Enquanto isso, concordo com tudo e com todos. Minha desculpa é: grutenses nunca dizem não. No máximo podem dizer: “claro…”

5 thoughts on “Esperando o movimento da água.

  1. grutenses nunca dizem nao?
    será Lou?
    não sei…
    uma das primeiras palavras que aprendemos é o não! dizer sim por vezes é tão complexo…
    beijos,
    alê

  2. perai… mandei o comentário e não terminei. pensando bem, dizer sim também é muito complexo. a conclusão que chego (se isso é alguma conclusão) é que expressar opiniões não é nada fácil.
    ou pode ser,
    se não nos envolvemos de fato.

  3. Lou, acabei de vir lá do novo blog da Alice e li um texto maravilhoso seu. Agora chego aqui e essa parábola da água do tanque.
    Eu tb andei tao ocupada estes dias comigo mesma, rs, resolvi ficar 2 dias doente e fiquei de férias. Imagina, mae doente como isso aqui virou um caos. Marido hoje foi trabalhar gritando Help!!!

    Bom fim de semana

  4. é Lou, talvez seja por isso que sempre encontro aqui palavras que me confortam, afinal, eu também “ainda” ( tenho que excercer a fé) não aprendi a dizer NÂO…(e vivo tomando na cabeça por isso).
    Abraços
    Alice

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