A Gruta do Lou

Escravos da Liberdade

Escravos da Liberdade
Escravos da Liberdade
J. P. Sartre

“Dentre todas as correntes, a liberdade é a maior. Nada me limita mais, me incomoda mais e me angustia mais do que ela. Decidir, não decidir, sentir culpa por tê-lo feito ou por não ter tido coragem de fazer, enfim, todas as ações ligadas a ela são angustiantes”.

Como diria o Zenon, a responsabilidade por minha vida é só minha. Isso me arrasa. Sinto que somos escravos da liberdade. Adoraria colocar a culpa por meus infortúnios em alguém, como todo mundo faz. Na mulher que tu me destes, ou na víbora.

Em muitos posts anteriores jóquei a culpa em Deus e o pessoal não se deu conta, preferindo comentar as palavras periféricas dos textos. Talvez tenham sido todos indulgentes comigo. Apenas, queria ser original. Se fizesse como a maioria, elegeria o diabo como o maior culpado, dentre todos.

Talvez toda essa história de demônios e anjos caídos tenha sido uma invenção dos sacerdotes para espiar a culpa da humanidade. Deve ser essa a causa principal da vinda de Jesus encarnado. Deus desejou por ordem no galinheiro.

Com uma única frase o Zenon me arrastou, ainda mais, para o centro do pântano. É horrível acordar. Sei o tamanho da encrenca que me espera, a cada manhã, todos loucos para me tragar, a começar por mim. Em dores deixo o meu leito.

Além de todas as cobranças que faço a mim mesmo como um mantra, diariamente, ainda precisarei dar respostas a ninguém menos que minha esposa e meus filhos, fora todos os outros. Respostas as quais não tenho. A angústia existencial por ser livre.

Se eu estivesse na prisão, bastaria dizer: desculpe, no momento não posso fazer nada. Se escravo fosse, não haveria nenhum celular a tocar e voltaria para casa depois de uma dura jornada de trabalho e seria recebido com unguentos e muito chamego, apesar de não trazer nada nas mãos.

Depois Jesus vem com aquela pegadinha nos comissionando a cuidar dos espíritos em prisão, como se fossem meia dúzia de gatos pingados. O Nazareno falava da humanidade inteira, apenas. Mas não, sou livre. Livre para decidir, para fazer e resolver. Isso sim é torturante.

Não tenho nenhum bode expiatório e o mundo virá sobre mim. Nada que eu faça ou deixe de fazer será satisfatório, nem para mim e muito menos para os que de mim esperam algo. Isso sim é miséria e faz de mim um maltrapilho, um farrapo humano engrutado.

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7 thoughts on “Escravos da Liberdade

  1. Concordo!

    A liberdade nos dá uma sensação (por vezes) pior do que quando estamos presos.

    Pois ela (a liberdade) dá margem para as coisas que não fazemos, seja por nossa incompetência, preguiça ou falta de vontade.

    Muito boa, gostei!

    Então pense sempre duas vezes antes de desejar ser livre. 🙂

  2. Esse negócio de liberdade dá medo mesmo. Mas dizem que é bom. Pelo menos li isso uma vez lá em Gálatas. Um dia ainda vou experimentar isso.

  3. Liberdade,eu conheço uma:o bairro oriental aqui em São Paulo.
    Vivemos trocando conceitos sobre liberdade,nem sabemos o que
    é isso…do que é abstrato só podemos ter conceitos.

  4. “O Homem está condenado a ser livre”.
    “Eu estou condenado,a existir para sempre para além da minha essência, porque não somos livres para deixar de ser livres.A existência é um vômito.”Assim, seria o próprio homem o definidor de sua essência, e não Deus.”-Jean Paul Sartre-(existencialista ateu).

    LIVRES PARA AMAR

    O ser humano sempre buscou Liberdade:”Libertas Qaue Sera Tamen”,foi o lema da Inconfidência Mineira.

    Deus,é o definidor da essência do homem como advoga o existencialismo cristão de Kierkegaard.

    A liberdade cristã pressupõe responsabilidade.

    Como é difícil sermos responsáveis pelas nossas vidas,de nossos queridos,etc…nos sentimos culpados.Culpa?”Se o Filho do homem vos libertar verdadeiramente sereis livres”.

    A Liberdade cristã é precisamente estar livre para amar e servir a Deus e aos homens.

  5. Um bom remédio é seguir as massas ir a um estádio qualquer e xingar o Juíz. Dois coelhos são mortos com uma só cajadada: exerce-se a liberdade e já condena-se o culpado.
    Acho que sempre gozei bem de minha liberdade, pois sempre fui rotulado de irresponsável (ou seria o contrário?)

  6. Liberdade…

    eu desconfio que isso é saber que a vida é eterna e se por a pensar o que fazer nela e depois experimentar as hipoteses e, se errar repetir os esquemas e tentar outra vez e ainda outra e ainda outra…até que a “Solução para Sempre” apareça e se estabeleça…

    Ah! Essa tal de vida eterna desloca as referências e muda tudo!

    Ou não crer em nada disso e viver no inferno do supositório de ser livre e passageiro!

  7. O incrível da liberdade é que quando nos lembramos dela e quando dela falamos, sentimos que perdemos um pouco dela, ou um pouco da sensação de saber o que ela é. Liberdade aqui no sertão é uma veredazinha no mato fechado, que dá pra lugar nenhum, sendo só o fato de estar nela prosseguindo…

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