A Gruta do Lou

Épica e Lírica – Tradução em parte

Em Sobre o amor e a morte, Patrick Süskind confronta ao lírico Orfeu – humano e criador mítico das primeiras canções – com Jesus de Nazaré.

  • {Orfeu} havia perdido sua jovem esposa mordida por uma serpente venenosa. E está tão desconsolado com esta perda que faz algo que pode nos parecer demente, mas também completamente compreensível. Quer devolver vida a sua amada morta. Não é porque colocou em dúvida o poder da morte nem o fato de que ela teve a última palavra; e muito menos se trata de vencer a morte de uma maneira representativa, em beneficio de toda a Humanidade ou de uma vida eterna. Não, só o que quer é que lhe devolvam a ela, sua amada Eurídice, e não para sempre e eternamente, senão pela duração normal de uma vida humana, a fim de ser feliz com ela na Terra. Por isso, o descenso de Orfeu ao submundo não deve interpretar-se em modo algum como uma empreitada suicida, e sim como uma empreitada sem dúvida arriscada, porém totalmente orientada à vida e que inclusive luta desesperadamente pela vida (…)
  • Temos que reconhecer que o discurso de Orfeu se diferencia de forma agradável do tom rude de comando de Jesús de Nazaré. Jesus era um orador fanático, que não queria convencer senão a quem reclamava uma servidão incondicional. Suas manifestações estão salpicadas de ordens, ameaças e do reiterante e apódico “porque eu vos digo”. Assim falam em todos os tempos os que não amam nem querem salvar a um só homem, e sim a toda Humanidade. Orfeu, por outro lado, somente ama a uma e a ela apenas é que quer salvar: Eurídice. E por isso seu tom é mais conciliador, mais amável (…)
  • O nazareno nunca comete erros. E mesmo quando parece cometer-los – por exemplo, ao admitir a um traidor em seu próprio grupo – o erro está calculado e forma parte do plano de salvação. Orfeu, por outro lado, é um homem sem planos nem habilidades sobre humanas e, como tal, capaz em qualquer momento de cometer um grande erro, uma incrível estupidez… o que faz com que nos pareça novamente simpático. Se alegra travessamente – quem poderia pensar mal dele? – de seu êxito. Conseguiu algo que, antes dele, ninguém havia conseguido.

A tarefa é ler e refletir até aqui. Na próxima postagem, incluirei alguns comentários sobre esse post e as afirmações de Suskind.

Nota:

Infelizmente o Athur ( o caozinho recém adotado por nós) não resistiu e veio a óbito hoje às 13:10. Nós o internamos na clínica de origem em S. Paulo, com sérias dificuldades respiratórias, ontem às 19:30. O pessoal médico fez o possível, mas não conseguiu evitar o pior. Agradeço a todos pelo carinho, orações e preocupação.

2 thoughts on “Épica e Lírica – Tradução em parte

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