A Gruta do Lou

Ensino público de qualidade


Na foto: Luiz Henrique (Lou) Mello e Lélio Machado Bittencourt, formandos de 1968

José Maurício de Oliveira*

Sei o quanto minha mulher e eu tivemos de ralar (e ainda ralaremos…) para garantir às nossas filhas o acesso ao conhecimento necessário para que possam governar suas vidas com autonomia e responsabilidade. Me considero um cara de sorte. Salvo alguns perrengues com as Serasas da vida, conseguimos até aqui pagar pela formação delas o que parte considerável dos brasileiros talvez não consiga juntar numa vida inteira.

Não estou entre os que vêem no ensino formal a solução para todos os males da humanidade. Nem entre os que apontam o dedo para o Estado, responsabilizando-o exclusivamente pelas hordas de analfabetos funcionais ejetadas ano após ano das carteiras escolares para o mundo. Minha mania de juntar tudo com tudo (alguns definem isso como visão sistêmica) costuma sorrir diante de simplificações marqueteiras. Mas ainda não estou tão louco a ponto de desconsiderar que haja aqui uma questão, sim, e das mais cabeludas.

Nem poderia deixar de fazê-lo. Não acredito no ET de Varginha, mas sou testemunha de que já houve ensino público de qualidade. Aqui mesmo, no Brasil de Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Maria Nilde Mascelani, Olga Bechara e tantos outros trabalhadores da Educação que insistiram (muitos ainda insistem) em levar o ofício a sério.

Mais do que ver, vivi. Salvo uns poucos anos em que estudei, por conveniência familiar, no glorioso Externato Pequenópolis, toda a minha formação se deu em escolas públicas. Atribuo boa parte do que sou (para o bem e para o mal…) a uma delas em particular: o Ginásio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha (GEVOA).

Obra de gente que não só acreditava num outro mundo possível, mas arregaçava as mangas e pegava pesado no batente para construí-lo. Nos espaços públicos, onde se dá a vida em sociedade. Num tempo em que isso ainda parecia viável (tenho dúvidas quanto aos dias de hoje, o que não quer dizer que não valha a pena morrer tentando).

Experiências como as dos ginásios vocacionais, na rede pública dos anos 60, guiavam-se por por uma palavrinha hoje meio fora de moda: práxis, essa estranha categoria dialética (outra palavrinha meio fora de moda) que teima em conectar reflexão e ação, o conhecimento da realidade e o ato que a transforma.

Transposto para o ensino formal, o conceito revolucionou currículos, métodos e práticas pedagógicas. Mais do que despejar informações enciclopédicas e desconectadas entre si, tratava-se de ensinar moleques como eu a serem sujeitos no mundo, a lidarem com a indissociabilidade das coisas da vida.

Na virada da maré, muitos dos responsáveis por tamanha ousadia acabaram pagando um preço alto – prisões, torturas, perseguições e tantas outras “gentilezas” destinadas aos que se atreveram a nadar contra a corrente da modernização conservadora, imposta a ferro e fogo pelos militares brasileiros em nome dos interesses privados que ainda hoje se alimentam do saque a descoberto contra a vida e o futuro.

No momento em que somos obrigados a lidar com o estrago que aqueles senhores, seus beneficiários e sucessores seguem causando, vários de nós, que tivemos o privilégio de antever o mundo que sonhamos para nós e nossos filhos, acreditam que o bom e velho Vocacional ainda tem o que ensinar.

A lição principal: se já existiu um dia, o ensino público de qualidade pode, sim, voltar a sê-lo. Nem que para isso tenhamos de reinventar a própria noção de espaço público, algo que pode soar um tanto exótico num tempo em que tudo se curva perante o altar do Deus-Mercadoria..

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Se você teve paciência para chegar até aqui, recomendo que fique mais um pouquinho e veja logo aí abaixo o documentário “Sete vidas eu tivesse…”, sobre o ensino vocacional no Estado de São Paulo, produzido em 2006 pela Turma de 1963 do GEVOA para comemorar os quarenta anos de nossa formatura. No embalo, ajudamos a criar o GVive, a associação dos ex-alunos das seis escolas públicas que, em 1969, foram impedidas de seguir seu curso inovador, após uma intervenção brutal do regime militar.

Na próxima quinta-feira (6/8), o documentário será exibido no SESC Paulista (avenida Paulista 119) junto com outros filmes e vídeos que resgatam a história dessa experiência. A mostra começa às 17h30. Se você estiver em São Paulo, dê um pulo lá para debater com a gente o que podemos fazer para democratizar o acesso ao conhecimento e ajudar a reconstruir o ensino público no Brasil. Seus filhos e netos agradecerão.

Clique em Play Now para ver o documentário. Ou aqui, para assisti-lo na TV Mercado Ético.

Sete vidas eu tivesse…: Play Now| Play in Popup


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José Maurício de Oliveira é jornalista, diretor de Redação do Mercado Ético.

# Publicado aqui sem qualquer autorização prévia do autor, meu colega de classe no Vocacional, mas com a boa intenção de replicar entre os leitores da Caverna uma iniciativa em favor da educação que aconteceu entre 1962 e 1969, da qual fiz parte como aluno durante seis anos. O ensino vocacional era a esperança de uma educação correta e democrática, portanto libertadora. Se a ditadura militar agindo pela pena e forças policiais do Sr. Laudo Natel, então governador do estado, não a tivesse abortado, ante a perspectiva de vanguarda da escola, nossos filhos e os filhos deles estariam sendo educados por uma escola pública de qualidade, nos nossos dias. Não deixe de ver o vídeo, inclusive fiz uma ponta nele para dar moral ao pessoal. Não perca!

1 thought on “Ensino público de qualidade

  1. Boa reflexão…ele só esqueceu de citar Paulo Freire, meu conterrâneo, arroxado e arrojado de bom na educação!

    De fato o Paulo Freire foi um pedagogo importante, se não o maior. Creio que a idéia do autor era só nivelar os mentores do Vocacional a grandes proponentes de modelos educacionais e citou alguns, apenas, que não eram especialistas em educação, como o Darcy Ribeiro, por exemplo. A Proposta Vocacional foi impressionante e, até hoje, não fizeram nada parecido, embora ela tenha sido superada pelo tempo, a globalização e a revolução cibernética.

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