A Gruta do Lou

Em defesa da Auto-Ajuda só digo sim


Vira e mexe leio ou escuto neguinho falando mal da Autoajuda. Tudo bem, entendo a necessidade em manter-se alinhado com o ayon tos kosmos (o curso do mundo, a moda, onda, etc), mas seria bom avaliar, nem que seja de leve, as consequências de nossas opções, não tanto pelo que elas nos fazem ou poderão fazer, pelo menos, mantendo um certo cuidado com o quase esquecido próximo (aquele cidadão que Jesus Cristo tinha em mente quando citou explicativamente o que seria fundamental nos mandamentos do Pai dele).

Se não me engano, uma pessoa só chega ao status de misericordioso depois de comer o pão produzido nas fornalhas do inferno. Gente que não sofre tende a ser insensível. Quando penso nisso, chego até a ser mais indulgente com Deus e essa mania dele fazer de conta que não é com ele quando um filho da gente é vitima de alguma dessas sequelas provenientes das tais conquistas da humanidade capazes de mutilar o sistema circulatório de um bebezinho inocente qualquer ou outras catástrofes semelhantes.

Comigo não foi diferente, depois que uma desgraça dessas atingiu o meu filho e a nós por tabela, sai fazendo todo tipo de caridade possível e imaginável. Distribui quase tudo de valor que possuía, como carro, computador, roupas e só não dei mais porque minha prudente esposa me segurou. Mas nem por isso consegui me livrar de um horroroso complexo de culpa que invadiu meu coração, somando-se aos outros pré-existentes. Descobri que essas ações tresloucadas de caridade tardia só servem para purgar a ferida e aumentar a dor que já é insuportável, embora não seja mais capaz de livrar-me essa dependência psíquica.

De outro lado, esse marco na vida ou quem sabe um rito de passagem à moda de Deus atirou-me completamente nessa sina de misericórdia às avessas onde o legal não é dar, mas receber. É isso mesmo, não contente em nos impingir uma desgraça dessas, cujas soluções custam os olhos da cara, sem falar na arrogância e prepotência de médicos, psicólogos, advogados e outros, que somos obrigados a enfrentar a cada novo dia, o velhinho danado de barba toda branca nos atira na mais completa penúria a fim de nos tornar dependentes da generosidade alheia, conhecendo muito bem a escassez desse produto no mercado.

Para completar o quadro, nós brasileiros da gema, que temos sangue branco, negro e índio correndo em nossas veias e artérias, somos devidamente preparados através de uma educação caolha que começa em casa e se completa nos famosos bancos e cadeiras escolares, quando não recebe os adendos místicos religiosos, para sermos os mais puros e completos obnóxios (gente servil) que a vã filosofia poderia imaginar. Dificilmente haverá no planeta gente com autoimagem e autoestima pior do que a nossa. Some-se isso aos preceitos católicos e/ou evangélicos recheados dos complexos identificados por Freud e seus discípulos malignos, mais a impiedade dos joios implantados pelo destruidor de plantações de trigo alheias e pimba, estamos nós aqui devidamente ferrados.

Esse mal não atinge só os pobres, os negros, os gays, os preteridos e os endividados, gente famosa e rica como os pilotos brasileiros de Fórmula Um, Rubens Barriquello e Felipe Massa esbanjam complexo de vira latas por aí, sem falar nos locutores globais e seus imitadores das outras emissoras, todos apologistas do pior pessimismo possível, quando se trata de avaliar um de nós. Isso pode ser visto em centenas de outros esportistas de nossas seleções nacionais ou atletas de esportes individuais, sempre levando biabas homéricas dos imperialistas norte americanos e europeus, sem falar nos hermanos argentinos, igualmente obnóxios, embora menos do que nós, o suficiente para nos lembrar, de vez em quando, nossas miseráveis personalidades em frangalhos.

Em meio a tudo isso, um ou outro psicólogo cristão sofredor misericordioso descobre um remédio, que se não cura, ajuda bem a suportar as dores de nossa doença incurável, aparentemente, ou seja, ler desesperadamente livros de Autoajuda. E mais, ver vídeos de auto ajudadores e ouvir áudios dessa gente bondosa, a tempo ou fora dele.

Ah, mas você fará questão de lembrar-me o número incalculável de porcarias escritas e classificadas como Autoajuda. Só quero lembrar-lhe de um detalhe, a ti-ti-ca é tanta, quando andamos pela rua, especialmente quem mora no Rio de Janeiro ou no centro velho de São Paulo que a única forma de caminhar é sendo exímio em desviar-se dela. Mesmo assim vez por outra, algo respingará em nossas roupas, quando não for na cara mesmo. Então não me venha falar essas besteiras obvias. Sempre acharemos um jeito de caminhar para lá e para cá.

Meu, gente complexada e cheia de síndromes como nós brasileiros (e toda regra pode ter exceções) tem como seu maior inimigo o tal do Mr. Ego. Esse cara é tão sutil e rasteiro que tem a manha de viver dentro de cada um de nós, enchendo o nosso saco quando estamos acordados e até enquanto buscamos descanso no sono. Mr. Ego odeia palavras e frases originárias nos livros de Autoajuda, aliás, vale lembrar que todos os caras que evidenciam seu horror à Autoajuda estão apenas confessando serem totalmente ególatras, egoístas enfim, gente individualista e insensível. Você sabe melhor do que e de quem estou falando.

Agora vem o meu golpe fatal, a espada ferindo mortalmente o pobre irmão touro na arena de pecado e prazer em algum lugar de Madrid e/ou Barcelona. Para mim, Jesus conhecia os brasileiros, embora nós ainda nem estivéssemos nos melhores mapas quando ele pisou esse planeta condenado a explodir no fim. Verdade, tudo que Jesus disse soa para nós, meros seres sem qualquer autoestima e menos ainda algum tipo de autoimagem que se preze, como antídotos contra esse ser sabotador e terrorista que vive dentro de cada brasileiro autentico.

Jesus deve ter lido alguns provérbios de certo ancestral chamado Salomão que diz: Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração (a mente) pois dele procedem as saídas da vida” (Prov. 4:23) e o demônio sabe bem disso. Por isso somos tão sensíveis à vida em igrejas e quanto mais pudermos ouvir palavras ante ego perdedor, tanto melhor. Os caras que pregam o evangelho de olho em Kenneth Hagin, Kenneth Copland, Benny Himm ou em suas fontes originais, como Norman Vincent Peale, Joseph Murfy, Catherine Ponder, Prentice Milford, Napoleon Hill e Harry Emerson Fosdick, coincidentemente, todos produzidos pela grande depressão americana que os fez ver bem melhor onde ficava o buraco, ou ainda, o moderno Segredo de Honda Birne e seu apóstolo Bob Proctor, nos fazem sentir como mais que vencedores em Cristo Jesus e seu evangelho todo auto ajudador.

Meu querido leitor ou grutense de carteirinha, se você não é brasileiro, seja por não ter nascido aqui ou por não ter sido vitima de nossa educação catastrófica e destruidora do nosso melhor, ou as duas coisas, sente-se bem e não vive dizendo sim a tudo, como aquele caricato personagem do filme Yes Man, brilhantemente interpretado pelo impagável Jim Carrey, e não precisa ler o evangelho como um reles livro de autoajuda, transformando cada palavra do Grande Mestre de Nazaré da Galileia em porções motivadoras, nem mesmo qualquer um dos milhares de livros bons ou maus classificados como tal, bom para você. Embora eu duvide que você nunca tenha lido nada desse tipo ou com esse enfoque ou nunca tenha se debruçado aos pés de Malafaya ou Edir Macedo, bebendo um ou outro gole das bobagens otimistas que eles destilam. Tenha um mínimo de misericórdia para com as pessoas que necessitam dessas palavras para sobreviver minimamente equilibradas, antes de serem internadas num desses antros para loucos como os que temos aos montes aqui em Sorocaba e região.

Meu amigo e minha amiga, não tenho como mensurar quantos livros de Autoajuda já li. Creia-me, foram muitos. Entre eles, grandes porcarias, mas muitos deles foram e continuam sendo muito bons para mim. Só para não deixar de citar algum, no meu criado mudo você encontrará “Pense e Enriqueça” do Napoleon Hill, A Mente Milionária de T. Harv Ecker e o Segredo da Rhonda Byrne, sustentando a minha Bíblia de quarto, que mantenho cuidadosamente à vista para espantar os demónios que nos assaltam enquanto dormimos. Mas o melhor de todos para mim é o velho “Poder do Pensamento Positivo” do Norman Vincent Peale, que dificilmente chega às minhas mãos. Indico ainda todos os livros do Emmet Fox e os outros do Napoleon Hill. E não vá pensando que eles estão no meu quarto ou nas minhas estantes só para enfeitar ou servir de apoio para livros mais nobres, como os do Nietzsche, Kierkegaard, Borges e a sagrada Bíblia, eles estão ali porque os leio vorazmente e sem dar tréguas ao inimigo sabotador.

Sem eles eu definho, apodreço mercê dos obstinados trucidadores de gente fraca e perdedora como eu, que só vira o jogo com Cristo no barco, mas não pode descuidar da mente, onde o inimigo planta seu joio maligno toda vez que baixo a guarda.

2 thoughts on “Em defesa da Auto-Ajuda só digo sim

  1. Eu costumo dizer que um livro me derrubou (“Eu amo você” de Jaime Kemp), e que outro me reergueu (“A Cabala da Autossuficiência”, de Eduardo Stein).

    O primeiro alimentou ilusões que me enredaram. O segundo, me empurrou para tomar atitudes mais ousadas, que até então não tomaria.

    1. Putz, você me lembrou algo importante, se com você foi o livro do Jaime que o derrubou, comigo foi o próprio Jaime em pessoa. Agora, não tive o prazer de ler A Cabala da Autossuficiência, mas sei bem que onde a Cabala está, as coisas funcionam. Por isso não tenho como não crer em você e não ter dúvidas que você realmente tomou as atitudes mais ousadas que antes não tomaria. Em sua defesa posso acrescentar que trabalhei um tempinho com o Jaime em Vencedores por Cristo e sei que ele sempre foi um ótimo pai, excelente marido, bom amigo, costumava me pagar o café e ainda me dava boas ofertas. Os únicos defeitos dele, de que me lembro, era a sua dificuldade em escrever livros e fazer conferências, embora ele pensasse exatamente o contrário.

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