Eli Eli, lema sabactâni

abandono

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A primeira vez que John Stott esteve no Brasil, mencionou as peças Godspel (onde Jesus era um cara meio gay) e Jesus Cristo Super Star (onde Jesus foi transformado em um guerrilheiro), tentando demonstrar os desvios que tiravam as vistas do foco principal. Essas peças aconteceram durante a década de setenta.

Na segunda metade da primeira década do século vinte um, a impressão é que houve uma mudança de tática. Se naquela época, tentavam estabelecer outros perfis ao nazareno salvador, agora não se fala mais dele, ou seja, é melhor deixa-lo cair no esquecimento.

Muitos me repreendem por eu andar a repetir que Deus me abandonou. Mas poucos lembram que foi o Mestre Galileu quem sentiu a mesma coisa  primeiro e há mais de dois mil anos. Afinal não foi ele quem gritou do alto da cruz: “Eli Eli, lema sabactâni que quer dizer Deus meu, Deus meu por que me desamparaste?” MT 27:46

Sabe, chegou um momento que das duas uma: ou Deus pai tem propósitos tão elevados que não nos compete entender ou ele é um Deus, que na hora do vamos ver, corre do pau. Não me sai da cabeça essa cena do abandono de Jesus. Fico pensando essa coisa óbvia e enlouquecedora: Se ele abandonou o próprio filho na hora H, o que não fará comigo, esse microcosmo perdido na imensidão desse mundo do diabo.

Só há uma verdade crível aqui: Jesus teve que se virar por seus próprios meios. Deus não o livrou da prisão, do sofrimento, do escárnio, do flagelo, da humilhação, da traição e do abandono. Também não se fez presente nem antes, nem durante e muito menos depois da crucificação. Nem mesmo disfarçado de pombinha branca. Ficou quietinho em alguma galáxia bem distante desses acontecimentos fúnebres, envolvendo seu único filho. Então Jesus fez a única coisa possível: Suportou as dores.

A certa altura de sua trajetória missionária, Jesus disse ao povo e em especial aos discípulos: Quem quer me seguir tome a sua cruz e siga a minha. Em outras palavras, suporte as suas dores.

Que evangelho é esse? Por que tanta música de exaltação, de louvor, de alegria e êxito? A única música plausível é o lamento. O tempo não é de exultar, agora é tempo de lamentar. Jesus suportou suas dores e nos deixou um desafio desairoso, ou seja, fazer a mesma coisa.

Esse evangelho não enche igreja. Não enche os gazofilácios e não satisfaz o apetite dos pastores obesos. Quando as pessoas encontrarem suas cruzes, elas que busquem uma gruta qualquer. Ao saírem, descobrirão o grande segredo: Deus não está no vento, no terremoto ou no fogo. Sua voz surge mansa e suave depois dessas escaramuças. Jesus gritou e esperneou naquela cruz indigna, mas não ouviu nada. Acabou sepultado na Gruta de José de Arimatéa. Se por um lado o sofrimento nos leva direto para o lugar celeste, ele nos ensurdece, também.

Deus não é nada do que se diz. Essa gente fala do que não sabe e, muito menos, viu. Amaldiçoados serão seus seguidores, igualmente.

Deus meu, por que me desamparaste?

lousign