É proibido dançar II

 Postado originalmente em 16 janeiro de 2006

É proibido dançar nas igrejas protestantes brasileiras. Quem disse que ela não tem nada em comum?

Passei uma grande parte de minha vida dançando. Nos anos 60 dancei muito nos famosos bailes de formatura sob a música competente de Waldomiro Lenke, Edgar e os tais e Cia. No Vocacional, dançamos “O pezinho”, “Balaio” e outras danças folclóricas. Dancei nos inesquecíveis Mingaus do Clube Pinheiros, Circulo Militar e Banespa com o Kompha, Memphis, Folhas, Watt 69 e tantas bandas espetaculares. E de quebra, era sócio do Indiano onde dancei durante muito tempo, em todos os tipos de eventos dançantes. Na faculdade de Educação Física fiz parte do grupo de dança folclórica Lituana. Além de tudo isso, frequentava os incontáveis bailinhos domésticos onde Beatles, Jonny Rivers, Bee Gees, James Taylor, Carole King e outros davam o tom para dançarmos, sem falar das boas casas de dança espalhadas pela cidade de São Paulo. Tudo isso aconteceu até meados de minha conversão ao protestantismo evangélico.

Dançava porque a dança representava a alegria. Com ela comemorávamos os melhores momentos de nossas vidas. O aniversário, a formatura, o casamento, o sábado de aleluia e todos os momentos felizes de nossas vidas.

Já convertido, minha esposa e eu começamos a namorar dançando no Wiskadão, boate lá na Ilha Pochat. Depois disso, só dançamos em festas de aniversário da família e raramente.

Assim, graças ao cristianismo niilista, a dança saiu de minha vida. Não dançar era melhor do que o sentimento de culpa, depois.

Na verdade, nunca entendi o porquê dessa proibição, nas Igrejas. Suspeito de algo relacionado ao contato físico e seus desdobramentos entre os dançantes, mas ai, como os casais fariam para encomendar seus bebes, inclusive o casal pastoral? Não deve ser essa a razão. A relação do casal na intimidade de seu quarto não é uma dança? Ah, mais ninguém está vendo. Sei lá.

Segundo me disseram, o Frei Rosário, lá da Igreja do Jardim Prudência, gostava de dançar, se bem que com os meninos, preferencialmente. Os Rabinos costumam dançar. Em Israel, dança-se até não poder mais. Em Igrejas americanas a realização de bailes para os jovens é comum. Em Portugal, pasmem, dançam por todos os lugares.

O pior é ficar vendo dança em tudo e em todo lugar. Vejo os pássaros em sua dança diária, os animais dançando por pura diversão, os trabalhadores da fábrica dançando, os negros na África do Sul, cristãos na maioria, dançando na alegria e na tristeza, na época do Apartheid. Até os cristãos dançam, só não vale homem com mulher juntinho. Lembra sexo? Não, deve ser outra coisa.

Dizem os mais entendidos, em vários textos onde se lê: “Vamos cantar e adorar” suprimiram o “vamos dançar”. Mas, eu não acredito nisso.

Talvez, Davi tenha cometido um grande desatino ao dançar em plena rua e sob o olhar de reprovação de sua esposa. Não sei se a proibição é em relação à dança ou condena-se a alegria.

Fico imaginando o Pastor niilista chegando no céu. Eu sou o Pastor Jon… dos… Eu nunca dancei na vida. Nunca permiti às minhas ovelhas e meus filhos dançarem. Ai Pedro lhe responde: é mas, você dançará agora!

No entanto, apesar de meu sentimento de frustração, para a Igreja protestante brasileira, é proibido dançar.

Capricornio PB