E a Bíblia não tinha razão

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Haiti após terremoto

Se eu tivesse nascido um haitiano ou morador de uma dessas encostas da vida, nunca experimentasse outra coisa diferente de minha origem e passasse as duas últimas semanas sob lajes ou lama, me desidratando enquanto vivesse sob a tortura de quem imagina seus últimos momentos nesse mundo, para ser resgatado por uma equipe de bombeiros finlandeses ou seu oposto intelectual dos quartéis nacionais finalmente, pensaria então: melhor seria morrer.

Apesar disso, não seria mais infeliz do que ser criado sem grandes sustos, com boa comida na mesa, pais trabalhadores que me proporcionaram segurança, boas escolas, certo conforto e a liberdade de optar pelo saber e em quem votar, indiferente ao tipo de bolsa oferecida.

Creio estar cumprindo o mesmo roteiro com os meus filhos para, no final, descobri-los eternamente insatisfeitos e infelizes. Vejo os meninos humildes da vizinhança sorocabana, cujo treinamento para seus destinos simplórios e inexoráveis se dá em uma escola pública com seus problemas crônicos, onde a curtição maior é o punk com axé e a atividade mais intelectual é jogar baralho em duplas, sem o menor interesse pelo que se passa nas salas de aula.

Enquanto isso, os pais deles encaram horas intermináveis colocando o mesmo tipo de peça em uma máquina gigante ávida por decepar-lhes os dedos ou vivem dos proventos da indústria da construção, que também não lhes poupa as mãos recheadas de calos. Essa gente esculachada e base eleitoral do atual governo me olha de cima a baixo e trata-me como o lixo e escória do qual gostariam de livrar-se na primeira oportunidade.

Esses equívocos educacionais são paralisantes com efeito eterno. O presente mundo só tem lugar para dois tipos de pessoas, a minoria destinada a ser servida e a maioria destina a servir a primeira. Quem ousar não se adaptar, coisa que fiz sem perceber, será devidamente esmagado pelas duas opções.

lousign