A Gruta do Lou

Dom Casmurro, o mestre do Desenvolvimento

Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.”

Machado de Assis em Dom Casmurro


Queria escrever, em um só post, sobre dois assuntos. Primeiro homenagear os cem anos da morte de Machado de Assis. Somos um povo engraçado, nós os brasileiros, é verdade, vivemos de glórias passadas embora as tenhamos poucas. Nossas maiores expressões internacionais nos foram legadas pela mãe África, não tendo ela própria, quase nada a recordar. Ainda bem que Mandela passou vinte e seis anos na prisão, pelo menos deu ao continente algo de que se orgulhar, pouco interessa o preço que ele pagou. Quanto a nós, temos o Machado de Assis e o Pelé. O paradoxo é que o primeiro tenha alcançado a expressão internacional, se bem que, muito mais devido à presença de brasileiros no exterior, sobretudo em Nova Iorque, do que a algum maior reconhecimento por sua obra literária e de alcance infinitamente menor do que o segundo, alcançado via peripécias futebolísticas em gramados do planeta. Pouco importa se o homem vale as calças que usa. Depois deles, alguns outros esportistas tupiniquins se destacaram, mas nada muito dignificante. Se comparados aos russos, não somos mais do que a agulha perdida no palheiro.

Em segundo lugar, desejava falar mais alguma coisa sobre o tema de nosso encontro amanhã, em São Paulo: O Desenvolvimento. A primeira vista, uma palavra solta e genérica aplicável a tudo em vias de crescimento. Parece, mas não é. Para mim, depois do Dr. Dale Kietzman ter passado por minha vida causando o maior estrago da paróquia, desenvolvimento tem tudo a ver com fundraising. Ah! Agora entendi tudo Lou. Pois é, nós brasileiros somos assim, entendemos quase tudo sobre o que não tem a menor importância e pouco sobre o relevante. Isso me lembra o Irland Pereira Azevedo advertindo: cuidado com as palavras generalizantes, se possível não as use, tal como: tudo, nada, todos, ninguém, sempre, etc… Fazer o que, quando se trata de nossos feitos e defeitos.

Queria encontrar um jeito de juntar Machado e Desenvolvimento. Imaginei algum comentário criativo do tipo: Só você mesmo Lou, para juntar dois temas nada a ver e nos fazer rir. Foi aí que bati o olho nessa frase de Bentinho: “Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era”. Você não sabe ainda, mas tenho muita coisa em comum com o Machado. Lembro de minha mãe, aquela figura ausente de minha educação, mas a grande responsável por quase todos os meus traumas, segundo Freud, me chamando: Então? Até quando ficará aí ensimesmado feito um Dom Casmurro? Acho que eu vivia engrutado desde a infância, bastava me contrariar. Ainda posso sentir o sangue correndo freneticamente em minhas veias por causa das meninas escondendo seus escritos de mim, provavelmente, a respeito de mim. Aquilo me dava a força de dez trens e, enquanto não descobrisse os segredos inclusos, geralmente, nos tais malditos diários delas, era capaz de mover montanhas para o mar.

Isso sim me dá enorme prazer: encontrar o ponto de intersecção entre duas matérias aparentemente tão distantes uma da outra. Machado tem tudo a ver com Desenvolvimento, segundo a minha concepção dessa palavra, pelo menos. Ele conseguiu a maravilhosa graça de fazer as pessoas desejarem ler, tanto quanto Bentinho e eu desejávamos ler os escritos de nossas Capitús em seus diários ou muros. O Desenvolvimento é o segredo, revelado a mim pelo exótico Dr. Dale, capaz de fazer as pessoas brasileiras, da Àfrica ou da Europa, não importa, desejarem descobrir o que está escrito nos muros dos miseráveis e o que isso pode ter a ver com nós mesmos. Claro que o Machado não tinha nada dessa nobreza em mente quando escrevia as escaramuças de Bentinho e sua Capitolina. Ele estava sendo Dom Casmurro, apenas. Mas todo mundo por aqui acha algo de bom em suas palavras, mesmo que ele não tivesse esse intento. Por que não posso achar algo de bom nas palavras de nosso único e maior escritor?

Uma coisa é certa, ainda precisamos, como povo, ser educados sobre o valor da contribuição, até o ponto de desejarmos contribuir com todas as nossas forças, não apenas com um quilo de alguma farinha química qualquer com o vencimento estourado. Isso o Desenvolvimento pode fazer por você e por mim. Se não for possível implementar um maldito projeto de desenvolvimento que seja, entrarei na vida de algum jovem Bentinho qualquer e tratarei de injetar nele o soro do Desenvolvimento, como aquele sonhador do Dr. Dale fez comigo. O moleque que se vire depois, com esse peso em sua consciência.

5 thoughts on “Dom Casmurro, o mestre do Desenvolvimento

  1. Lou, desejo sucesso amanha no bate papo. Vou ver se consigo chegar em tempo, mas nao posso prometer.

    Será que vc vai conseguir juntar dois tipos de assunto diferentes?

    não basta um? rs.

    Um grande abraço e uma ótima semana

    Então, os dois assuntos eram parte só desse post. No encontro, conversaremos sobre desenvolvimento (Relações Públicas e Captação de Recursos) em organizações sem fins lucrativos. Isso inclui igrejas, associações, etc. Será legal se você conseguir participar. Os links estarão à disposição aqui na Gruta, bem como a transmissão em vídeo, se funcionar, claro.

  2. Golpe baixo, falar justamente do livro que estou lendo e da reunião que estou perdendo, como para me deixar com água na boca e sentimento de culpa. Pareço Bentinho, que vivia com os dois…
    Mas não há de ser nada. Outros rabiscos no muro virão e aí minha afilhada não vai poder fazer muxoxo se eu faltar ao seu evento para ir ao teu. Um no cravo, um na ferradura, não é?
    Felicidades amanhã.
    Ab

    Sim, outros encontros virão e estaremos juntos para “avaliar” o desempenho de nossos colegas. Fique em paz e aperte o abraço na afilhada, um pouco mais, por mim.

  3. Espero que amanhã seja um marco da história do “Desenvolvimento”.
    Não deixe de colocar na ata da gruta, pois estou ansioso para saber sobre a primeira das muitas reuniões e realizações que irão acontecer.
    Deus os abençõe…boa sorte!

    Agradeço muito e com humildade.

  4. Essa sensação de querer ver o que foi escrito é tão interessante que acho que essa frase descreve bem “Não te dizer o que penso já é pensar em dizer”. Um paradoxo que nos move por muitos movimentos…

    Espero que a palestra sobre Desenvolvimento tenha sido um sucesso cara…

    Obrigado. Tivemos um encontro com poucas pessoas, mas de muita qualidade. O Volney, Adiron, Andrezza e eu pilotamos o avião, mas todos tiveram participação destacada. Embora eu devesse apagar o escrito do muro, no fundo quero que você e todos saibam de tudo. 🙂

    Gostei da visita. Andava me perguntando por onde andavas. Valeu!

  5. Lou! Ia perguntar-lhe de Machado…
    Eu, aliás, tbm o prefiro ao Pelé!
    Nada sei de futebol nem pretendo.
    Relembrar Machado me lembra vésperas de vestibular, colégio, adolescência… ahhh que saudade!
    🙂

    O Machado é o nosso Clássico. Sempre haverá oportunidade para citá-lo e aprender com ele. Não sei se é legal jogar seus escritos sobre os adolescentes. Me parece que seria mais acertado deixá-lo para a fase mais adulta. Enfim, vamos indo com nossas brasileiradas.

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