A Gruta do Lou

Dobraram o Cabo da Boa Esperança

Enquanto trabalhava na mudança, sim estamos mudando, ou melhor, já mudamos. Já, já falo disso. Como dizia, no meio do “pega pra capá” (quem teria inventado tal expressão?) ora lia um texto, ora lia outro e, dentre vários, deparei-me com “Sou Cristão e você?” Me dei conta de haver escrito um texto forte.

Na época em que o publiquei, só me dei conta disso quando as reclamações começaram a chegar. Bem dizia Jesus, são os de casa que se levantarão contra nós, naquele dia.  Escrevi esse texto no estilo Saramago, sem parágrafos. Essa foi a primeira bronca, dada por ninguém menos que o Brabo, um quase ex-escritor de blog, agora guindado ao sucesso literário dos livros, ao lado dos famosos. Tudo bem, pelo menos ele merece, por ser um extraordinário escritor.

Depois outro amigo ficou brabo, digo, bravo comigo por causa dessa minha mania de avacalhar com os caras e dar nome aos bois. Naqueles dias, resolvi me desculpar com ele, não, não o citei diretamente, pois tenho respeito por ele e não sou do tipo que trai amigos. Citei a turma dele e não usei essa palavra suave. Mas me desculpei, muito mais, para não perder o amigo.

Agora, olhando tudo de novo, de fato, fui fundo. È um sentimento estranho que aparece quando começo a escrever. Certas palavras detonam o processo e, quando vejo já foi, já foi tudo pro vinagre.

Tenho grande dificuldade adaptar-me com vida do outro lado do rio, melhor dizendo, do Cabo da Boa Esperança. É, no meu tempo, quando o cidadão passava os cinquenta anos de vida, dizia-se que havia dobrado o Cabo da Boa Esperança. Tem lógica, até os cinquenta, neguinho pensa que será eterno, que viverá para ser semente e essas bobagens saduçaicas e comigo não foi diferente.

Quando ultrapassa os cinquenta, barriga caindo por cima da calça, cabelo rareando, com poucos dentes originais na boca, óculos de leitura apoiado na ponta do narigão, ele se dá conta de que o fim vem vindo. Com sorte, mais uns vinte ou trinta anos e já era. Para piorar, descobre a guerra existente e eterna, entre quem está de um lado do Cabo  e quem está do outro. Como se esse destino não fosse de todos.

Lembro como considerava ultrapassados e dinossauricos os caras com mais de cinquenta. Depois que mudei de lado, descobri como são imaturos e inoportunos os moleques do outro lado. Meu Deus, eles descobriram o comunismo, outra vez. Agem como se a intentona comunista não houvesse sido abafada com um dedo das mãos militares. Pior, não fazem a menor ideia de que a revolução russa não deu em nada e ainda matou milhões de pessoas inocentes.

Não sabemos quantos chineses, cubanos, vietnamitas, coreanos, laodianos, cambodianos, somados a gente da Mongólia, Moçambique, Somália, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (que incluiam: Rússia, Belarussia, Ukrania, Estônia, Letônia, Lithuânia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Quirguistão e Tadjiquistão); Tunísia, Yemen, Iugoslávia, Afeganistão, Albania, Angola, Benin, Bulgária, Congo, Czechoslovaquia, Etiópia, Finlândia, Alemanha Oriental, Grécia, Granada, Hungria, foram brutalmente assassinados, apenas que foram  outros tantos milhões.

Creio não me enganar se disser que o holocausto, um fato que na minha opinião existiu sim senhor Ahmadinejad, foi fichinha em termos de matança, se comparado a esse restinho de mundo comunista citado. A questão é que os judeus; apesar de Hitler, Goebbels, Menguele,  e seus seguidores; sobreviveram e voltaram a ser ricos para não deixar barato o que os nazistas fizeram com eles, enquanto os outros só puderam enfiar o pau da bandeira na mala e voltar para casa, se é que se podia achar alguma coisa ainda.

Ainda há um grupo considerável (por causa da China) que sobrevive aos trancos e barrancos, praticando um comunismo meio neoliberal e com cara de capitalismo selvagem. São eles: China, Cuba, Vietnã, Laos e Coréia do Norte, mas mantém a tirania autoritária, a violência, truculência e as mortes dos desafetos, mas em um ritmo menos intenso.

Como no meu tempo do lado de lá, a rapaziada  acha maneiro, se encanta em bradar que são de esquerda, enquanto opõem-se aos cretinos mais favoráveis aos corruptos que preferem passar férias em Aspem à Havana, a quem denominam “a direita” ao mesmo tempo que servem inocentemente aos outros corruptos, que se dizem amigos de Fidel, Chaves e Morales, mas se associam a bancos e banqueiros e buscam a vida opulenta, igualmente. Sem falar no parido preferido deles, uma vergonha que eles insistem em defender cegamente.

Nem a igreja escapa a essa equação. Uma reduzida minoria oriunda das igrejas mais burguesas de várias cidades, principalmente de São Paulo, se integra a essa esquerda burra considerando os outros cristãos todos, uma imensa maioria formada por membros de igrejas neopentecostais  a quem chamam de evangélicos, de direita cristã.

Engraçado é ver alguns caras também para cá do cabo, tentando enganar com rabinhos de cavalo em cabeças com poucos fios de cabelos embranquecidos, ou mesmo já carecões,  barrigona, usando jeans e tenis, camisa La Coste, às vezes de moto, mochila nas costas onde carregam seus Ipads, como se ao cabo não houvessem dobrado. Infelizmente, amigos, o tempo é inexorável, apesar disso ser um clichê.

O que tenho a dizer no ocaso desse texto é: não dará certo. Nos tempos da Revolução Russa o inimigo era o Tzar e seu tzarismo sustentado por um exército capenga, montado a cavalo morto de fome, com espadas, mosquetões e roupa inadequada ao inverno inacreditável daquelas terras. Derramaram bastante sangue, mas conseguiram. As outras foram todas nesse estilo, bateram em bêbados na descida. Mas agora tal façanha é impossível.

Será que  a turma do outro lado se dá conta disso. Na década de sessenta quando havia de fato uma esquerda, com partido comunista e tudo, fora o apoio soviético, os caras não conseguiram nem arranhar as forças armadas, que botou o presidente comuna para correr e assumiu o poder num estalar dos dedos. Será que eles têm ideia de quantas vezes mais fortes esses poderes estão hoje e ainda absolutamente anti comunistas e anti gente que se diz de esquerda? Vejo perplexo o fanfarrão Chaves da Venezuela, ou o bestalhão iraniano cutucando onça com vara curta.

Os norte americanos sempre havidos por uma boa guerrinha para fazerem muitos novos heróis, alguns dos quais serão seus próximos presidentes, e gastar as armas que fabricam em profusão, podem escolher onde irão dançar o próximo baile. Depois do Iraque, têm à disposição, Síria, Irã, Venezuela e, isso se esses meninos não nos meterem nessa encrenca seguindo o outro paspalhão sacana que inventou de apoiar esses doidos.

Vejo com apreensão a tal igreja da direita, liderada por esses senhores e senhoras ambiciosos que encontraram, no que eles denominam Teologia da Prosperidade, a ferramenta que lhes encanta e os torna mais que vencedores. Sinto desapontá-los, não vai aqui nenhuma preferência. Eu ficarei de fora de tudo isso, pois não tenho apetite e nem tempo para nada disso. Alias, quem está do lado de cá, precisa mesmo é ler muitos livros de auto-ajuda, cristãos ou não, para não pensar ou não ver a realidade. Bem que os escritores bíblicos avisaram da chegada do anticristo e sua turma.

OPs: Sobre a questão de nossa nova mudança, seguirá post específico.

1 thought on “Dobraram o Cabo da Boa Esperança

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *