A Gruta do Lou

Do lado de lá

Livro: A Gruta
Livro: A Gruta

Não sei se os parias que se reuniram a Davi na Caverna (gruta) de Adulão sabiam as razões que os transformaram em marginalizados. Sou capaz da apostar que não. Eles eram descartados e pronto. Talvez arriscasse sugerir que Deus permitiu o infortúnio do filho de Jessé, justamente, para ele ir salvar essa cambada de perdedores decadentes e ultrapassados.

Às vezes tenho a sensação de ser vesgo ou caolho. Minha tendência (e sei que não é o seu caso) é olhar só um lado de cada vez. Quando olho para a Gruta e vejo um monte de gente interessada em nossas ladainhas de autoestima ruim, fico sem ver a turma do lado de lá, sabe, aquela gente que veste Prada e frequenta igrejas evangelicais nos lados nobres da cidade.? Talvez, isso explique a minha insistência em tentar corrigir meu estrabismo e procurar, com todas as minhas forças, ver aquela gente, mesmo que seja pelo buraco da fechadura. Quando consigo vê-los, fica muito claro, pelo menos para mim, a razão da existência de tantos grutenses.

Algumas pessoas, caridosamente, perguntaram por que não organizar os textos da Gruta em um livro. Olha, sem entrar no mérito da qualidade desses textos, para mim a razão indispensável para tal sonho, seria necessário adular o inimigo, em particular os pastores das tais igrejas de grife, para lograr êxito em tal intento. Como eu poderia trair meus leitores de maneira mais vil do que essa?

Tempos atrás, houve o que eu chamaria de uma sondagem (que jamais será confirmada por eles) sobre a possibilidade de eu participar como preletor em uma reunião sabatina com o grupo de jovens (falar com gente da minha idade, nem pensar) de uma dessas casas de horrores. “Claro”, respondi, “desde que tenha liberdade total e irrestrita de expressão”. E tudo terminou assim. Não creio que uma participação desse tipo macularia meu currículo de dissidente subversivo. Para eventuais acirramentos, poderia levar uma bomba caseira na mala ou optar pela boa, velha e evangélica atitude de fé, com a qual Jesus foi devidamente crucificado.

Embora, nem por um segundo, me veja qualificado para a tarefa de liderar o que quer que seja, um maldito pensamento me incomoda desde minha insana decisão de escrever esse blog, ou seja, a possibilidade de Deus ter permitido certos infortúnios em minha quase desnecessária existência para abrir uma brecha aos renegados da igreja vigente. Quando essa ideia me assola grito: Para trás Satanás!

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5 thoughts on “Do lado de lá

  1. Sugestão de nome para tua coletânea de postagens: “Insulto Vertical – como não ser ninguém e assim mesmo ser relevante”
    Reserva um volume autografado pra mim!

    Sugestão aceita e reserva cadastrada.

  2. Seria muito chato o comércio do que recebeu de graça e ainda por cima, barganhar por entre os que vestem Prada, mas cada um faz a sua escolha e Deus vê o coração, né? Bem, mas a idéia da brecha é tentadora, a renegada esta peregrina quase dois anos. Só escondida cá na Gruta…

    Da Gruta sairemos para vencer e seremos chamados “Mais que vencedores”!

  3. Hi Lou…é melhor editar o seu livro em fascículos…se quiser vender para o pessoal da gruta.Por aqui o pessoal
    usa Hering, Havahianas…

    pois é, e eu querendo ajudar a vender o livro do Brabo, coitado. Também, editou o livro inteiro, com aquele montão de páginas. 🙂

  4. Lou

    Uma vez me convidaram para fazer uma palestra sobre inclusão numa APAE do interior…eu perguntei se eles sabiam com quem estavam falando e mandei ler meu blog sobre o tema.

    Engraçado que eles nunca me contataram de volta

    É, só podemos aparecer disfarçados.

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