A Gruta do Lou

Divórcio à judéia

Divórcio
Divórcio

Hoje, 10 de dezembro é dia universal dos direitos humanos e, talvez, devesse escrever sobre esse tema. Ele está na minha lista e quero tratar do assunto qualquer dia desses. Nos tempos do Jimmy Carter era mais relevante. Ultimamente, anda meio esquecido. Especialmente, por aqui.

Mas meu tema hoje é o divorcio. No momento, três dos meus amigos estão em processo de divórcio. É possível que esse fato esteja me incomodando, sei lá. Semana passada, li na Folha de São Paulo um dado dando conta do aumento dos divórcios. Desde quando começou a ser monitorado pelo IBGE (1995), o último ano (2005) teve o maior índice 15,5% de aumento em relação ao ano anterior (2004). Daí podemos concluir o obvio: os divórcios estão aumentando, muito.

Um desses amigos em processo de divórcio tem conversado comigo com freqüência. Tomando-me por um conselheiro, ele tem compartilhado comigo seus sentimentos em busca de alguma direção, nesse momento tão delicado. Deixando a discussão sobre minha competência para depois, evidentemente o maior desafio para nós dois tem sido compatibilizar esse momento com os ensinos e dogmas cristãos. Mais uma vez, me dou conta de como passamos pelas questões importantes superficialmente e, quando elas surgem em nossa realidade, nos pegam de calças curtas, quase completamente despreparados.

Um livro legal me vem à mente, nesse instante. Foi publicado, no Brasil, pela ABU essa editora complicada e cheia de atitudes excêntricas, pois a primeira edição colocou o livro no mercado com o título “Contracultura Cristã”. Depois, editaram com outro título, como se fosse outro, entendendo equivocadamente a razão do livro não vender bem por causa do título. Não vendeu por incompetência dos responsáveis pelas vendas e pronto.

Para vender livro no Brasil é preciso dominar a arte da mágica e do convencimento. O Diogo Mainard, aquele reacionário da Veja e do GNT, disse outro dia que recebe dezenas de livros das editoras, grátis. Em trinta anos de ministério, muitos deles gastos em escolas e seminários, nunca recebi um único maldito exemplar. Cansei de indicar livros, de todas essas editorazinhas evangélicas de graça, ou melhor, comprando os livros nas livrarias com meu rico dinheiro, sabidamente pouco abundante. Os caras são míopes, hipermétropes e presbíopes, ao mesmo tempo. A Editora Ultimato deixou de me enviar a revista por falta de pagamento. Mas o idiota continua indicando-a, aqui inclusive. Para mim, gente como o Brabo, Volney, Rubinho, Ed, Robison, Ari, Gondim e tantos excelentes formadores de opinião soltos por ai, além do papai aqui, deviam ser entupidos com todas as publicações e, principalmente, com as encalhadas. Depois é só olhar o resultado das vendas. Não sei porque sempre tem gente inexperiente nessa função, nas editoras ditas evangélicas. Espero não seja por serem parentes do gerente.

Enfim, voltando ao tema, o autor do livro citado é o conhecido Dr. Jonh Stott. Trata-se de um belíssimo trabalho sobre o Sermão da Montanha. Às tantas ele diz não ser da competencia do pastor indicar o divórcio como uma opção em casos de casamento em crise.

Na verdade, o texto incluso nesse trecho bíblico é ínfimo em relação ao tamanho do problema. Provavelmente, Jesus o citou por tratar-se de um acontecimento corriqueiro naqueles dias ou em resposta a uma pergunta recorrente. Não é um tratado. Mas, como sempre, o Mestre é o Mestre. Não precisa falar muito para criar um enorme impacto. Parece aquela bomba gerada através de campos magnéticos redundando no Maremoto (Tsunami). Ele faz uma observação e bummm! Estou me referindo a: “Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”. (Mt. 5:31 – 32)

Cáspite! Onde ele foi buscar isso? E agora, digo o que para meu amigo? Fácil .

Prudentemente, nunca indiquei o divórcio. Durante dez anos falamos sobre seu casamento em crise. Nunca lhe dei essa receita, mas a opção sempre esteve à sua frente. E chegou o momento. Divórcio consumado e meu amigo mal.

Ah! A bíblia isso e aquilo. Na verdade, a igreja cristã evangélica não assume, mas é contra. Segundo me informou o sofredor ai, todos os pastores com quem conversou a respeito, alguns muito conhecidos, aconselharam-no a buscar a reconciliação. A mulher já ta em outra, faz tempo e o cara fazendo papel de minhoca. Nunca ouviram o samba: “mulher é igual alça de caixão, quando um larga vem logo outro e põe a mão”. Eu sei, é machista, mas é fato. Reconciliar implicará em aceitar a possibilidade de ter havido algum outro relacionamento, nesse meio tempo, ou até antes do divórcio e praticar o perdão, essa coisa démodé.

É engraçado. O cara namorou com uma garota um tempão. Aconteceu de tudo entre eles. Aí, terminaram. Ele arrumou outra namorada, depois outra e outra. Até que um dia, pimba, achou a musa da vida e casou com ela. A beldade vinha de um longo relacionamento com outro bofe. Ele estaria pensando ser ela virgem , ainda ou que deveria ser? Não, muito provavelmente não. Já ouve união carnal anterior. Ah! Mas foi só uns amassos. É exatamente a mesma coisa. Separação, divórcio, briga de namorados são palavras. Na prática estão todos expostos ao adultério citado pelo Nazareno. Pecamos todos, sem dúvida, nesse e em todos os outros quesitos dos mandamentos. Jesus sempre vinha com essas picuinhas, igualando todo mundo.

Espantar-se com os paradoxos desse trecho bíblico e estrelado por Jesus o Galileu não é privilégio nosso. Tolstoy surtou com ele. Gandhi estava disposto a declarar-se cristão se o cristianismo fosse só esse sermão. É nitroglicerina pura. É um campo magnético em estado ativo. Jesus estava, simplesmente, confirmando nosso estado pecaminoso. Todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Um divórcio a mais ou a menos, em nossas vidas não fará a menor diferença. Dedé e eu estamos juntos há vinte e oito anos (estamos em 2006). Nunca enfrentamos uma crise que envolvesse a análise das opções finais. Mas viemos de relacionamentos anteriores e desfeitos. Adulteramos, portanto ou tanto quanto nossos três amigos e suas digníssimas.

Então, a decisão final por um ato extremo como o divórcio deve ser íntimo e não temos nada a ver com isso. Agora, é levantar a moral do corno e bola para frente. Ele que não se meta em outra, se conseguir ser mais esperto agora. Se o fizer que Deus tenha misericórdia dele e da próxima vítima.

Doeu, mas saiu.

Sole Deo glória, apesar de ter sido meu, o sofrimento.

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