“Não é que Deus seja cruel; é só que Deus fica aquém das expectativas”

Woody Allen citado no livro O Evangelho Maltrapilho de Brenan Manning Pg 180

Sou suspeito para falar sobre qualquer coisa que esse judeu gozador diz ou disse, por uma razão muito simples, sou fã dele. Acho muito engraçado ele interpretar um personagem que tenta cavar uma vaga de comediante em algum lugar. Fico perplexo com a sacada, a percepção de um cara muito bem humorado sobre uma situação capaz de levar os outros ao riso, a partir de suas próprias ambigüidades. Esse cara é dez.

Talvez a frase acima incomode alguns mais do que a outros. Entretanto, se olharmos bem o conteúdo dela, talvez tenhamos algumas surpresas. Se, o autor dela tiver um mínimo de coerência, ele deve estar revelando algo de si mesmo, quando emite uma afirmação dessas e sempre de forma engraçada. Afinal, brincar com improváveis fraquezas do Criador é engraçado, sempre. Dificilmente alguém levará tal frase a sério.

Outra surpresa é que ela encerra uma declaração de medo e insegurança. Ao usá-la no enredo de um filme a ser apresentado nas telas de todo o mundo ocidental, ele está brincando com o medo da maioria das pessoas, através do seu próprio. As pessoas, salvo engano, riem de vergonha.

Tenho algumas atitudes secretas. Uma delas é comer croquete de carne no São Bento. É um local muito distinto que comercializa alimentos e gêneros indispensáveis como vinhos de qualidade, frios nobres, massas finas, etc… além, dos itens básicos a qualquer residência. A freqüência, nessa loja, é a melhor possível. Lá, as pessoas dizem: por favor, obrigado, bom dia, e todas essas formalidades tolas, sem as quais eu não dou a mínima a uma pessoa. Nem adianta vir com aquele discurso petista que essa é a linguagem dos ricos e não a dos pobres. Nunca fui rico. Enfim hoje, depois de ter saboreado meus croquetes com um suculento copo de Coca-Cola, dirigi-me ao caixa. Atrás de mim colocou-se uma senhora de idade, muito bem vestida e educada. Na primeira oportunidade perguntou se eu havia lido o livro que trazia em minhas mãos. Era O Jesus que eu nunca conheci do Philip Yancey. Respondi que havia lido e estava lendo novamente. Como ela me disse que “quase” adquirira um exemplar, mas não o fizera, incentivei-a a fazê-lo, veementemente. Ela me agradeceu e elogiou minha delicadeza.

A moça do caixa, que a tudo havia acompanhado, observou, enquanto me dava o troco que eu deveria ser uma pessoa culta e, certamente, muito educado. Então, resolvi fazer-lhe um breve discurso dizendo: “Sabe, acontece que sou muito inseguro. Costumo carregar comigo esses livros sobre Jesus como amuletos, caso apareça alguma alma penada na minha frente, ai eu logo mostro o livro. Antigamente eu usava uma bíblia e um crucifixo de prata, mas me ensinaram que isso só funciona com vampiros. Para as almas penadas é melhor usar livros onde o nome de Jesus apareça em destaque.”

Nessa altura, minha moral com a velhinha de trás havia ido para o espaço. A caixa disse: o próximo, por favor, com um sorriso estampado no rosto. Percebi que era a deixa para minha retirada. Mas ganhei o dia fazendo alguém rir. Claro que as duas estavam me paquerando, mas fiz de conta que não percebi, como sempre faço nessas ocasiões.

Agora você deve estar curioso para saber o que, afinal de contas, a frase do Allen tem a ver com tudo isso. Elementar meu caro. Comecei com ela, me afastei dela e não tenho como voltar a ela. Agora que Deus, às vezes, fica aquém das expectativas, não há dúvida.