A Gruta do Lou

Dia de trabalho

lou 31
Todos saíram e foram para o trabalho. Os vizinhos da direita, da esquerda e da frente.
Cada qual em seu carro. Saíram cedinho. Ganharam uma beijoca das esposas. Uma delas foi para o trabalho, também, antes do marido.

Todos eles fazem tudo sempre igual. Acordam todos os dias à mesma hora e saem, cada qual segundo sua rotina. Parece mais uma dança indígena no Xingu.

Eles não são cristãos como eu. Tem lá suas vivências católicas, mas nada muito hard.

Fiquei pensando em substituí-los. Um a cada dia da semana. Assim, eles teriam um dia a mais de descanso, na semana. Na segunda, tomaria conta da loja de tintas de um. Na terça, trabalharia no laboratório de próteses dentárias do outro. Na quarta, venderia cigarros. Na quinta seguros. Na sexta, seria meu dia a mais de descanso. Não é uma boa ideia?

Tudo isso, olhando pela janela enquanto saboreava uma cafezinho quentinho da Dedé. Ela não me deu beijoca no portão. Por que daria? Continuo aqui curtindo minha inutilidade indigna.

Todos voltarão no fim do dia.

Menos eu.

Estarei aqui, como sempre.

cropped-Capricornio-PB.jpg

7 thoughts on “Dia de trabalho

  1. Lou, um dia entreouvi duas moças conversando, uma dizia: – É tão triste não ter trabalho, logo eu que gosto tanto de trabalhar… Fiquei condoída dela e de mim, pois eu também estava desempregada. Certa vez, também, num shopping, fazendo hora pra não voltar pra casa, uma mocinha me pediu pra tomar conta da bandeja dela enquanto ela saia. Fiquei emocionada, tinha um trabalho, finalmente tinha uma ocupação, eu servia pra algma coisa! Foi uma experiência boa e triste ao mesmo tempo. Então resolvi trabalhar como voluntária, menos pra fazer o bem do que pra me ocupar mesmo. Minha família não entendia, perguntavam: eles não vão te dar nem uma cesta básica? Eu trabalhava pra caramba lá na instituição, eles me davam dinheiro pra lanche, que eu não gastava, trazia pro lanche do meu filho. No natal eles me deram 20 reais, foi o dinheiro que recebi com mais felicidade em toda minha vida. E foi assim…Sei como é isso…

  2. Bete
    Você deve imaginar como suas palavras são importantes para dezenas de pessoas que passam por aqui e estão vivendo essa realidade. A maioria não consegue verbalizar sua condição, como nós fazemos (e é por isso que eu insisto em dividir minha sina).
    Pessoalmente, tenho minhas alternativas e sou um ativo voluntário em causas sociais, na comunidade. Às vezes, até sobra uma boa ajuda para minhas necessidades, também. Mas, a maioria não é privilegiada assim. Obrigado por sua presença e apoio.

  3. Sabe, meu trabalho é o que chamam por aqui de subemprego, talvez por que eu não tenha gasto anos em acadêmias para merecer um salário de nababo. Eu me sinto frustrada, mas muito mais pelos outros. Estão sempre me dando dicas do que devo fazer, o que devo estudar, por que não desisto de um emprego de onze anos, por que desperdiço potêncial. Não me irrito por que sei que eles são iludidos, querem mundo de coisas coloridas, querem as últimas novidades tecnológicas, um carro do ano, uma viajem para mundos ricos. Eu quero apenas ser feliz, quero pouco e isso me coloca na categoria dos medíocres, alguns me conferem este “status”.
    Paciência.
    Se eu quisesse as mesmas coisas que estes que me criticam querem, por certo sofreria o tanto que sofrem, ou não, talvez eu fosse capaz de sujar as mãos, ou de suar muito, ou de burlar leis, ou ei lá.
    aMIGO, meu maior desejo é que tenham todos a vontade de aplicar a soliedariedade, por eu quero merecer o céu e quero encontrar todos os meus irmãos lá.

  4. Ser medíocre… taí uma coisa que denota uma grande capacidade, mas as pessoas não percebem e conotam como depreciativo.
    Medíocre é aquele que consegue ser equilibrado, permanecer no meio, não ser ateu, nem taleban; não ser rico nem pobre; não ser burro nem intelectual.
    Acho que é outra definição para sábio…

  5. Rapaz, sabia que tínhamos algo em comum…nossas similaridades não são somente telógicas, mas também cotidianas ,rsrsrs, abraço companheiro.
    Nelson Costa.

  6. Nelson

    Eu logo vi que você era um grutense. A gente sente o cheiro dos irmãos de grutas. Abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *