Desigualdades

A inveja mata. Ouvi essa verdade, pela primeira vez, há muitos anos. Mas sinto uma inveja louca de algumas pessoas. Não no sentido de desejar menos sorte a elas, mas de desejar mais sorte para mim.

Veja o caso da Rosana Hermann: Ela trabalha na TV e no Rádio, apesar de não ser na Globo, consegue um padrão de vida que poucos detém. Além de morar em Higienópolis (onde eu, certamente, moraria se voltasse para São Paulo) um dos bairros mais nobres da cidade, a semana toda ela intercala pilates, caminhadas e natação com o blog (ela mantém o blog campeão de freqüência no Brasil) e seu trabalho. Em feriados prolongados ela oscila estadas na praia (Juqueí no belo litoral norte de S. Paulo) ou na montanha (mantém um sítio em Águas de São Pedro, cidade que eu era obrigado a atravessar, chupando o dedo, quando ia para Campestre, no ano passado).

Claro que ela é uma baita burguesa estereotipada e seus textos são repletos de futilidades. Isso explica sua audiência, em boa parte. Meu ponto aqui diz respeito ao fato de termos do outro lado eu, por exemplo. Neste sábado lindo, aqui estou escrevendo um texto longo, já que tenho tempo de sobra. O computador não está à beira da piscina (coisa que nem posso sonhar em ter) e sim em um quarto transformado em oficina onde se faz de tudo, inclusive, dormir.

Não há um carro na garagem que pudesse nos levar para uma praia, nem que fosse para fazer aquelas excursões de nordestinos com frango, farofa e baiano à milanesa, de um dia só. Estive em Águas de São Pedro de passagem, somente, e pude apreciá-la de trás da janela do Cometa, apenas. Nunca passei um único diazinho lá para respirar o puro ar das montanhas.

Além disso, o celular dela tem 2 megapixels para tirar fotos e ela consegue postar on- line, de qualquer lugar e faz conexão com a internet com esse aparelho ou via notebook, que deve estar sempre com ela, a tira colo. Eu só mexo nos notebooks dos caras que me chamam para instalar programas, fazer o que eles não sabem e desfazer as cagadas que eles aprontam. Nunca tive nenhum desses aparelhos. Meus micros são uma coletânea de peças herdadas dos upgrades nos microcomputadores de meus clientes ricos. Na hora de sair do escritório deles eu peço a peça e eles dizem: pode levar se não vai para o lixo mesmo. Meu celular nunca sonhou em ter câmera on board e muito menos fazer conexão com a Net.

Minha câmera tem 16 pixels. Consigo tirar umas oito fotos, no máximo, antes de ter que descarregar e não está paga, pois financiei nas Casas Bahia e não consegui pagar todas as prestações.

Meu único exercício, atualmente, é caminhar daqui para sala e voltar para cá. No quintal imenso fica difícil caminhar em meio às roupas penduradas no varal. Sem falar no aluguel que não pago faz tempo.

Na próxima geração espero vir como Rosana Hermann ou alguém parecido com ela. Bem fútil, burguesa, com muita inveja da beleza da Adriane Galisteu, Daniele Winits e da Cicarelli, mas morando em Higienópolis, gastando os feriados entre Juqueí e Águas de São Pedro, com uma câmera contendo megapixels e não pixels, apenas, notebook e um carro legal. Ah! Também queria, pelo menos, a metade da visitação e comentários conseguidos pelo Blog dela. A única mudança requerida e diferente da Rosana seria: ser magro.

Depois a gente abandona a igreja com Jesus e tudo, vota no Lula e grita vivas ao Chaves e ninguém entende.

Obs: Possivelmente, tenha recebido esse E-mail e resolvi divulgá-lo, admitindo minha total solidariedade a ele, embora adote postura muito mais franciscana para amenizar e disfarçar minha sina.