A Gruta do Lou

Desequilíbrio cristão e ocidental

Espírito, mente e corpo, creio que a maior parte das pessoas, seja por qual via for, acredita serem essas três, as partes do todo de cada um de nós. Sendo assim, vivemos tentando suprir cada uma delas, ao espírito providenciamos Deus, através de alguma forma, geralmente religiosa; à mente ocupamos com saber, oriundo da escola, das leituras e da troca de informações; e ao corpo tratamos de nutrir com higiene, alimentação e exercício físico.

Tudo isso, posto assim parece óbvio. Na verdade, a maioria das pessoas vive isso, o que torna a vida ainda mais parecida com uma grande obviedade.

Não são muitos, considerando o todo da população mundial, que exploram o potencial espiritual a níveis mais profundos. Além das possibilidades religiosas, as origens das pessoas costumam determinar o grau de espiritualidade e empenho das pessoas nessa área do viver. Os habitantes do oriente distante, por exemplo, costumam reservar mais tempo de suas vidas para o desenvolvimento espiritual. Depois o pessoal do oriente médio, apesar de toda a escaramuça que vivem entre si, dedicam boa parte de suas vidas às coisas do espírito. Os povos que menos investem no viver espiritual são os chamados povos ocidentais, que ocupam a Europa, as Américas e a Austrália.

Interessante pensar nisso dessa forma, porque em todas essas manifestações, pelo menos em tese, a grande maioria das pessoas acredita que a mente e o corpo estarão bem se o espírito for saudável. Em algum tempo, alguém disse em latim “Mens sana in corpore sano” e essa frase tornou-se emblemática para os habitantes ocidentais, passando a dar o tom em suas culturas. Aparentemente desligada das questões do espírito, ela funcionou como potencializadora da importância do ser humano cuidar bem de seu corpo a fim de lograr uma mente saudável, ou vice versa, enfraquecendo sua preocupação com o espírito. Mais interessante ainda, se considerarmos o fato de que essa frase pertence e é parte de uma oração, como segue.

 

 

orandum est ut sit mens sana in corpore sano.

fortem posce animum mortis terrore carentem,

qui spatium uitae extremum inter munera ponat

naturae, qui ferre queat quoscumque labores,

nesciat irasci, cupiat nihil et potiores

Herculis aerumnas credat saeuosque labores

et uenere et cenis et pluma Sardanapalli.

monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe

tranquillae per uirtutem patet unica uitae.

(10.356-64)

Tradução:

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.

Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,

que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,

que suporte qualquer tipo de labores,

desconheça a ira, nada cobice e creia mais

nos labores selvagens de Hércules do que

nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.

Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;

Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.

 

Não fosse isso, esta oração é, na verdade, profundamente espiritual e enaltece a vida voltada às coisas espirituais como chave para o viver harmônico com a mente e o corpo em conjunto com o espírito.

Me graduei em Educação Física e não tive, ao longo do meu aprendizado, nada na forma de conteúdo ou experiência relacionado ao espírito. A única coisa repetida incessantemente era sobre a necessidade de temos corpos sãos afim de possibilitar uma mente sã. Acho que o autor dessa oração ficaria muito infeliz se soubesse o que sua frase acabou provocando.

De outro lado, nossas religiões ocidentais, sobretudo o cristianismo do qual faço parte, à minha moda, tratam a vida espiritual com um quase desprezo ao corpo. Ultimamente, devido ao grande avanço e multiplicação do interesse pela psicologia, ouve-se falar mais em questões de relacionamento e estabilidade emocional do que em Deus e seu Filho rebelde, em nossas Igrejas. Com isso, a vida espiritual dos cristãos tornou-se muito pobre, quase desnecessária, infelizmente.

Tenho em minha estante um livro cujo título é “Cristianismo Zen”, o autor é Willian Johnston e a editora é a Cultrix. Sei que muitos poderão interromper a leitura aqui com aquela exclamação bem neo-pentecostal: Isso é coisa do diabo! Mas, se você foi suficiente corajoso e persistente para chegar até aqui, creio que valerá a pena persistir um pouco mais. Veja o que diz o autor:

“No que me diz respeito, minha principal preocupação no momento é aprender com o Budismo. Não posso deixar de sentir que o Cristianismo ocidental, como de resto, o próprio Ocidente, necessita urgentemente de uma transfusão de sangue. Feliz ou infelizmente, chegamos ao esgotamento […] e necessitamos de novas perspectivas.” Ele escreveu isso em 1971. Lendo o livro, percebemos que o autor valoriza, precisamente, a preocupação budista com o todo, espírito, mente e corpo e tenta reunir esses itens ao seu cristianismo, com meios cristãos, até onde isso é possível.

A Bíblia é rica em ensinamentos capazes de dar esse equilíbrio. Os cristãos adventistas praticam a alimentação sugerida no livro sagrado com excelentes resultados. Os livros dos Salmos, Provérbios e o Eclesiastes, fantásticos para a sanidade mental e a muitas recomendações uteis ao bem estar físico ao longo do texto, tirando a infeliz declaração de Paulo, sempre ele, de que o exercício físico para pouco se aproveita. Apesar de que, no contexto, ela está correta sob ponto de vista de um clérigo fanático , pois ele se referia ao fato de que a preocupação com as coisas de Deus era infinitamente mais importante, do que o culto ao corpo. Hoje em dia, isso faz muito sentido e talvez devamos enfatizar isso aos nossos jovens, principalmente. Entretanto, a grande maioria das pessoas, trata o corpo muito mal e totalmente desintegrado do espírito e da mente.

Como diria Sidarta, “Sei meditar, jejuar e esperar”, uma frase que não se contrapõe ao cristianismo em nada. Jesus Cristo disse, em certo momento, que deveríamos orar, jejuar e contribuir e, com seu proceder, mostrou a importância de cuidar do corpo, alimentando-se bem, descansando e praticando a meditação com o requinte de meditar no deserto e nas montanhas.

4 thoughts on “Desequilíbrio cristão e ocidental

  1. Belo texto, digo, o do autor romano.
    Latim à parte, o que falta mesmo é um pouco de equilíbrio. Somos todos extremistas extremados. Cegos, não enxergamos o valor do equilíbrio.

  2. Rubinho

    Por alguns segundos você me deu a ilusão de estar recebendo um elogio significativo. Acho que estou precisando de mais equilíbrio. 🙂

  3. Fábio

    Se eu fosse você faria exatamente a mesma coisa. Mas sendo eu mesmo, coisa que não tem sido fácil, prefiro provocá-lo para vê-lo por aqui, nem que seja de vez em quando. 🙂 Abs.

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