A Gruta do Lou

Desencontro entre falar e fazer

 

“Na moral, como na arte, dizer não é nada, fazer é tudo. A ideia que se esconde sob um quadro de Rafael é pouco; é só o quadro que conta. Da mesma forma, em moral, a verdade não adquire valor algum se passar para o estado de sentimento, e ela só atinge seu preço quando se realiza no mundo no estado de fato . Homens de moralidade mediana escreveram excelentes máximas. De outro lado,  homens muito virtuosos nada fizeram para continuar a tradição da virtude no mundo. O prêmio é para aquele que foi forte em palavras e obras, que fez sentir o bem, e que o fez triunfar à custa de seu sangue. Jesus, sob esse duplo ponto de vista, é inigualável; sua glória permanece íntegra e será constantemente renovada.”

E. Renan em Vida de Jesus – Ed. Martin Claret 1995

Os escribas e os pastores desprezavam João Batista e Jesus, pois eles os censuravam por causa da opulência, do menosprezo aos menos favorecidos e, sobretudo, por causa de suas falácias; sem falar nos pecados menores, como a exploração e as orgias. Eram imorais bons de conversa e fracos em ações.

Interessante notar, dois mil anos depois da partida do fundador da igreja cristã, os pastores são os mesmos, como se fosse uma eterna reencarnação. Falam, falam mas nada fazem em correspondência às suas palavras. Eles não conhecem a África e seus mais de trinta por cento dos habitantes contaminados com o vírus HIV, eles não foram ao Afeganistão e ao Iraque deitar no meio das ruas para impedir a passagem dos tanques e tropas norte-americanas, não visitaram os famintos da Ásia em sua fome, nem os miseráveis da América do Sul em sua pobreza insuportável, não se importam com o avanço do câncer e das doenças congênitas e a devastação ambiental a ponto de se amarrar às árvores, ou militar nos projetos de luta pela diminuição dessas infâmias causadas pela irresponsável e continua escalada das experiências atômicas, químicas e biológicas como meios de devastação, em caso de guerra e/ou satisfazer a ganância dos loucos capitalistas.

Eles não fazem, sequer, uma viagem de turismo à Amazônia para ver com os próprios olhos onde vive boa parte do povo a quem Jesus nos enviou a fazer discípulos.  Nunca se misturaram aos bolivianos coqueiros de Santa Cruz de La Sierra, onde o evangelho só chega para buscar dinheiro capaz de financiar a compra de redes de TV e rádio em uma macabra operação de lavagem de dinheiro oriundo da venda da cocaína. A África eles só veem em filmes produzidos por Hollywood e tratam de evitar os mais realistas como O Jardineiro Fiel, Grande Hotel Ruanda e o Diamante de Sangue, pois a realidade ali retratada é tudo que eles não desejam conhecer.

Essas raposas vivem estrelando seminários e palestras, encantando às mentes inocentes e pueris dos nossos twitters desavisados, ostentando seus aparelhos multimídias e suas roupas de grife, para voltar a seus palácios e sentar em seus tronos com a boca escancarada, cheia de dentes implantados a peso de ouro, para receber o beijo da morte de suas congregações, em um domingo qualquer.

Negócio deles é falar, falar, sem nada fazer. Nisso consideram Jesus de Nazaré um equivocado, não o fazem com suas palavras, mas através de sua não ação covarde. Por essas coisinhas explico meu menosprezo a esses homens, anões morais em cujas mentes nunca passou qualquer idéia de cultivar uma única virtude do mestre. Alguns foram meus colegas de seminário, para minha vergonha, deles e do seminário. Esses ainda são aprendizes e chegam a invejar, embora discípulos distantes, os Warrens e Hybels da vida, os grandes fanfarrões de nossa era.

João Batista e Jesus me ensinaram a pregar vigorosamente contra seus adversários, pastores e padres ricos, fariseus, e os doutores da lei. Eles foram acolhidos, principalmente pelas classes oprimidas e reduziram a nada o título dos filhos de Abraão, como dizia o homem que se alimentava de gafanhotos: Deus poderia fazer filhos de Abraão com as pedras do caminho.

O que você é e faz fala tão alto que não consigo ouvir o que você está falando.

morcego-12

8 thoughts on “Desencontro entre falar e fazer

  1. Concordo, Lou, em gênero, número e grau.

    O problema é que algumas pessoas conseguem se expressar de tal maneira tão extraordinária, com bons argumentos, bons exemplos pessoais demonstrando conhecimento de causa e autoridade que não nos resta outra alternativa a não ser ouví-los ou lê-los em reverente silêncio.

    O último Post do Volney sobre a Ruth me fez perceber isso. Classifiquei algumas pessoas da Blogesfera como nobres devido a essa impressão que me passaram.

    Evidentemente existem aqueles que lemos as coisas bonitas que dizem e procuramos seguir a risca, mas jamais imitaríamos o seu exemplo de vida.

    Como sempre digo: Faça o que eu falo e, nunca, o que faço. 🙂

  2. Lou, concordo com seu texto viu. Muita gente só conhece as coisas através de uma telinha de vidro e sai contando uma vantagem tremenda.

    Fiz uma homenagem a Alice lá no blog. Passa por lá.

    Bom dia!!!

    Grande abraco

    Verdade? Você deve estar brincando. Não conheço ninguém assim… Sai da frente, estou assistindo o Monk, vê se não me atrapalha! Onde estávamos mesmo? Ah, sim, sobre os caras que não saem da frente da telinha e depois saem contando vantagens como se fossem os tais. Como pode né? 🙂

  3. Lou, você disse tudo em suas palavras. Concordo plenamente com esta denúncia profética. O modelo que a igreja escolheu não é o de Jesus, João Batista e os profetas, mas sim o dos fariseus, saduceus, herodianos e companhia.

    Às vezes, quando saia de casa para ir à Igreja (faz tempo) dizia para minha esposa que estava indo me esconder de Jesus.

  4. Lou, nem precisa ir pra África, nunca soube da presença de pastores nos momentos das grandes calamidades urbanas, o que ouvi sim, em cadeia nacional, foi a Globo, pasme, pedindo a presença de líderes religiosos para ajudar as famílias que estavam passando pelo problema do desabamento do metrô, aquele buraco famoso lá.

    Mudando de assunto, ontem fui a igreja pra buscar minha bênção e também porque estou vendo a coisa preta (assumo, foi só por isso mesmo), e não é que o pastor falou, olhando bem nos meus olhos: você está recebendo agora um derramamento inenarrável de azeite. Falou bem assim: inenarrável. E a coisa não pára por aí: ele saiu do púlpito, veio até mim e me tascou uma oração daquelas. Bom demais, não vou nem voltar mais lá, porque coisa boa assim não acontece duas vezes.

    Qual é o endereço dessa igreja? Minha vizinha quer ir lá, urgente! Preciso abrir aspas para o Exército de Salvação, pois é comum, em todos os lugares do mundo onde acontecem tragédias, vê-los presente.

  5. Minha tia tem alguns dentes implantados, não fosse isso eu teria uma tia banguela! Nem todos os implatados são malvados assim… Qto ao filme “O jardineiro Fiel” é realmente BOM!
    Qual seminário vc fez Lou?

    Com certeza, sua tia deve ser uma grande senhora. Quando escrevi isso, tinha em mente o Tio Cássio, que pouco antes de morrer, implantou todos os dentes, por uma pequena fortuna. Pelo menos o pessoal que rouba sepulturas teve algo para roubar, nesse caso. O sentido era lembrar que meros mortais como eu, colocam pivos de acrílico ou dentaduras mesmo, quando perdem os dentes. Coisa de pobre, não ligue não. 🙂

  6. Lou, textos como esse deveriam estar nos comentários das
    Escrituras (Sugiro que você publique “Biblía Sagrada com comentários
    da blogosfera).
    Ninguém vai levar a Igreja a sério enquanto ela não se levar a sério.
    O Mundo é relevante e não as palavras que dizem a respeito de Deus
    Fico imaginando o que aconteceria se a Igreja olhasse essas situações com os olhos do Reino e não da teologia.
    Deus não precisaria acordar o Lou para escrever sobre isso!

    Pena que você não dono de uma editora. Além da Bíblia com comentários da blogosfera (grande idéia) tenho mais umas coisinhas que gostaria de publicar. Mas…

  7. Você disse tudo… Traduziu minha indignação. Obrigada. Estamos aí Lou!
    Ontem mesmo pirei e aos gritos desci o cacete numa crentalhada (meus vizinhos) por conta dessa falta de amor e prática verdadeira do cristianismo. Que se danem ou convertam-se, se puderem. Já que eles pensam que eu enlouqueci, dou corda!! Não estou sozinha GRAÇAS A DEUS!!!
    BEIJOS

    Sem dúvida, você não está sozinha nisso.

  8. Que coisa bonita… Qdo em meio atanto egiosmo ainda existem pessoas que conseguem enchegar a sugeira e o farisaismo dentro das igrejas…… PALMAS< PALMAS<PALMAS….. é umprivilegio poder ler tal literatura …. perfeito a se tivemos muitos mais, homens e mulheres com coragem assim … um grande abraço e parabens….

    Li, escutei e me tornei responsável. Como disse o pequeno príncipe, somos responsáveis pelo que cativamos. Obrigado pela visita e comentário. Volte sempre. Um abraço!

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