A Gruta do Lou

Depois do Muro

Para a maioria das pessoas, exceto os seres desajustados, a queda do Muro de Berlim foi um dos maiores símbolos de libertação e fortalecimento da democracia, em toda a terra. De certa forma, a queda desse muro assemelhou-se ao evento similar narrado na Bíblia no episódio de Gericó.

O muro caiu em 1989, graças a um russo idiota com uma pinta ridícula na careca. Líderes tapados servem para serem tapeados pelos mais espertos. Qualquer semelhança será mera coincidência. Assim, Gorbatschov, que asumiu o governo russo com cara de mal, mostrou-se um grande banana e rezou pelas cartilhas norte americanas, pondo fim à linha divisória entre o mundo livre e a chamada Cortina de Ferro.

Acontece que uns dez anos antes disso, o papai aqui foi na onda de um senhor holandês conhecido pelo apelido de Irmão André. Ele fundou uma organização que veio a chamar-se Open Doors. Estranho o nome em inglês, enfim, até o maluco beleza preferia falar inglês em detrimento à sua língua pátria. Depois de ler sobre o ministério dele, orei a Deus colocando-me à disposição para tal serviço. Mal sabia eu que Deus, às vezes, respondia orações.

Em pouco tempo, através de detalhes que não interessam aqui, me vi atravessando a fronteira do país do mundo mais fechado ao evangelho de Jesus Cristo naquela época. Os países inclusos na Cortina de Ferro eram todos adeptos do regime de esquerda propulsionado pela União Soviética, menos um, a Albânia que adotava como regime um negócio denominado Marxismo Leninismo e não pedia bênçãos ao Kremilin. Foi justamente esse país que eu fui visitar com segundas intenções. Acontece que todos esses países restringiam várias liberdades, dentre elas a religiosa.

Andei pelo país disfarçado de turista simpatizante de regimes políticos exóticos, tudo muito parecido com o que veria em certos países da América Latina de nossos dias. Eles tinham alguma consideração pelas pessoas mais desprevenidas, mas negavam-lhes um monte de liberdades, inclusive a de escolher qual deus adorar. Tal situação deu ao Irmão André e a mim a possibilidade de vender aos incautos dos países chamados livres a idéia de liberdade religiosa para os irmãos companheiros comunistas. Para isso, informávamos o mundo livre sobre as atrocidades praticadas pelos vermelhos em nome de seu dogma: a religião é o ópio do povo.

Essa atividade me deu um ótimo emprego na base brasileira da Open Doors. Para você ter uma idéia, eu ganhava um bom salário indexado ao dólar, em plena época de inflação galopante. Era uma beleza, mas depois de uns dois ou três anos de bons serviços prestados, o Irmão André, talvez assustado com minha destreza em convencer a igreja da necessidade de apoiar nossos irmãos sofredores, ou algo assim, concordou com a diretoria brasileira em me colocar no olho da rua. Mesmo assim, continuei divulgando as mazelas do pessoal do leste europeu, embora não tivesse mais como recolher doações para eles, recebia boas doações por minhas exposições sobre o problema.

Acabei me distraindo um pouco por dividir meu tempo em trabalhos pouco alinhados aos interesses da igreja e outro tanto por me afastar do altar e de minhas orações. Deus aproveitou a oportunidade e atendeu às outras petições, mais favoráveis à liberdade dos povos sob o domínio soviético socialista.

Com a queda do muro, eu que já perdera grande parte de minhas mordomias com a insanidade do Irmão André e seus pares brasucas em me dispensar, acabei ficando com uma mão na frente e outra atrás, afinal, minha felicidade dependia da desgraça alheia. Atualmente, estou de olho nesses caudilhos sul-americanos modernos, torcendo por eles e aguardando o momento em que eles começarão a perseguir a igreja. A esperança é a última que morre, diria o criativo Walcyr Carrasco.

Depois que a muralha de Gericó caiu, muitas pessoas ficaram desempregadas. Principalmente homens, arrimos de família como eu. Claro que Deus não ligava para esses senhores imorais e suas famílias promiscuas e tratou de abandonar todos eles, como fez comigo, depois da queda do muro de Berlim. Agora ele abençoa gente que nunca fez missões e assim eles trabalham nos congressos de Missões lá em Águas de Lindóia e adjacências por esmolas nada desprezíveis.

Depois dizem que Deus é justo.

lousign

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *