A Gruta do Lou

De espectador a participante

Não é atoa que elegi Henri Nouwen para fazer parte do Conselho da Gruta. Pelo menos para mim, ele foi decisivo, sobretudo em seu livro “A volta do Filho Pródigo”. Sua experiência monumental com o famoso quadro de Rembrandt chocou-me profundamente. Sobretudo seu insight ao observar as diferentes posturas e olhares dando conta que os atores se dividem em participantes e espectadores. Acho bom ler o relato do próprio Nouwen:

“Apesar de por toda a minha vida sentir o desejo de estar envolvido por dentro, outra vez escolhia a posição de observador distante. Às vezes era um olhar curioso, outro era um olho ciumento, outras foram olhares ansiosos e, ocasionalmente, era um olhar de amor. Mas deixando isso de alguma forma foi a posição segura do telespectador crítico que parecia saltar em território desconhecido. Eu queria tanto controlar o meu caminho espiritual, ser capaz de prever, pelo menos uma parte do resultado, a desistir da segurança dos espectadores em troca da vulnerabilidade da criança retornando e isso parecia quase impossível. Ensinar os alunos, explicar as palavras e ações de Jesus e mostrar-lhes diferentes caminhos espirituais que as pessoas têm escolhido, ao largo do tempo, era como adotar a postura de uma das quatro figuras que cercam este abraço divino. As duas mulheres em pé, em diferentes distâncias atrás do pai, o homem sentado com o seu olhar para o vazio, o outro, de pé, olhando para o evento com um olhar crítico, todos eles representam várias formas de não-compromisso, Vemos indiferença, curiosidade, devaneios, uma estreita observação; alguém olha fixamente, o outro contempla sem fixar o olho, outro simplesmente olha, um está em pé no fundo, uma outra está apoiada em um arco, uma outra está sentada com os braços cruzados ou em pé com as mãos uma sobre a outra. Cada uma destas posições me são muito familiares. Algumas são mais confortáveis ​​do que outras, mas todas elas são formas de não comprometer-se. Mudar de dar aulas a universitários para viver com doentes mentais supõe, pelo menos para mim, dar um passo para a plataforma onde o pai abraça o filho ajoelhado. É o local da luz, o lugar da verdade, o lugar do amor. É onde quero estar, apesar de me dar muito medo de chegar a ele. É o lugar onde receberei tudo que desejo, tudo que eu sempre esperei, tudo que preciso, mas também onde tenho que deixar tudo o que quero manter. Este é o lugar onde serei confrontado com o fato de ter que aceitar de verdade o amor, perdão e cura, muitas vezes é muito mais difícil do que dá-lo.
Este é o lugar para além do que se pode obter, merecer e as recompensas que você poderia receber. É o local de entrega e da total confiança*”

De certa forma, minha vida confunde-se com a do Henri, em alguns pontos, a começar pelo nome lógico. Mas de todos os grandes pintores, passando pelos meus prediletos: Van Gogh, Renoir, Picasso, Debret, Nivaldo de Mello, Portinari, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Salvador Dali, Toulouse Lautrec, Di Cavalcanti, Caravaggio, Chagall, Rafael e tantos outros, sem dúvida Ranbrandt é o cara. A razão principal é a capacidade de captar e retratar pessoas à perfeição. Cresci vendo meu pai pintar retratos de pessoas e sei muito bem o tamanho do talento necessário, sem comparações, óbvio, pois meu pai era muito melhor.

Ao ler as palavras do Nouwen chego a sentir os sentimentos que passaram pela alma dele diante desse quadro, certamente porque ele também teve vontade de, ainda que por um instante, ser aquele jovem pedindo perdão aos pés de seu pai. Quando era menino (pouco tempo atrás) e ia à casa de minha avó materna ou quando visitava o quarto dela, nos tempos em que morava em nossa casa, gastava tempo incalculável admiranto a cópia de quadro que ela mantinha na parede, onde se via Jesus com um menino a seu lado e com sua mão posta sobre a cabeça de uma criança, no colo de uma mulher, provavelmente a mãe, sentada no chão de uma ruela qualquer, como se estivesse orando e curando. Foram inumeras as vezes que desejei ser aquele menino ao lado do Mestre. Ainda hoje, sinto-me assim quando leio as narrativas dos evangelistas bíblicos.

Outro ponto surpreendentemente comum entre o Henri e eu é essa coisa de passar a vida decidindo entre ser espectador ou participante. No meu caso, essa mudança aconteceu várias vezes, de membro de igreja a missionário na Albânia ateista dos tempos do marxismo leninismo de Enver Hoxa; de missionário fundraiser a missionário de campo pelo Brasil e África, nos tempos de Open Doors; de desempregado deprimido a diretor de creches da Prefeitura Municipal de São Paulo; de empresário a professor de seminários da periferia onde ninguém se orgulhava de ensinar; de editor de jornal do Esquadrão Vida de Sorocaba a diretor faz tudo de uma comunidade de recuperação de dependentes químicos; e de pai de um cardiopata congênito a Fundador do Projeto (ou Missão) Coração Valente.

Penso ter vivenciado a maioria dos sentimentos experienciados pelo Nouwen em sua viagem de espectador a participante. Posso afirmar sem duvidas, a posição em que prefiro estar é a de participante, e como ele, apesar do medo de chegar a tanto. Não sei quantas vezes me peguei dizendo a mim mesmo o quanto era surpreendente ser esse o lugar onde sempre recebi tudo que desejava, tudo que precisava e também onde precisava abandonar tudo que queria manter. É onde somos confrontados e temos que aceitar a verdade em amor, perdão e cura e que, muitas vezes, é muito mais dificil de dar. O local de entrega e de confiança total.

Sei que se soubessem, certos caras me matariam por eu desejar e até orar para que eles fossem confrontados com a oportunidade de deixar suas zonas de segurança, como pastores de igrejas grandes e ricas, para seguir na direção de um trabalho simples como o que fez Nouwen (cuidar de pessoas doentes mentais) ou como eu, de crianças muito pobres, de dependentes químicos, privados da liberdade de escolher e professar sua religião, ou de crianças e adultos cardiopatas congênitos. De certa forma me sinto privilegiado, por não ter vivido só com a opção de ter sido um mero espectador.

Estou certo que isso explica algumas de minhas posturas e inconformidades com certas pessoas. Mas elas precisam me dar o desconto pelo fato de eu estar preocupado com elas, de verdade. Jesus foi muito claro ao dizer enfáticamente que a quem muito foi dado, muito será requerido e acredito que Ele falava a verdade, como sempre.

Enquanto puder e tiver forças, gostaria que Deus me mantiesse na linha de frente, mesmo sob os riscos inerentes. Afinal, já estou bem acostumado às augruras dos participantes, tais como apertos, pancadas, injustiças, desamores, incompreenções e tantas outras. Apesar disso, vale a pena e como.

*tradução livre da versão espanhola, de minha autoria, do trecho do livro “El Regresso del hijo pródigo Meditaciones ante un cuadro de Rembrandt” de Henri J. Nouwen


2 thoughts on “De espectador a participante

  1. Lou,
    vc já leu Adam? Na minha peregrinação pelos livros do Nouwen, achava que nenhum superaria A Volta do Filho Pródigo. Mas Adam me deixou completamente descadeirado.

    Engraçado é que fui procurar o livro numa livraria católica.
    – Vc tem o livro Adam, de Henri Nouwen? – perguntei pra atendente. Ela me respondeu calmamente:
    – O senhor tem que procurar esse tipo de livro na livraria mais adiante… aqui só vendemos livros católicos.

    8-

  2. Tuco
    Não li ainda, mas você acaba de me encher a parte mais elevada do meu corpo, totalmente sofrida com esses anos que insistem em passar e passar, com brasas de altíssima qualidade. Pode deixar, tomarei o maior cuidado para não incorrer no erro de procurá-lo em livrarias católicas, aquelas espeluncas. Abração.

    Ops: Ah, tõ lendo seu livro de montão. Só hoje foi a metade, só não li inteiro porque estou bem arrumado com essa história de mudança para S. Paulo. Na outa vida virei com o item “mutações” desabilitado.

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