A Gruta do Lou

Culpa e misericórdia

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Desde os tempos do patriarca Abraão, Deus viu-se na tarefa de convencer o ser humano que sua expectativa era de misericórdia e não de sacrifício. O tempo passou e nossos ancestrais continuaram na inócua tentativa de expiar sua culpa. Aliás, culpa nunca faltou. Até hoje, vivemos um intrincado sistema de vida espiritual fundamentado na equação paganismo= culpa X expiação (leia-se sacrifício). Se prestarmos a devida atenção, nossas atitudes costumam buscar a culpa, incansavelmente, sempre buscando o culpado e procurando atribuir culpa a alguém. Quem foi o idiota que mexeu no meu queijo? Quem foi o desgraçado que disse isso? Maldito diabo, sempre me tentando, assim não há mortal que resista.

Esse modus vivendi baseado na culpa e sacrifício, coloca-nos à mercê da necessidade de pagar por nossos pecados e fazer nossa expiaçãozinha de cada dia. Deus em sua bondade e misericórdia, desde o começo manifestou sua contrariedade em relação a essa prática humana bisonha e sem nexo. Com Abraão tratou didaticamente, levando o patriarca a pensar que deveria sacrificar o próprio filho no monte, colocando-o assim de frente consigo mesmo. Embora todos os vizinhos abrâmicos estivessem imolando seus primogênitos, Abraão não deveria cair nessa, mas sim, confiar no Criador para a questão de quem deveria pagar a conta. Então Deus fez o velhinho vivenciar toda aquela angústia, como bem observou Kierkgaard, para redescobrir o caráter perdoador de Deus, no final, com aquela providencial mudança de planos, trocando o objeto de sacrifício, ou seja, ao invés do menino Isaque, a pobre cabra montes que estava no lugar errado na hora certa.

Mas nem Deus escapou de ser paradoxal. O tempo passou e o barba branca envelheceu, ficou esquecido e, pasmem, mandou o próprio filho para servir de sacrifício pelos nossos pecados. Ué, mas Deus não era contra o sacrifício e notório adepto da misericórdia? Pois é, Ele era, mas amancebou-se. Entrou na nossa e veio com um sacrifício da hora para arrebentar com nossa abstração anti pecado, de uma vez. Pera aí, será que não era esse o propósito do Pai com a passagem de Jesus sobre a terra?

Não direi ou muito menos escreverei que a morte crucifixal de Cristo não teve nada a ver com nossos pecados. Esse problema estava e está resolvido por Deus desde o pequeno deslize de Adão e Eva. Deus nunca teria trabalhado com outra realidade que não fosse a do seu perdão incondicional, ontem, hoje e sempre. Jesus não teria sido objeto de sacrifício pelo simples fato de não ser esse o plano divino. Nem plano e muito menos principio. Deus não acredita, nunca acreditou e abomina o sacrifício e a irmã dele, a culpa.

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6 thoughts on “Culpa e misericórdia

  1. Pingback: Lou Mello
  2. O interessante é que o sacríficio está ligado a praticamente todas as religiões do mundo!

    A idéia de sofrimento, sacríficio para apagar a ira dos deuses remetem a fases antiguíssimas e atualíssimas da humanidade.

    Crer no Deus que abomina o sacrifício valorizando a misericórdia, faz-nos bem, além de renovar em nós a esperança e expectativa de nos tornarmos humanos, no bom sentido da palavra.

    Abraço Lou.

    …e fazes muito bem em crê-lo.

  3. As igrejas todas e os seus ídolos que falam precisam saber disso…

    Infelizmente, uma grande parte sabe… provavelmente.

  4. Ele deixou-se envolver e quis dar um basta nessa imbecilidade humana. Eu, teria ido com os Gregos.

    Talvez ele tenha pensado em se tornar famoso ou em perpertuar-se, coisa comum nos homens, afinal ele estava irremediavelmente encarnado.

  5. Pingback: Lou Mello
  6. O dia que a humanidade conseguir livrar-se do sentimento de culpa, grande parte dos laboratórios irão
    à falência, muitas clínicas fecharão suas portas, igrejas… bem, terão que reformular seus dogmas se quiserem continuar com uma parte dos bancos ocupados.

    Deus já mandou profetas aos montes e por fim o próprio filho para liquidar a culpa e nada funcionou. Agora, o velhinho tem fama de persistente e uma hora ele acerta.

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