A Gruta do Lou

Corifeu, um grande amigo

Corifeu Corifeu

Dedé com o Corifeu Dedé com o Corifeu

 

 

4º Dia do Jejum, pró abertura dos Comentários na Bacia das Almas, completado. ->

Ele era quase um pastor alemão. Tinha bom porte, pelo quase todo preto, orelhas em pé e, quando andávamos pela rua, seu rabo baixava. Era astuto. Descobriu uma família de gambás na casa e, um a um, foi liquidando todos. Era manso, mas ninguém devia duvidar de seu instinto protetor. Certa vez, um macaco apareceu por lá e passou apertado com o Cori (como o chamávamos entre nós). Infelizmente, não temos uma boa foto dele, essas foram as únicas que restaram.

Quando a Carolina nasceu, tivemos o cuidado de estudar a reação dele, em relação ao bebe. Não precisamos de muito tempo para notar que ele a adotara e dela zelaria até a própria morte, se necessário fosse.
Adquiri-o nos tempos da Faculdade de Educação Física. Trouxe-o para casa com um mês. Nas três primeiras noites, ele dormiu ao lado de minha cama e só parava de chorar quando eu repousava minha mão sobre o corpo dele. Tornamo-nos muito próximos. Havia uma relação de compreensão intensa entre nós. Compreendíamo-nos pelo olhar, pelos gestos e ele conhecia a minha voz, como ninguém.

A Dedé chegou, com nosso casamento, naturalmente amiga dos animais, como poucos, e ele a recebeu com grande respeito e se tornou protetor dela, também. Certa vez um homem, contratado para fazer um serviço de encanamento na casa, fez um movimento brusco ao levantar. Corifeu estava deitado entre ele e a Dedé, estrategicamente, mas com classe. Deu um salto, levantou as orelhas e  os pelos das costas e rosnou. O crioulo ficou mais alvo que a neve, mas a Dedé o conteve com poucas palavras. Se aquele homem estivesse mal intencionado, acho que ele teria sérios problemas no hospital, aquele dia.

Quando viajei para a Europa do Leste, em missões, ele passou dois meses dormindo no portão da casa, sob sol e chuva, até a minha volta. Quando cheguei, ele teve um surto de alegria, tão grande, que cheguei a ficar preocupado.

Nós morávamos em uma casa antiga que fora construída em um terreno de seiscentos metros quadrados, no coração do Brooklyn Paulista, um bairro de classe média alta, em São Paulo. A tentação de vender a propriedade venceu minha mãe, meu pai (eram divorciados, então) e meu irmão com a cunhada. Um arquiteto do banco Itaú fez uma oferta irrecusável e eles venderam, mesmo sabendo que nós não teríamos mais onde morar.
Foi o pessoal da Igreja que me ajudou a alugar um apartamento, para onde mudamos com as nossas poucas coisas.

Não podíamos levar o Corifeu conosco. Dedé e eu ficamos indecisos, mas minha mãe logo surgiu com uma opção: segundo ela uma amiga de confiança receberia o cão e o criaria com cuidado e carinho. Acreditamos, afinal ela era minha mãe e deixamos que ela o levasse, a contragosto. Enfim, entregamos tudo nas mãos de Deus, pois eram dias em que eu desfrutava de grande fé.
Passado um tempo, pedi à minha mãe que me desse o endereço da casa onde o Corifeu estava, pois Dedé e eu queríamos visitá-lo. Minha mãe me informou, então, que ele fugira da casa e nunca mais fora visto.

Eu abandonei meu cão, meu melhor amigo, que jamais me abandonou.

Jurei nunca mais ser infiel com quem me é fiel.

Ainda demorou um tempo para eu entender que nunca houvera uma casa ou amiga e que minha mãezinha havia dado um “sumiço” no nosso cão de estimação. Corifeu se fora para sempre.

Deus? Como sempre a montanha assistiu a nossa perda impassível, longânimo, numa longanimidade que dura até hoje. Em um único dia, perdemos nossa morada, nosso cão e nossa inocência, quanto à bondade de minha mãe e meus familiares. Nunca mais voltei a acreditar neles sem sofrer. Nunca mais tivemos uma casa própria. Nosso único consolo foi receber a Duda, como se fosse a reencarnação do Corifeu e muitos anos depois. Às vezes temos a sensação nítida que é ele, nesse novo corpo. Não é?

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15 thoughts on “Corifeu, um grande amigo

  1. Viva a metempsicose.

    (E depois de jejuar quatro dias e quatro noites, teve fome)

    (E os anjos não vieram e não o serviram)

  2. Paulo

    Só para ajudar o pessoal:

    Metempsicose: A transmigração da alma humana para o corpo de animais. Uma crença indiana.

    Meu, não são quatro dias, são quarenta, como você bem sabe. No nosso caso, iremos até onde aguentarmos, se necessário for. Trata-se de envergonhar o inimigo. A lista de adeptos cresceu muito e você tem a responsabilidade de manter-nos vivos ou não.
    Não queria estar em sua pele.
    Só um detalhe, não comentar na Bacia provoca crise de abstinência com dores insuportaveis. Pense nisso.

  3. Oi Lou, uma história muito triste.
    Percebo sempre ao ler a maioria dos seus post, que existe dentro de você uma graaaaaaaaande mágoa. Mágoa essa que nao foi curada e ainda por cima outras mágoas que chegaram e que se juntaram às mágoas que já existiam.
    Você escreveu no seu post de hoje: “Enfim, entregamos tudo nas mãos de Deus, pois eram dias em que eu desfrutava de grande fé.”

    Pergunto eu: Quem nos separá do Amor de Cristo?

    Nao deixe que as potestades de um tempo que já nao existem mais possa deixar tao marcado esses seus dias e seu coracao.

    Com oracao, receba o meu carinho de hoje.

    Abracos em todos

  4. Georgia
    Sou muito humano para ser capaz de me livrar de minhas mágoas. Se a história dos evangelhos não for verdadeira, estarei eternamente ferrado, pois sou cativo e carente da graça plena. Se a minha relação com o criador depender do meu amor, não haverá relação, simplesmente. Você não faz idéia de quanto sou medíocre, diante de tal grandeza.
    Obrigado pelo carinho e preocupação. Você é dez.

  5. Lou, uma das vantagens de vir aqui na gruta é ver que não sou o único que faz burradas na vida.

  6. Desgraça pouca é bobagem …
    Minha vovozinha teve a coragem de matar, cozinhar e me dar de comer ( sem que eu soubesse) o patinho que criei com tanto carinho…
    E aí, vamos criar um grupo de “mutua ajuda”??
    Haja Deus hein Lou?
    bjk
    :o)

  7. Pois é, e eu me cocnsolido a vc. Ao me mudar para este apto. tive de me desfazer da minha Ranya (um labrador negro lindo!). Deixei Deus resolver pq esta idéia de vender a minha casa foi dEle, e Ele o fez. Levou o corretor na minha casa.
    Sei que ela está bem, tenho notícias mas eu até hj não. Se pensar muito, eu choro. Sinto falta dela. Da casa não, mas dela sim. E vou ler o que perdi por aqui.

  8. Isso que dá ficar com a leitura atrasa, mas acho que vi em algum sobre um questionário. Vc o requisitou? Não o encontro em parte alguma. E vi o vídeo do Caio Fábio, que coisa triste e feia, enquanto caminhava com todos eles, me parece, se entendi bem, que encobria tudo. O que mais nós não conhecemos, em nome de Deus.

  9. A metempsicose do Brabo deixou os coments desse post muito estranhos. A Chris até fez 3!!!
    Bem, sobre o Cori, digo com conhecimento de causa: devemos amar os animais e tratá-los com carinho que merecem. Mas, jamais, esquecer da transitoriedade deles (como tb da nossa). Quando se vão, que fiquem boas lembranças, não mágoas.
    Ah, tô debilitado pelo jejum, mas firme!!!

  10. Seu comentário no koinonia foi coisa de irmão mesmo. brigadão! Faço reposição hormonal há 10 anos, conheço bem os sintomas da bandida da menopausa que agravam o quadro depressivo, alem de que fui dogradicta por 24 anos (sex, drog and rock and roll, lembra?).
    Pois é. Como é que vc acha que a “igreja” vê pessoas como eu? Fui “Artista Gospel” por anos dando “ibope” prá mega igrejas, adhonep, coisa e tal…(a artista que se converteu).
    Visitei os bastidoresdo show busines evangélico e agora, como é que vc acha que eu vejo a “igreja”?
    Cansei Lou… é uma pena.
    Amo vc mano.
    bjk
    :o)

  11. Se tem história que me faz chorar, chorar de ficar roxa…é história onde seres queridos desaparecem da nossa vida… não importa a circunstância que isso aconteça, é uma dor que leva tempo pra parar… as minhas mais profundas cicatrizes, foram deixadas por “amigos de verdade” que se foram.

    Isso, as cicatrizes por causa dos amigos verdadeiros que se foram, acontece mesmo. Tem umas aqui, também.

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