A Gruta do Lou

Contador de estrelas

Contador de Estrelas Contador de Estrelas

Não sei se você já parou para contar as estrelas do céu, em uma noite onde somos brindados com a presença delas. Bom, um cara chamado Abraão e eu temos esse costume. No meu caso, esse hábito começou quando era um menino. Naquele tempo, todo mundo fazia isso e eu não fui diferente. Sabia identificar várias estrelas e conta-las, discretamente para não levantar suspeitas.

As pessoas acham que os contadores de estrelas não batem bem. Bobagem, todos os outros é que são loucos. Contar estrelas faz bem e pode nos encher de esperança, afinal foi em uma dessas oportunidades que Deus anunciou ao Abraão que ele iria ser pai, isso quando ele e sua mulher já tinham mais de cem anos. Nesse caso, a euforia nem foi tanto pelo filho, mas pelos momentos de concepção do moleque.

Embora tenha contado as estrelas muitas vezes, nunca cheguei ao final da contagem. Uma vez, passei a noite na praia e fiquei um tempão contando as meninas celestes, mas acho que dormi no meio. Pelo menos não lembro do número que cheguei a contar e tenho certeza que o número das não contadas era imenso. Nunca rejeitei uma oportunidade de dormir ao relento. Quando estive com missionários da Missão SGA (Slavic Gospel Association) em Lins, Áustria, durante um acampamento de verão para estudantes norte-americanos, só sobrou lugar na laje da casa para eu dormir. Peguei um saco de dormir e fui para lá. Claro, dormi contando estrelas.

Imagino que Deus tenha falado comigo muitas vezes, nessas ocasiões. Nada tão espalhafatoso como ele fez com Abraão, mas acho que minha descendência será incontável, também. Desculpem-me os catastrofistas de plantão, loucos para o mundo acabar logo, só para eles não precisarem enfrentar a morte. Gente envolvida com más notícias tem medo da morte e não há nada mais medíocre e covarde do que temer a fúnebre senhora. Jesus em pessoa disse para não a temermos, ele próprio venceu a danada. Nós também venceremos e na boa. Os medrosos também vencerão, apesar disso.

Acho que a vida é dura para quem não recebe bem o que lhe está destinado. Meu caso, aliás, embora nunca tenha identificado onde foi meu momento de rejeição. Provavelmente fui traído por algum preconceito. Cheguei a pensar em coisas como, talvez meu destino fosse dirigir caminhões por nossas inacreditáveis estradas ou ser um marinheiro. Inclusive, cheguei a procurar a marinha para me inscrever, no tempo do alistamento, mas não fui aceito. Encaminharam-me para a escola de cadetes, pois já tinha formação demais. Fiz isso porque apareceu no meu teste vocacional: capitão de navio. Quando me informaram que o negócio incluía passar meses na companhia só de homens, desisti. Verdade, nunca fui muito interessado no Clube do Bolinha, embora parece que o Bolinha resolvia o problema da garotada, diziam.

Ainda assim, sempre achei melhor conviver onde houvesse algumas Louluzinhas, ao menos. Claro, depois que encontrei a minha, sosseguei. Acho que ela estava destinada para mim e me foi prometida enquanto contava as estrelas.

Não sei, no fundo sei o que deveria fazer, se não faço é por preguiça ou falta de vergonha na cara. Minha avó não gostava dessa frase. Ela dizia que não existe quem não tenha vergonha, você pode não ver, mas ela está lá. Pode ser. Sei que a vida teria sido mais fácil se aceitasse meu destino e ele sempre esteve lá, escrito nas estrelas. Deus apenas o lê para os contadores de estrelas.

morcego-12

2 thoughts on “Contador de estrelas

  1. Meu cauro, contar estrelas deve ser + ou – como contar estórias… nunca tem fim, mas alegram o coração de quem o faz.
    Se alguém te perguntar porque vc faz isso, responda: porque elas estão lá…

  2. Exato, faço isso porque elas estão lá. Bom, às vezes uma cai. Sinal de boa sorte, se você registrar o flagrante. 🙂

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