A Gruta do Lou

Confissões de um crente indigente

Refugiados, descontentes, amargurados, impotentes e carentes de alguma ajuda capaz de possibilitar o inicio de uma nova vida, caminham para uma gruta e ali estacionam, enquanto se desesperam.

Alguém tem uma idéia: vamos gritar e todos gritam. Nada. Outro lá convida todos a cantar, em altos brados, um hino de sua preferência e todos cantam. Nada. Lá fora o tempo escurece. Nuvens carregadas anunciam um temporal. Rajadas de vento, trovões e relâmpagos e todos temem. Nada.

A chuva passa. O sol torna a brilhar. De repente, o profeta houve uma voz chamando pelo seu nome. Ele levanta e sai da gruta. A voz pergunta: Estava eu nos gritos? Ou na cantoria? Ou na tempestade?

Sou um canalha itinerante. Cheio de ambigüidades e sutilezas. Não sou confiável, como diria o Hommer Simpson. Melhor não acreditar em mim mesmo. Às vezes sinto orgulho de uma palavra ou ato, mas isso é muito raro. A maior parte do tempo, sucumbo às fúteis crenças em um Deus pagão. É mais fácil. Prefiro imaginar minha miséria como resultado da mentira de ontem ou da desonestidade de ante ontem. Longe de mim aceitar algo como um Deus não intervencionista e gracioso.

Já imaginaram um Deus cujo amor transcende essas minhas questões banais? Me arrepia pensar em um encontro com o divino onde eu estaria pronto a discorrer as minhas reclamações enquanto ele permaneceria em silêncio. Pior se ele próprio me dissesse: Nada disso tem a menor importância. Seria difícil segurar as lágrimas.

Não. Fora com essas idéias liberais e subversivas. Nem ao menos vou ao tanque buscar água. Temo encontrar lá o mestre e ele começar aquela ladainha santa: “se você soubesse quem sou me pediria água e eu lhe daria a água da vida”. Não agüento mais minhas heresias. Era tão fácil pedir, pedir, pedir… Agora não creio em nada disso.

Sei onde ele está. Está nessas ditas brisas sucessoras das tempestades. Chego a rebelar-me. Como ousa me contrariar? É muito duro descobrir a não importância de tantas coisas ditas importantes. E Ele permanece se importando com as importantes. Essa fidelidade me assusta e ao mesmo tempo me constrange. Sou tão mais volúvel.

Invejo esses materialistas dialéticos e sua lógica oportuna e eficaz. Por outro lado, esses caras não experimentam os sentimentos experimentados por nós. Raramente eles se desesperam. Nunca estão onde um loquaz pregador de um evangelho da graça faz uma tempestade parar enquanto os presentes se assombram. Não conhecem a emoção de ganhar mais um tempo, ainda que não determinado, ao lado de um filho cujo prognóstico era não viver. Foi quando nos assombramos com nosso mentor.

Seguirei sofrendo minhas perdas, mas me emocionando com as misericórdias, mesmo que tardias, de um Deus dono de uma benevolência desmedida e surpreendente, ainda que pareça ausente. É a ausência mais presente em minha miséria.

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