A Gruta do Lou

Compaixão Pós Moderna

Não há dúvida que Jesus Cristo equivocou-se, mais uma vez, ao precipitar-se com sua pueril conclamação aos homens de boa vontade em favor dos menos favorecidos, despertando neles a compaixão.

Em principio tudo funcionou bem. Neguinho tirava a roupa do corpo em meio a chuva e o frio para dar a algum infeliz maltrapilho que passasse em seu caminho. Ao fazer isso, a pessoa sentia-se muito bem, como se fosse o próprio São João da Cruz ou a Madre Tereza de Ávila, mesmo que a vítima saísse do episódio perplexa.

Com o passar dos séculos, a coisa foi ficando feia. Cada vez mais a compaixão se transformava no mais insuportável sentimento de desconforto e agressão à miséria humana. Observou-se que essa senhora com aspecto bondoso causava apatia e desinteresse pela luta e, sobretudo, pelo trabalho, ao levar os mendigos à uma crônica mendicância. Concluíram que a compaixão era degradante e perpetuava a miséria.

O fenômeno chegou a tal ponto que 0 filólogo (como gostava de ser reconhecido) Nietzsche disse: “O que é bom? Tudo que eleve no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência. O que é ruim? Tudo que advém da fraqueza. O que é felicidade? O sentimento de que a potência cresce, de que uma barreira é superada. Os débeis e os disformes devem sucumbir: primeira regra do nosso amor ao homem. E para isso ainda devemos ajudá-los. O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão ativa com todos os deficientes e fracos: o cristianismo”.*

Assim o cristianismo tomou partido de tudo aquilo que é fraco, baixo e deficiente. Pensando nisso, nossos irmãos pós modernos resolveram reagir e mudar esse quadro canhestro e melancólico. Resolveram transformar o cristianismo na mais alta promotora do crescimento para o acúmulo de forças, para o poder, pois onde falta o poder, existe o declínio.

A grande depressão norte-americana colaborou muito para isso. As pessoas da classe média perambulando pelo país em busca de trabalho viciaram-se em sobreviver às custas da compaixão cristã e desistiram de lutar por elas mesmas. Foi em meio a esse caos que germinaram os primeiros pastores da vitória e prosperidade, como Norman Vincent Peal o mais famoso entre muitos. Era preciso resgatar a auto-estima daquela gente e nada como um outro Jesus, mais positivo, no pensamento dos maltrapilhos para mudar a sorte deles. Até hoje isso funciona. Eu mesmo trato de ler “O poder do pensamento positivo” em dias de mendicância e indicar aos meus companheiros de vacas magras.

Não se engane com a igreja que se diz ortodoxa e contrária à prosperidade e ao pensamento positivo. Ela mascara seu horror à velha compaixão atrás de um calvinismo seletivo e segregador, classificando os maltrapilhos de não escolhidos e banindo-os às agruras e frieza das desventuras e do horror da vida andarilha e nômade, sem rumo, sem trabalho e sem esperança.

Assim nasceu e floresceu a nova compaixão. Queremos homens e mulheres fortes, destemidos e vencedores. Não reservamos mais espaço aos fracos, combalidos, doentes e mal formados produzidos por um cristianismo irresponsável, liderado por um Messias paternalista, gerador de mentes dependentes e anti-demcráticas. Nosso novo Cristo deixará a cruz, qualquer dia desses, trocando-a pela cadeira numero um da Microsoft ou da Google. Será não apenas o rei dos reis, mas a Besta. Provavelmente re-encarnará negro, formado em Harvard e candidato a presidência dos Estados Unidos. Será alvejado e declarado morto, mas ressuscitará e reinará sobre todos os reinos da terra.

Estou estudando a possível vida em Marte.

* O Anticristo Maldição do Cristianismo – Nietzsche

לּהּמּ

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10 thoughts on “Compaixão Pós Moderna

  1. “Concluíram que a compaixão era degradante e perpetuava a miséria.”
    E tá certo!!! Só não falaram que o poder e a “potência” leva à tirania, violência, egocentrismo e desumanização.
    Será que não tem uma terceira via???
    Será que a “tecla Enter” – do P. Brabo – não dá um vislumbre de alternativa???

  2. Uau!

    Bom, eu sou uma calvinista às avessas Lou! hehehe
    Antes critão do que calvinista, claro.

    (desculpe o sumiço, os dias foram mals por aqui…)

  3. Bruna

    Como dizia meu professor de Novo Testamento, Dr. Russell P. Shedd: “Se você começar a ler hoje, só o que Calvino escreveu sobre a eleição, e você tiver uma vida longa, você morrerá sem ter lido tudo. Não ligue, o Shedd, às vezes era meio grosso. Mas essa é a razão por que tripudio muito com os calvinistas. Talvez ele tenha muita razão e tenha acertado muito mais que errado, o problema é encontrar alguém que domine todo aquela montanha de ensinamentos extra bíblicos, tirando aquela mania que ele tinha de eliminar as maçãs podres, quando governou Genebra.
    Você é e será sempre bem vinda por aqui, mas venha quando der.
    Abraço

  4. Lou,

    não sei mais onde li, mas existem aquelas pessoas “boas” no pior sentido dessa palavra. (Acho que foi em algo de Stott, Contra Cultura Cristã, talvez).
    Penso que o Rubinho está certo, na esteira normal da vida existe sempre um meio termo. O pai que é poderoso um dia e o filho fraquinho e dependente, mas à noite o pai já está caquético e o filho é então forte. E assim a compaixão é um ato recíproco de dar e receber.

    Com exceção das Prostitutas, as demais profissões com P tendem a não receber misericórdia e ostentar sua potência: prefeitos, presidentes, políticos, policiais, padres e pastores. Não é a toa que prosperidade começa também com P.

    Achei seu texto muito profundo e muito bom. Você nos joga pra cima e para baixo num vôo seguro mas emocionante.

    Abrçs,

    Roger

    O Kushner escreve sobre o que de manhã anda sobre quatro pés, no meio do dia sobre dois e à noite sobre três, se referindo ao ser humano que quando bebê engatinha, na maior parte da vida anda sobre as duas pernas e no fim da vida sobre três, pois acrescenta uma bengala. Pode não ser isso, mas é interessante, também, certo?

  5. Muito bom estava hoje mesmo pensando em fazer um texto traçando um paralelo entre o super-homem de Nieschtze e o criado pela igreja…

    Alguém me perguntou (entre muitos insultos que recebi) essa semana se era pecado desejar ganhar dinheiro. Entre nós (cristãos) essa crença deixou de existir, imagine entre os que não crêem. Pior, onde foi parar o Amor Ágape, aquele amor que não se comparava a tal compaixão dos católicos, posto que emanava do Criador. Acho que perdemos o bonde em algum lugar, certo?

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