A Gruta do Lou

Compaixão

 

Esse texto foi resgatado da Gruta, postado originalmente em dezembro de 2005.
Eu me lembro sempre, daquele bolo que um empresário cheio de “compaixão” manda preparar todo final de ano, em um bairro onde moram pessoas diferentes dele, em uma mesa imensa e em minutos é consumido vorazmente pelos presentes, numa cena de loucura impar.

Mas de onde vem esse sentimento: “A Compaixão”?

Olha, ele não é novo. Os dicionários esforçam-se para defini-lo. Só não sei se satisfazem esse objetivo.

Compaixão segundo Aristóteles

Há um trecho no livro “O Anticristo” de Nietzsche com poder para nos ajudar nessa dúvida. Primeiro porque foi escrito no século dezenove e depois o autor tinha traumas enormes causados por sua educação cristã. Vamos ao texto:

“Chamamos o cristianismo de religião da compaixão. A compaixão encontra-se em oposição aos efeitos tonificantes que aumentam a energia do sentimento vital: ela tem um efeito depressivo. Perde-se em força, quando se tem compaixão. Com a compaixão aumenta o sofrimento e ainda se multiplica a perda de força que prejudica a vida.

O próprio sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; em algumas circunstâncias a compaixão pode levar a uma exaustão integral da vida e da energia vital, exaustão que está numa relação absurda com o quantum da causa (como no caso da morte do Nazareno). Esse é o primeiro ponto de vista, contudo existe um mais importante.

Uma vez que se mede a compaixão segundo os valores das reações que ela costuma trazer a tona, então seu caráter mortalmente deletério surge numa luz ainda mais clara.”

Mais a frente, ele encerra o assunto com chave de ouro dizendo: Como se sabe, Aristóteles via na compaixão um estado doentio e perigoso, que poderia ser superado tomando-se um purgante ocasionalmente: ele entendia a tragédia como uma purgação. Nada é mais doentio na nossa podre modernidade do que a compaixão cristã

Sentimento estranho esse, não? Nessa época, parece haver uma conspiração global em nome dele.
Tomados de compaixão, pessoas físicas e jurídicas visitam compulsivamente casas e abrigos onde estão pessoas, digamos, menos favorecidas e cheias desse sentimento realizam atos, no mínimo, muito exóticos.
Ano passado, eu estava prestando serviços à uma dessas casas, por acaso. No meu caso era trabalho remunerado, se bem que, em parte voluntário, se olharmos o valor acertado, o que não muda nada porque tomados de intensa compaixão, até hoje não me pagaram por meus trabalhos.

Mas o ponto a ser enfatizado aqui, é a quantidade de pessoas que aparecem lá levando todo tipo de coisas. Das horrendas cestas básicas montadas com produtos de quinta categoria (como sempre), até móveis velhos, passando por brinquedos chineses ou usados, roupas usadas, restos de comida de natal, não doados aos funcionários de uma fábrica, dinheiro (inclusive dos EUA, em dólares, esmolas). As tais migalhas que esse pessoal está acostumado a receber, pois provém do mais profundo sentimento de compaixão da parte dos doadores.

E amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mateus 19:19 Lv.19:18

Certamente, não é de Deus ou de Jesus Cristo tal ideia. Nada poderia estar mais longe da verdade cristã e do Amor Ágape de Deus do que esse sentimento horroroso que se apossa das pessoas, especialmente, dos “cristãos” .

1 thought on “Compaixão

  1. Compaixão é algo que não se define… é fruto de um amor, e, amor também não se define.
    Lou, existe diferença entre conceito e coisa em si. Porque jamis um conceito, sendo abstracto, conseguirá definir algo físico. Principalmente, porque o conceito é fruto da abstracção humana, sendo cada pensamento abstracto condicionado.
    Como definir pensamento de cada um acerca da compaixão?
    Compaixão VIVE-SE não se define.
    Misérias? Sempre as houve. Sempre as haverá.
    E nós?
    Temos “Compaixão”?
    T.

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