A Gruta do Lou

Chupando o dedo

Em toda essa série de artigos preocupados com a soberania de Deus e a liberdade do ser humano dá para perceber que algo anda incomodando os vários pensadores. A história é velha. Volta e meia retorna à tona.

De minha parte, posso assegurar minha total, irrestrita e completa confiança na bondade de Deus. E mais, sou um compulsivo perseguidor de conhecimentos a respeito da vida e obra de Jesus Cristo. Sei, e melhor do que muita gente, como Deus intervém nesse mundo presente. Meu problema é que ele raramente o faz em relação à minha pessoa.

Mas, estou careca de tanto ver Deus operando na vida de tantos à minha volta. Aliás, essa é uma das razões pelas quais não tenho prazer em ir à igreja, mais. Sinto uma inveja horrível das pessoas que lá estão, especialmente, quando as ouço relatar as maravilhas que o Divino faz em suas vidas. É uma prodigalidade sem fim. O Silvio Santos deve ser outro que morre de inveja do Criador, só que por motivos inversos aos meus. Eu me incomodo com a quantidade de carros, casas, empregos, prosperidade, salvação, eleição, curas, casamentos, etc… fartamente distribuídos ao povo, enquanto eu fico lambendo os beiços, fora sonhos, revelações e palavrinhas de consolo. O Silvio deve sofrer por constatar que tem alguém capaz de fazer isso muito melhor do que ele e sem Baú da Felicidade.

Nem é necessário ir a Igreja para irritar-se com isso. Às vezes fico assistindo o canal da Igreja Universal, durante horas. Uma pessoa atrás da outra aparece para contar a quantidade de coisas que Deus fez na vida delas. Teve um que não estava contente com a esposa. Segundo ele, ela tinha mania de lavar roupa para fora (adulterar). Então, Deus levou essa mulher horrível através de um câncer daqueles bem cabeludos e lhe deu outra, mais jovem e muito mais bonitinha. Cheguei a ficar a madrugada inteira assistindo esses programas. Sou um pouco masoquista, desde criança, quando meu pai nos levava à sorveteria para ver os ricos tomando sorvetes.

Sabe, Jesus declarou que sua missão era para os doentes, os combalidos, os desprovidos, os farrapos, incapazes de falar e escrever o idioma pátrio corretamente, gente como eu. Logo de saída orientou, claramente, seus discípulos sobre ensinar o que ele os havia ensinado. Mas essa direção perdeu-se ao longo do tempo. Sofredores são repugnantes e os representantes do Pai do Nazareno não tem a menor paciência com essa gente. Vai ver, é por isso que pessoas assim não recebem as provisões celestes. Dessa forma, ficam distantes da Casa de Deus e não chateiam o clero e seus seguidores.

Sei lá, não estou querendo criar nenhum novo dogma. Só sei que essas benesses dificilmente chegam à minha casa. De vez em quando uma migalhinha. Ai eu saio todo orgulhoso falando da bondade divina para todo mundo e pimba, a seca começa outra vez, entremeada a terríveis furacões de elevado espectro de destruição. Lá se vai o carro, a casa, o crédito. Se bobear, vai mulher, filhos, cachorro, calopsita e coelho. E o coelho ainda vai dar aquela olhada de desdém, antes de sair, significando: vagabundo incompetente.

É isso. Por mim Deus é bom e deve continuar a ser. Jesus Cristo é o maior acontecimento proporcionado pelo Pai dele à história da humanidade, em todos os sentidos. Minha queixa é não fazer parte do elenco. Também, com a minha ficha pecaminal, não seria diferente. Ah! Esse é o detalhe, só recebe todas aquelas coisas gente que abandonou o pecado. Eu bem que tento e gostaria, mas volto e meia, meto os pés pelas mãos. Claro que só acontece comigo.

Um calice pouco sagrado

3 thoughts on “Chupando o dedo

  1. Lou, exatamente como eu sinto: não duvido em absoluto do poder de Deus, duvido do poder dele para comigo. Aí dei conta de entender que isso era um pecadaço, ou seja, eu me achava tão especial, mas tão especial, que nem Deus me alcançava. Pedi perdão por isso, me arrependi no pó e na cinza mas…nem por isso minha situação mudou. De vez em quando recebo uma bençãozinha ou outra, sem falar, claro, do kit básico que recebi quando nasci e que diga-se de passagem tá funcionando com poucas necessidades de ajustes. Mas…

  2. Bete

    Em verdade meu alvo é a falsa religiosidade ou as falsas crenças. Sobre Deus, devo confessar: Não sei quase nada.

  3. Gymnopedie, do Eric Satie, me faz lembrar Deus e, como Augusto dos Anjos, fico me sentindo muito mal quando dúvido da infinita bondade dele, do Deus.
    Mas se eu me retirar da esfera egoísta noto a minha vida boa, com as pessoas pelas quais tenho demasiado apreço merecendo mais dias de vida, um a mais.
    Não sei exatamente do quê reclamo.
    Não sou triste, nem feliz, não sou nem distímica.
    Tenho certeza de que Deus é bom comigo e com todos, só não sei o que é bondade. As vezes penso que é bondade o que me satisfaz, mas aí eu entro no egoísmo novamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *