A Gruta do Lou

Chocando Ovos de Serpente

Cena 1

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Em meados de outubro/novembro 2015, um amigo me apresentou ao presidente de uma missão brasileira, com objetivo de fazer missões internacionais, à época com sede em Vitória – ES, para trabalhar no desenvolvimento (fazer amigos e captar recursos).

Prontamente (lá para março 2016), depois de certa pressão do meu amigo e outra de minha parte, fui a Curitiba, então a nova sede da organização. Houve duas conversas com o presidente por Whatsapp, no meio disso e o convite. Eles pagaram a minha passagem aérea.

Chegando lá, ainda no aeroporto, depois de uma espera de quase duas horas pelo presidente que chegou em outro voo e a recepção amistosa dos curitibanos ao Deputado Federal Jair Bolsonaro, fomos para o escritório da Missão, onde tivemos uma reunião.

Além do presidente, participaram mais dois diretores, o diretor executivo e o responsável pela área de marketing. Ali, ficou claro que, dificilmente, chegaríamos a algum lugar.

Eu esperava ser o Gerente de Desenvolvimento da Missão com um bom salário e eles estavam dispostos a me dar licença para mobilizar recursos (o mesmo que captar recursos, levantar fundos ou fazer fundraising) pelas igrejas de São Paulo, pela fé (sem qualquer remuneração).

Após um almoço que me deu vontade de procurar uma padaria por perto (doce ilusão, como alguém pode viver em um lugar onde não há padarias?), mas nem um mísero boteco.

Em seguida, o diretor de Marketing foi escalado para me levar até o acampamento deles, onde estava acontecendo o treinamento de mais uma turma de missionários. Fui informado que ficaria lá até o dia seguinte, para conhecer o trabalho de preparação dos obreiros deles.

Ele deu uma passada em casa para ver sua esposa, grávida e já em dias de parto. Então partimos e caiu uma pancada de chuva inesperada durante o caminho. Quando chegamos ao local, como sempre um lugar cheio de terra, arvores e muita água, o portão estava fechado e ele me pediu para descer e abri-lo. Lá fui eu, com o dobro da idade do irmão, enfiar o pé no barro, ainda sob chuva e um pouco zangado.

Levei minha mochila para o barraco dos rapazes. Eles queriam desalojar algum aluno de uma das camas debaixo para facilitar pra mim. Você já deve ter ido a algum desses lugares infames, tipo Palavra da Vida, Jovens da Verdade e equivalentes, sonde sempre há esses barracos cheios de beliches com colchões finos.

Os caras que inventaram isso, sem exceção, foram soldados que voltaram da caserna absolutamente neurotizados, com certeza. Perguntei onde ficava o banheiro. Logicamente, ficava fora do barraco e longe. Você que precisa ir ao banheiro duas ou três vezes durante a noite já deve estar imaginando meu estado psicológico nesse momento psicodélico.

Bom o programa que eu precisava acompanhar era uma aula, cujo o professor era o presidente da Missão. Ele não tinha um plano de aula, mas falou durante mais de duas horas. Em pouco tempo, eu já estava pescando e precisei sair umas três vezes da sala para ir lavar o rosto e tentar ficar naquele lugar acordado, com as janelas fechadas e umas quarenta pessoas respirando.

À noite, após o jantar (se na cidade não tinha padaria por perto, imagine lá no meio do mato!) e tome outra dose de palestra do presidente sem plano e, muito menos, participação dos alunos.

Durante aquela perigosa noite, só precisei ir ao banheiro uma vez. Evidentemente, tratei de ingerir o mínimo possível de liquido e deu certo. Não sei porque todo banheiro desses acampamentos tem aquele defeito de construção em que os odores não se dissipam e ficam lá esperando a quem possam tragar.

Imaginei que se eu levantasse às seis horas, teria uma chance de tomar banho antes dos outros e com o banheiro limpo. Ledo engano, o banheiro não havia passado por nenhuma limpeza e a coisa estava feia. Enfim, se meu banho fosse gravado em vídeo, daria um excelente vídeo cacetada. Ainda bem que fui um dos únicos a tomar banho naquela manhã.

Sempre tive enorme dificuldade em ficar fora da minha casa, minha cama, meu banheiro, etc. As pessoas não entendiam porque eu não aceitava convites para esses lugares tenebrosos, na maioria das vezes.

Após o café, teve uma hora de devocional e eu passei esse tempo na maior agitação. Poucos sabem que uma das únicas coisas capazes de me deixar agitado são os tais momentos de a sós com Deus e os irmãos não mudam nunca essas dinâmicas sem sentido.

Mas, aconteceu algo ali, fui inteirado sobre o programa deles para os refugiados. Sim, essas pessoas que estão sendo recebidas no nosso país oriundas do oriente médio sob guerras e o domínio do Estado Islâmico, haitianos, africanos etc.

Muitos deles chegam com o rótulo de cristãos, seja porque faziam parte de alguma igreja cristã em suas cidades de origem ou por tornarem-se cristãos do dia para a noite e obter apoio como cristãos. Então lembrei da serpente colocando seus ovos.

Não fiquei nada tranquilo com as informações que me foram passadas, pois os critérios me pareceram temerários ao extremo. Eles já estão abrigando várias famílias em outro local, segundo relataram, mas não fui convidado a conhecer o lugar e aos refugiados, tão pouco.

Olha, por alguma razão, lembrei de Jesus quando a mulher lavou os pés dele com lágrimas e enxugou com os próprios cabelos. Então Jesus disse-lhes após alguma piadinha infeliz de seus discípulos: Entrei em sua casa, e não me deram água para os pés mas esta, com suas lágrimas lavou meus pés, como é tradicional. Ela, todavia, desde que cheguei não cessa de me beijar os pés.

Pô, podiam me convidar para dar um boa noite para o pessoal, orar pelo alimento ou até dar aquela aula ou parte dela no lugar do presidente que havia viajado de muito mais longe que eu. Afinal não fui um missionário tão ruim assim que não mereça ser honrado compartilhando um pouco de minhas experiências em missões e com jovens recrutas.

Poderiam ter me alojado em um hotel, que poderia ser um IBIS qualquer da vida e me levar para comer em um bom restaurante, mesmo desses Por Kilo ou uma pizzaria. A mensagem que eles me deram foi bastante negativa e saí de lá sentindo falta de um pouco mais de carinho e respeito. Tenho medo de tentar entender a causa disso. Nunca tinha visto aquela gente antes.

Agora leia a Cena 2

lousign

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