A Gruta do Lou

Catador de Papéis

Recebo, por E-mail, um newsletter da Revista Ultimato, mensalmente. Reparei, no último, que o tema do mês era Missões. Coisa ultrapassada. Estamos em plena revolução da informação via internet, com Twitter e Skype via Iphone. O blog parece estar passando, assim como as redes sociais, muito rápido. Em meu quarto ano blogando, já estou velho por aqui. Aliás, menções à minha velhice andam muito comuns. Quando era menino, homens da minha idade não eram velhos. Naquele tempo, os homens ficavam velhos aos setenta anos. Mas na velocidade atual, a velhice chega aos quarenta e poucos. Sinto que o blog começa a ter dificuldades para respirar. Os dias estão contados.

Se eu contar que já fui um missionário, todos rirão de mim. Minha estampa atual não diz nada sobre meu passado vergonhoso. Imagine, fiz missões em favor da igreja sofredora. Poucos sabem ou lembram que raios era isso. Sentem aqui à volta, que vou lhes contar:

Vidas perdidas

Muito tempo atrás, a Europa era dividida por um muro, singularmente conhecido como o Muro da Vergonha. Tudo bem, não precisa acreditar, tome isso como mais um dos meus “calsos”. Quem vivia do lado oriental do muro estava sujeito a um regime político maluco, controlado por uma coisa denominada URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas), comandada pela Rússia, do qual faziam parte várias nações anexadas por esse regime. As igrejas não eram muito bem vindas, afinal Marx teria instruído seus simpatizantes sobre as instituições capazes de enfraquecer o sistema por ele concebido, o marxismo e era a mais perigosa dentre todas. Se bem que a URSS não implantou a proposta de Marx em sua totalidade, mas a frase marxista: “A religião é o ópio do povo” caiu como um raio no oriente europeu soviético. Com isso, a igreja como um todo (diversas seitas e denominações) foi atingida por lá e tornou-se alvo de sangrentas disputas; a chamaram “Igreja Sofredora”, no lado ocidental. A URSS restringiu a liberdade religiosa à quase zero, assim. Se bem que a tolerância religiosa dos soviéticos chegou a zero, em certos momentos. Dos milhões de mortos por esse regime totalitário, grande parte era ligada à igreja e perdeu a vida por causa dela.

E eu fui levado a testemunhar essa vergonha toda, vergonha universal. Minha missão foi de pesquisa: verificar a situação dos cristãos em meio à perseguição. Sei quanto é difícil imaginar algo assim, se fosse ontem, todos tomariam como uma história típica do Dia da Mentira. Talvez eu mesmo tenha certa dificuldade em acreditar que tudo aquilo tenha acontecido mesmo.

Vida Desperdiçada

Meu primeiro alvo foi verificar a existência de cristãos na Albânia, na época sob um regime marxista leninista independente da URSS e mais próximo à China Comunista, se bem que os albaneses classificavam russos e chineses como revisionistas, pois os achavam distantes das verdadeiras propostas de Marx e Lenin. Depois passei por Polônia, Tchecoslováquia (país que não existe mais sob esse nome), Rússia e Alemanha Oriental. Cruzei o tal muro em Berlim, vindo do lado oriental para o Ocidental. Encontrei e conheci muitos cristãos por lá, alguns me pareceram muito autênticos, muito mais dos que eu conhecia em nosso mundo ocidental. Parece que a perseguição teve algo de positivo, por mais paradoxal que pareça. Depois fiz relatórios por escrito e através de relatos orais ao grande irmão do leste, os norte-americanos. Vergonhoso! Fui muito bem tratado nesse tempo. Ganhei lugar em uma importante missão internacional e, durante algum tempo, vivi privilégios, pois era um missionário raro, particularmente no Brasil.

Essa mordomia foi fugaz. Em 1989 o muro da vergonha caiu, os soviéticos socialistas se transformaram em capitalistas corruptos, rapidamente, como todos nós e a igreja recuperou boa parte de sua liberdade. Triste é constatar que com isso a igreja tenha enfraquecido no mundo todo. Quando havia a Igreja Sofredora no leste europeu, a igreja mundial era melhor, mais engajada e digna. Às vezes, até era possível sentir a presença de Deus ou os ensinamentos de Cristo nela. Os livres tratavam de apoiar os restringidos e havia grande comunhão entre os crentes. Mas isso ruiu com o muro. Nessa época, a vida já havia se tornado dura para mim.

Caçando Papel

Assim fui rapidamente esquecido e considerado um velho ultrapassado. Nem minha família conseguiu reter o encanto daquela época. Virei esse caco sem direito à aposentadoria ou à dignidade profética. A igreja não tem nenhum esquema para amparar seus velhinhos missionários. Nem no livro de missões da Ruth A. Tucker ( Até aos confins da Terra) onde a norte americana Barbara Burns escreveu o capítulo sobre missões brasileiras fui mencionado, embora ela me conhecesse e soubesse de minhas andanças. Meus companheiros da época não estão em melhores condições. Fomos todos varridos para baixo do tapete, com exceção do Jonathan e da Valnice que aderiram à teologia da prosperidade, com todas as forças, abandonando essa bobagem missionária. Os missionários dos tempos modernos galgaram o palco e tornaram-se ídolos, embora suas missões não passem de bla-bla-bla vazio de realizações. Nem nas favelas eles se sujeitam a pisar. Nem eu entraria em uma delas se andasse por aí em uma Harley Davidson.

Bom, hora de começar a mendigar e a catar papéis pelas ruas. Quem sabe não encontro um novo papel por aí. Qualquer dia, contarei mais histórias fictícias missionárias para vocês, meus netinhos.

7 thoughts on “Catador de Papéis

  1. Vovô Lou,(rsrs)

    Bela história.

    Esquenta não. Os menores serão os maiores. Os grandes serão pequenos, etc. Essa é a lógica do reino que sinto nas palavras de Jesus Cristo

    Abraços.

    Depois desses anos todos, assimilei a dor. Falo isso para tentar amenizar o lado das futuras gerações. Quem sabe esses não sofram tanto…

  2. Lou, (comentário sério) é a velha história do lixo do mundo…
    (comentário menos sério) a melhor maneira de ajudar os catadores de papel é através das 4 leis espirituais e coisas do gênero. rsrs
    Gostei da Harley, difícil associar isso com alguém do ramo, salvo engano.

  3. Eu respeito muito os velhinhos catadores de papel…vejo em seus olhos ,vazios de esperança,uma teimosia em continuar seus dias
    numa sub-vida,aceitando viver com o que lhes aparece pela frente…pois é o que lhes resta.Muitos nos contam a sua história
    de vida, e custamos acreditar que tenham se transformado tanto…
    Agora,minha indignação é ver catadores de papel,no início da sua
    vida,em formação ainda,puxando carrinhos…vejo em seus olhos,não
    o vazio, a desesperança,mas uma grande revolta,indignação,e o
    sentimento que nunca,nada será diferente.

  4. Peraí Lou, só se você está velho de Blog. E deixa de história, Blogs não vão acabar. Estamos vivendo em uma sociedade onde a estimativa de vida mudou. Portanto com a sua idade você não é considerado velho de jeito nenhum. A terceira idade, hoje é até é chamada de “a melhor idade”! E você nem chegou lá.
    Você teve a honra triste, mas teve, de conhecer a Igreja Sofredora, essa que merece ser escrita com I maiúsculo. A Igreja onde um pedacinho de papel da bíblia era disputado, onde as pessoas se escondiam pra falar de Cristo,etc e tal…
    Os homens de destaque no meio “evangélico” não sobem em favelas, mas nós, subimos? Temos subido? Com Harleys, ou sem elas?
    Que catar papel que nada, meu amigo, porque meu velho não direi,
    vamos de fé que dá mais certo, vamos lutar pra tirar esses catadores daí e dar-lhes serviço mais digno e menos penoso. Vamos fazer missões.

    Falo só por mim, no caso de trabalhar em favelas não passo vergonha, mas citei isso como exemplo para mostrar que se eles não tiram o bum bum da cadeira pastoral para fazer missões de ponta, ainda que de vez em quando, sempre há uma favelinha à mão para distribuir umas cestas básica, no mínimo. Poderia ser qualquer outra coisa, até algo mais criativo.

  5. Uia! Ventos novos ventando na Gruta. Ou será o sopro de fora da caverna de Elias?

    Quem vencerá essa queda de braço?

    Aguardem cenas dos próximos capítulos…

    Um dos meus milhões de defeitos é não ser capaz de me deixar manipular. Perdi grandes e pequenos amigos que tentaram assumir o controle de minha mal administrada vida, pouco ou muito. Mas tento levar a Gruta como um projeto comunitário e aí, não se trata de defender a minha autoridade, mas de não deixar ninguém assumir o controle sozinho. Mais ou menos como no caso do Brasil. Coisa fácil.

  6. Oi Lou, tudo bem?

    Gostei da aula de história por aqui.

    Bom fim de semana prá vocês!!!

    Aula de história? Nem me dei conta. Mas missões virou mais do que história, virou pré-história. Negócio agora é fazer tudo com “propósitos” e iphone nas mãos. BFS para vocês, também. Não exagere no shucruts. 🙂

  7. É duro ver o distanciamento do verdadeiro evangelho, de missões e do sofrer por Cristo… As pessoas precisam dos seus milagres, precisam barganhar.
    Que o Senhor te honre por td que fizeste em nome dele.
    Bom fds Lou!
    🙂

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