A Gruta do Lou

Casa da Praia Grande

Casa da Praia

Casa da Praia

Casa Vila Mirim Casa Vila Mirim

Embora fôssemos uma família de classe quase média, meu pai comprou uma casa vagabunda na Praia Grande, uma das maiores do mundo. O lugar chamava-se Vila Mirim. Nunca entendi o significado desse nome, afinal, vila é um diminutivo e chamar o lugar de vila mirim só pode ser para mostrar quão pequeno o lugar é. Interessante informar-lhes o quanto isso não era verdade. Distava uns duzentos metros da praia e trezentos do mar, em dias de maré baixa.

Havia lá um restaurante, o Morada do Sol, quase em frente de nossa casa, só uns cinquenta metros na direção da praia. Nunca ouvi dizer que pequenas vilas tivessem um restaurante. Já estive em muitos restaurantes e alguns dos melhores, mas nada se comparava ao Morada do Sol. Lá, tudo era mágico, a pescada, o bife a parmegiana, a pizza as sextas e sábados e os sundaes cobertos com creme chantilly. 

Era muito legal, pois quando estava dormindo o barulho, das ondas quebrando, entrava no sonho, para o bem ou para o mal, não importa, quer você quisesse ou não, só dormia com aquele ruído, ou não dormia. Fora o restaurante, havia um armazém dirigido por uma família portuguesa, mas em outra rua, uns quatrocentos metros em direção oposta à praia. Seu Manoel tinha um bigodão, muito engraçado, com as pontas enroladas para cima e Dona Amélia sempre estava de vestido e avental, nunca a vi de maiô ou qualquer roupa mais apropriada para praia. Até que havia lá o bastante para as temporadas, se bem me lembro. As linguiças defumadas penduradas são inesquecíveis. Ninguém reclamava de algo faltando, do preço ou do atendimento, sinal de concordância e satisfação. A se fosse o Geraldo lá, seria só chiadeira.

Quem poderia desejar algo melhor? Um lugar sossegado, com um bom restaurante na porta e um bom armazém, e claro, a praia com tudo, areia, mar e as… sereias, fora o futebol, de primeira. O espaço era muito grande, mesmo em dias de superlotação ficávamos muito a vontade. Nos primeiros anos, gastava a maior parte do tempo no mar. Para me tirar de lá não era fácil. O pessoal me chamava umas quatrocentas vezes antes de obter algum resultado. Eu só gritava: Já vai! Mas não saia do lugar, se não fosse mais ao fundo ainda.

Descobri, com meus amigos vilamirinenses, a existência da formação de um banco de areia, a duzentos metros da praia, mar a dentro, durante o verão e dependendo do horário. Problema é que, antes do meio dia, a distância até o banco era a metade da distância após o meio dia. Então, aos poucos, os turistas vinham, só para conhecer o fenômeno, entravam no mar e caminhavam até o banco, antes das doze badaladas, poderiam chegar até o banco caminhando. Da mesma forma se voltassem antes da subida da maré. Fui testemunha e protagonista de centenas de atos de salvamento de turistas que tentavam ir ao banco após o meio dia. Com a maré alta, além de não dar pé, formava-se uma corrente entre a praia e o banco e era impossível ultrapassar aquele espaço, se o cara não fosse bom de mar. Voltar de lá, para essa gente, nem pensar, naquele horário. Outro probleminha é que se antes das doze a água batia nos joelhos lá no banco, depois ela subia muito além da careca, mesmo dos mais altos e ficar lá não era uma opção.

Nós, os meninos de Vila Mirim, ficávamos brincando com nossas pranchas de pegar jacaré. Iamos ao banco na maior facilidade, a qualquer hora, e éramos só meninos. Isso era um grande golpe para os turistas. Invariavelmente eles pensavam: “se essa cambada de moleques magrelos conseguem, então, para nós, será moleza”. Era a marca do diabo. Quando nos perguntavam, avisávamos do perigo e dificilmente nos davam ouvidos. Eles iam, se fosse cedo, chegavam lá e só davam trabalho na volta. Se fosse tarde, o problema aparecia na ida. Nós ficávamos esperando. O cara nadava, nadava, nadava e não saia do lugar. Tentava achar o chão com os pés e nada. Na terceira tentativa, afundava e não voltava. Nós tínhamos a operação pronta, formávamos uma corrente humana, em segundos, aí todo mundo participava, homens, mulheres e crianças. Nós, a cambada de moleques magrelos, tínhamos a missão de achar o marmanjo e conectá-lo à ponta da corrente e então o infeliz era puxado. Os métodos convencionais de salvamento dificilmente eram usados por causa da correnteza. Nós sabíamos usar a corrente a nosso favor e era como se ela não houvesse. A maioria nós conseguimos salvar, acho que só uns três ou quatro morreram, no meu tempo lá.

Ah, tinha a casa, a parte mais significativa da história. Não era fácil chegar. Papai costumava viajar em etapas. Saíamos de casa em nosso Fusca azul ou Dauphine, o nosso era salmon, e logo vinha a primeira parada: a feira. Claro, os meninos ficavam no carro enquanto eles demoravam horas comprando um monte de coisas tolas, tais como frutas, legumes e verduras. Pelo menos, ganhávamos um pastel de queijo e esquecíamos a longa espera. A próxima parada era no posto, ou era o contrário, bom isso não importa. Enchiam o tanque, calibravam os pneus, lavavam os vidros, uma eternidade. Aí chegava a estrada propriamente dita, e levava horas até a entrada de São Vicente, com direito a uma parada na serra para tomar água da bica e refrigerar os carros mais velhos. Era onde meu pai sempre repetia: Que vista linda!

Depois vinha a famosa travessia da Ponte Pencil. Na melhor das hipóteses, uma hora na fila. A travessia era um espetáculo à parte. A ponte tinha só uma mão, então os caras liberavam cem carros para lá e depois cem para cá, controlados por um farol manual, na entrada da ponte. Nem me pergunte como era feita a comunicação entre os dois lados. Enquanto o carro caminhava sobre ela, o barulho era ensurdecedor, devido ao movimento das madeiras, o piso da velha ponte.

Depois da ponte ia tudo bem se papai não resolvesse passar na peixaria do japonês no Boqueirão e seguir pela praia até a Vila. Enfim, chegávamos na casa, um castelo de quarto, sala, cozinha e banheiro e que banheiro. Minha mãe, sei lá por que, entrava na casa e ia direto à cozinha abrir o forno do velho fogão que viera da casa da vovó, “post morten”. Pronto, era o primeiro grito das férias, ela sempre achava um camundongo fazendo a festa lá dentro e saia correndo, após o grito. Meu pai, com a paciência de inicio de férias, ia lá e caçava o bicho, com a ajuda dos moleques, meu irmão e eu, no mínimo, todos devidamente armados com vassouras, etc.

Feito isso, começava o descarregamento do carro. Na sala, os dois velhos sofás que durante anos habitaram nossa casa em São Paulo, antes de descerem a serra, mais a mesa de armar. No quarto, o velho guarda-roupas que foi de vovó, dois beliches e um monte de colchões, dependendo do número de hospedes, eles entravam em ação de noite, espalhados pelo chão, homens na sala, moleques inclusive e mulheres no quarto, molecas inclusive. Durante aquelas noites, as baratas passeavam entre as pessoas e alguns gritavam e pulavam, dizendo palavrões. Uma mulher queria ir embora em plena madrugada, só concordou em ficar quando o maridão prometeu ficar ao lado dela acordado, enquanto ela dormia. Mulheres possuem algum componente que atrai ratos e baratas, acho.

O banheiro era um pouco pequeno, só entrava mais de uma pessoa ao mesmo tempo se fosse um casal casado. Naquele tempo, ninguém fazia sexo antes do casamento, eu acreditava. Todas as noites os adultos jogavam buraco enquanto nós, os moleques e molecas, brincávamos de passa anel, na adolescência e de outra coisa mais picantes quando nos tornamos  jovens.

Triste mesmo era a volta, parar no armazém do português, esperar o pai acertar a conta e depois subir a serra. Deus não estava muito presente naquele tempo, muito menos em Vila Mirim. Só aparecia nos dias normais, tempos de escola e notas baixas, então eu pedia uma forcinha nos dias de prova. Na nossa casa da praia, o Barba Branca podia esquecer de nós, pois lá só aconteciam coisas boas. Nunca foi lá um Guarujá, mas para nós era até melhor, melhor do que nunca ter visto o mar, sentido a areia da praia nos pés e o sol capaz de mudar nossa cor natural, todos os começos dos anos.

morcego-12OPS: A casa foi totalmente modificada pouco tempo depois dessa foto, ficou mais alinhada e com cara de casa bem cuidada, embora tenha continuado a ser simples. O jovem sentado no para-choques do fusca é só um intruso que não aceitou fazer o favor de sair dali na hora da foto. Caras assim, com tanquinho na barriga, olhar fixo e sem sorrir, quero distância. 🙂

4 thoughts on “Casa da Praia Grande

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Lou

    Meus pais até hoje tem casa em Peruíbe, a história remota é muito parecida…mas demorava mais para se chagar lá, pela BR116

    Feliz dia dos pais !

    Conheci Peruíbe na mesma época e viajei pela estrada da banana e a BR116, também. Imagino quantos não viveram quase a mesma história que vivemos.

    Feliz dia dos pais para você, também!

  3. É uma história de aquecer corações, enquanto se olha a chuva pela janela… uma chuva doce, que nos alivia a alma.
    São estas lembranças que buscamos, sempre que a vida teima em nos maltratar.

    Maltratar até entendo, mas o exagero nisso e insuportável.

  4. Que bacana suas recordações, gosto de ler sobre pessoas que estiveram na vila Mirim de antigamente.

    Pois é, cá estamos e nossas mãos estão nas calçadas da fama da Vila Mirim. 🙂

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