Carta ao Papa

São Paulo está ficando uma cidade muito importante Não que não fosse. Mas tem recebido reconhecimentos tardios. Em pouco mais de um mês, recebeu o Bush e agora o Papa Bento XVI. Como fiz, quando da vinda de Bush, estou repetindo o gesto agora, ou seja, aproveitei a estada do presidente americano para enviar-lhe uma carta e estou aproveitado a estada do Papa para fazer o mesmo.

No caso da carta ao Papa, escrevi e entreguei em português, pois ele domina a língua, plenamente. Veja o teor da missiva:

Minhas saudações iniciais à Vossa Eminência

Sou o Lou da Gruta. Sei que o senhor a conhece bem. Minhas fontes infiltradas no Vaticano me mantém informado de suas incursões anônimas ao Blog. Dia desses, V.E. chegou a repetir frases inteiras, de um post meu, ao povo prostrado na Praça de São Pedro. Disseram-me que V. E. curte, nos bastidores, as palavras ácidas contra os ortodoxos e se locupleta com minha ironia, chegando a gargalhar das minhas infelicidades. Parece que o senhor utilizou o texto Missões em Abaré, durante uma semana, enquanto excursionava pelos banheiros do palácio papal. Assim, eis me aqui senhor.

Meu objetivo é incumbir-lhe de transmitir a Deus algumas das minhas considerações e perguntas. Considero V.E. uma pessoa esclarecida e, portanto, capaz de suportar minhas curiosidades e exigências.

Fique sabendo V.E. que a maior parte dos fieis de sua igreja, no Brasil, não é fiel. Sim, eles professam a religião católica de dia, mas praticam o espiritismo, em suas várias matizes, à noite. Doam em suas paróquias douradas esmolas ínfimas, enquanto deixam milhares de reais nos terreiros de macumba. Até esse que vos saudou, em sua chegada, acende uma vela para nossa senhora e outra para Xangô.

Se me permite, V.E. veio disposto a condenar seus seguidores que são favoráveis à legalização do aborto. Além disso, deixou clara a sua posição contra a corrupção na política. Muito bom. De fato, abortar não é nada bom, que o digam os abortados, e, muito menos, corromper-se enquanto se está ocupando cargos públicos.

Sabe santidade, como V.E. representa Deus aqui na Terra, imagino que o senhor possa levar um recadinho meu ao maioral, seu chefe barba branca. É o seguinte: o Thomas (meu filho mais novo) está aniversariando hoje, dezenove anos. No dia em que ele nasceu, os médicos não acreditavam que ele chegasse ao dia seguinte vivo. Assim, ele estar aqui ao meu lado, deve ser um milagre daqueles. Então, por favor, fale para Deus que estou muito, muito grato por tamanha benção. Diga a ele como me sinto feliz por ter sido escolhido para tamanha e honrosa missão. Não sei como agradecer. Acho que o Thomas gostaria de perguntar: por que ele. A Dedé, também, faz a mesma pergunta, bem como os outros irmãos.

Sabe eminência, seu superior não precisava ter caprichado tanto. Se o filho dele já pagou a conta por nós, porque nós estamos pagando mais essa fatura, nada pequena. Deus poderia amenizar um pouco, não acha? Um trabalhinho, para o papai aqui iria demonstrar uma boa vontade incrível, da parte dele. Se desse para completar com uma casinha própria e o nosso carro de volta, não seria nada mal. Fala para o Grande Barba Branca que ele pode me usar para elevar a fé das pessoas espalhadas pelas igrejas. Eu não ligaria em passar o resto dos meus dias contando a todo o povo cristão, como foi que Ele curou o Thomas e eu. Jesus fez esses milagres as pampas. Um ou dois a mais, não fará nenhuma diferença no computo geral.

Sei que V.E. está se esbaldando no Mosteiro de São Bento. Não pense que esse nome é em sua homenagem. Não é. Muito antes do senhor nascer ele já existia e tinha esse nome. Um conhecido meu, estuda ai. Ele é gay e está muito feliz por estar vivendo nessa masmorra exótica. É um lugar muito bonito. Eu o conheci na década de sessenta, em um estudo do meio promovido pelo Vocacional. Disseram-me que os noviços eram açoitados nos porões desse palácio, mas fique tranqüilo, eu não acreditei.

Olha, aproveite bem essa sua estada entre nós. Volte logo para Roma e não esqueça de dar meus recados para seu chefe. Se ele não responder, saberemos entender. Só espero que S. S, não fique frustrado por isso. Fiquei abismado com a quantidade de valetes que o senhor tem. Eu não tenho nenhum. Essa é a justiça celeste. Fazer o que.