A Gruta do Lou

Campos de Jordão

Julho, mês de férias escolares, era ótimo nos tempos de professor, nessa altura estaríamos em Campos de Jordão. Se bem que na colônia do Centro do Professorado, mas em Capivari ou no Festival de Inverno, se você estiver bem vestido, ninguém notará que você é um professor. Sem essa facilidade, este mês parece com os outros, fora o agravante dos bicos diminuírem. Quem vive deles, sabe do que estou falando. Mas esse não é o meu caso, evidentemente. Sou o zelador da Caverna e estou ótimo em minha função. Como todo zelador, posso ser autoritário, anti-democrático e anti-republicano, como se fosse o presidente do Senado ou do Congresso, afinal o presidente sempre estará me apoiando com medo de perder meus votos, ou pior, de repente, pode baixar em mim o espírito de Davi e eu formar um exército com a legião de grutenses endividados presentes e partir para derrubar o reino e o rei. Nesse emprego não preciso me preocupar com salário, remuneração ou lucro, essas bobagens que vocês empenham suas almas todos os dias de suas vidas, cuja única garantia é um lugar cativo onde há choro e ranger de dentes. Tudo que necessito é provido pelo Criador. O problema é o desencontro de idéias entre nós dois, sobre o que significa “tudo que necessito”. Todo dia é uma grande surpresa para mim e todos aqueles que tiveram a sorte (ou azar) de depender de mim. Fui a Capão Bonito, no sábado, com o Eliseu, para ver como vai indo a nossa Casa de Recuperação. Estamos com oito internos, no momento e a construção do novo refeitório está indo, já dá para ver metade das paredes. Certamente não faltará azeite para completar o resto. Nossos atendidos são um pouco desprovidos e, além de cuidar do probleminha deles, ainda precisamos sustentá-los, em parte ou no todo, nesses tempos difíceis para eles. Durante a viagem, o Eliseu me falou que a chácara onde está a igreja, sua casa e de mais algumas famílias e sócios de ministério, foi vendida para uma mega empresário da região. Mas ele acredita que Deus deu o lugar para eles e segue em paz. Queria ter essa fé, também. Nessa altura seria ótimo acreditar que Deus me deu essa casa e tirar esse espectro de despejo sem destino dos meus ombros. Meu, só tem uma coisa a fazer antes de mais nada, até mesmo antes de arrumar a namorada: adquirir uma casa própria. Não seja imitador de Cristo, e nem deste imitador inocente do Cordeiro, não tendo onde repousar sua cabeça. Ele ainda se deu bem, pois foi crucificado antes de casar, afinal era o filho do Homem. Mas eu, um reles pecador, dei-me muito mal sem um teto próprio. A Caverna é legal, mas é uma grande utopia, quando se cai na real. Até eu, com todos os meus dons e talentos do Espírito Santo, preciso de um lugar e algo para colocar sobre a mesa todos os dias. Certamente, e no tempo certo, Deus proverá. É que os anos estão passando, os cabelos caindo e neca de pitibiriba para o zelador. Você não acreditaria se eu lhe dissesse que às vezes duvido, como acontecia com a Madre Tereza, também. Talvez até Jesus tenha tido seu momento de vacilo. Pena você não ter planejado estar em Campos de Jordão, caso contrário, poderíamos nos encontrar para tomar um vinho quente ou, caso você seja amigo do Júlio Severo, uma xícara de chocolate quente.

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  1. Pingback: Lou Mello

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